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De antigo aliado a inimigo mortal: entenda o que está por trás do ataque coordenado dos EUA e Israel ao Irã
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De antigo aliado a inimigo mortal: entenda o que está por trás do ataque coordenado dos EUA e Israel ao Irã
Episódio sintetiza uma rivalidade que envolve o programa nuclear do Irã, alianças militares no Oriente Médio, disputas estratégicas que atravessam gerações

Foto: Reuters/Folhapress
A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, após uma ofensiva coordenada de Estados Unidos e Israel contra alvos estratégicos em Teerã, levou ao ponto mais grave de uma crise construída ao longo de décadas. Confirmado pelo governo iraniano e anunciado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, o ataque atingiu o núcleo do poder iraniano, provocou centenas de mortes, desencadeou retaliações imediatas na região e elevou o risco de uma guerra regional ampliada.
O episódio sintetiza uma rivalidade que envolve o programa nuclear do Irã, alianças militares no Oriente Médio, disputas estratégicas que atravessam gerações e, claro, controle sobre o petróleo. Mas antes de viverem às turras, Irã e Israel nem sempre foram inimigos. Até 1979, mantinham cooperação política e econômica.
O Irã, então governado pelo xá Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos, foi o segundo país islâmico a reconhecer Israel após sua criação em 1948. Havia comércio de petróleo e alinhamento estratégico entre ambos diante de rivais regionais. A ruptura veio com a Revolução Islâmica, liderada por Ruhollah Khomeini.
O novo regime rompeu relações, adotou discurso anti-Israel e passou a defender a causa palestina. A partir dos anos 1990, Israel passou a considerar o Irã uma ameaça direta, principalmente por causa do programa nuclear e do apoio de Teerã a grupos terroristas. A antiga parceria deu lugar a uma rivalidade que hoje está no centro das tensões no Oriente Médio.
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Crédito: Reuters/Folhapress
Do amor ao ódio
Se hoje Washington e Teerã trocam ameaças, em 1977 a hipótese de confronto sequer ocupava o debate público. O país era tido como aliado estratégico de Washington no Oriente Médio. Havia cooperação militar, alinhamento político e colaboração no desenvolvimento do programa nuclear iraniano, iniciado nos anos 1950 com apoio americano, dentro da iniciativa Átomos para a Paz.
Em 1953, Estados Unidos e Reino Unido chegaram a apoiar o golpe que derrubou o então primeiro-ministro irianiano Mohammed Mossadegh, consolidando o poder do xá e reforçando o eixo Teerã-Washington em plena Guerra Fria.
O ponto de ruptura veio em 1979. A Revolução Islâmica derrubou a monarquia, instaurou a República Islâmica e adotou o antiamericanismo e o ódio a Israel como marcas ideológicas. A crise dos reféns na embaixada americana, no mesmo ano, selou o rompimento diplomático e inaugurou uma longa era de sanções e hostilidades.
Crédito: Reprodução
Escalada recente
A tensão entre Israel e Irã ganhou novo patamar em abril de 2024, quando Israel bombardeou a embaixada iraniana na Síria e matou comandantes da temida Guarda Revolucionária dos aiatolás. Meses depois, em outubro, o Irã respondeu com o lançamento de cerca de 200 mísseis contra território israelense, após a morte de líderes do Hezbollah e do Hamas, em ações atribuídas a Tel Aviv.
A retaliação israelense ampliou o ciclo de ataques, em um cenário que especialistas classificavam como “guerra indireta”, marcada por confrontos por meio de aliados e operações pontuais. O conflito, porém, ultrapassou esse estágio. Após semanas de tensão diplomática, Estados Unidos e Israel lançaram em 28 de fevereiro deste ano uma ofensiva militar contra o Irã, com a justificativa de risco iminente ligado ao programa nuclear iraniano.
Petróleo sempre aparece no pano de fundo dos conflitos que envolvem EUA
Não importa o conflito em questão ou o objetivo declarado pelas potências envolvidas: a disputa pelo controle do petróleo quase sempre aparece como elemento estratégico, mesmo que não seja central nos discursos. A busca por influência sobre rotas, reservas e cadeias de abastecimento molda decisões diplomáticas e militares.
Ao intervir politicamente em países produtores, como a Venezuela, Washington passou a influenciar parte relevante da produção petrolífera, com reflexos diretos na disputa com concorrentes globais, em especial a China. No caso do Irã, o fechamento do Estreito de Ormuz após ataques atribuídos aos Estados Unidos e a Israel evidencia esse peso geopolítico.
Efeito sobre China
Após os ataques, o Estreito de Ormuz foi fechado por motivos de segurança, segundo informações divulgadas pela agência estatal iraniana Tasnim. Localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, o estreito é responsável pela passagem de cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo.
Especialista em geopolítica e conflitos globais, o jornalista Jamil Chade destacou, em entrevista à Rádio Metropole que a região tem peso estratégico, sobretudo para a China. “Cerca de 40% do petróleo que a China consome passa pelo Estreito de Ormuz. Então, de fato, você ter esse local eventualmente controlado pelos Estados Unidos significa algo
Quais os próximos passos?
Analistas apontam risco de guerra regional ampliada, já que o Irã mantém alianças com grupos armados no Líbano, Iêmen e outros países. Ao mesmo tempo, há incerteza sobre o futuro do programa nuclear e sobre a estabilidade interna do país. A crise atual representa um dos momentos mais graves da rivalidade entre Irã, Israel e Estados Unidos nas últimas décadas.
O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr. classificou como “muito grave” o momento no Oriente Médio, em entrevista ao Jornal da Bahia no Ar em 2 de março. Segundo ele, o conflito envolve uma “superpotência delinquente”, os Estados Unidos, ao lado de um “estado genocida”, Israel, e isso agrava a crise na região.
Para Batista Jr., a ideia de assassinar o líder do Irã, Ali Khamenei, foi “imbecil”, pois, ao eliminar uma figura tão respeitada internamente, tende a reforçar a coesão interna do país. "Irã não é a Venezuela. Ele sabe responder. Está há anos se preparando para esse momento crucial de ataque", advertiu, em meio às ameaças de Trump de guerra prolongada.
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