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Conheça a história da fundação que impulsionou o renascimento da cultura em Salvador
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Conheça a história da fundação que impulsionou o renascimento da cultura em Salvador
Criada por Mário Kertész em 1986, a Gregório de Mattos consolidou a cultura como política pública na capital sem engessá-la nos gabinetes

Foto: Acervo pessoal
Salvador, janeiro de 1986. O então prefeito Mário Kertész, o primeiro eleito pelo voto democrático após anos de ditadura militar, tinha exata noção de que cultura na capital baiana respirava por aparelhos. Nem de longe lembrava o período de luzes iniciado na gestão do médico e professor catedrático Edgard Santos à frente da Universidade Federal da Bahia (Ufba), eternizado pelo epíteto de Magnífico Reitor, a mão que balançou o berço do renascimento artístico na cidade durante a década de 1950
Mas Salvador nunca foi uma cidade moldada no sussurro. Sempre preferiu o grito, a ironia e a contradição. Naquele ano, com a democracia ainda em reconstrução, a capital viu nascer uma ideia que parecia improvável: colocar a cultura dentro da máquina pública sem domesticar sua rebeldia. Era, no fundo, uma aposta arriscada: transformar a força bruta da rua em política, sem tirar dela o veneno e a graça.
Foi nesse ambiente que Mário Kertész, então prefeito de Salvador pela segunda vez, criou a Fundação Gregório de Mattos (FGM). Mais do que um órgão formal, a instituição surgia como o “cérebro” cultural da gestão — um mecanismo pensado para funcionar fora da lógica engessada, com os pés na rua e os ouvidos atentos a uma cidade que nunca coube em protocolo.
A proposta, no entanto, não nasceu ali. Ela vinha sendo gestada desde o fim dos anos 1970, quando o próprio Kertész, ainda como prefeito nomeado durante o regime militar, já ensaiava reposicionar Salvador no mapa cultural brasileiro. “Desde que assumi a gestão pela primeira vez como prefeito biônico, em março de 1979, um dos grandes desafios era tocar um grande plano de renascimento cultural da cidade. Naquela época, a cultura estava engessada, pela decisão das administrações carlistas de unir a pasta de Cultura à de Turismo”, lembra MK.
Havia, naquele momento, um limite intransponível: pensar cultura em tempos de censura era, por definição, um exercício incompleto. Mesmo assim, ele contou com a ajuda de três pioneiros de peso que deram os primeiros passos do projeto que, anos depois, seria impulsionando por meio da fundação: o professor, poeta, filósofo e ensaísta português Agostinho da Silva, o lendário fotógrafo, etnógrafo e antropólogo franco-brasileiro Pierre Verger e o antropólogo Roberto Pinho.
A redemocratização, portanto, não só abriu espaço político; ela destravou um projeto. O primeiro gesto desse processo foi simbólico, e nada discreto. Dar à fundação o nome de Gregório de Mattos não era uma homenagem protocolar. Era um recado. O Boca do Inferno, poeta que satirizou elites, denunciou hipocrisias e fez da palavra uma arma, passava a batizar uma instituição pública. Na prática, era como dizer: a crítica e o renascimento cultural de Salvador agora tinham endereço oficial e engrenagem dentro da estrutura do Poder Público.
Impulsionada por um time estrelado

Inauguração do Palácio Thomé de Souza em 1986: prédio projetado por Lelé foi a materialização do plano de renascimento cultural (Acervo Pessoal)
Impulsionada por um time estrelado
Ao redor dessa ideia, formou-se um grupo que reunia intelectuais, artistas e gestores públicos com visões distintas, mas convergentes na compreensão de Salvador como uma potência cultural ainda subaproveitada. Além de Arlete Soares e Verger, a lista incluía nomes como o poeta e compositor Waly Salomão; o antropólogo, historiador e escritor Antônio Risério; o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé; a artista plástica e educadora Elia Kertész, então primeira-dama da cidade; Roberto Dias, o primeiro presidente da FGM; o jornalista e publicitário João Santana; o produtor cultural, militante do movimento negro e cofundador do Olodum João Jorge; e o guru de toda a equipe, o célebre antropólogo Roberto Pinho, pupilo do professor Agostinho.
“Foi aí que começamos a mudar o jogo de verdade. Antes, na minha primeira gestão, conseguimos alguns avanços, como trazer para a Bahia o acervo de Verger que estava em condições muito precárias em Paris. Mas esse trabalho foi interrompido em 1981 com minha demissão pelo então governador ACM, o mesmo que havia me nomeado”, lembra MK. Reconduzido ao cargo pelo voto direto, ele resgata os planos que ficaram meia década em estado de suspensão.

Roberto Pinho é tido como o principal líder do plano traçado por MK, então prefeito de Salvador pela segunda vez (Metropress)
“Se você observar bem, todos os meus discursos da época eram centrados na necessidade de alavancar o renascimento cultural de Salvador. E esse time foi fundamental para consolidar a Fundação Gregório de Mattos como motor desse processo”, afirmou MK, em entrevista concedida ao Jornal Metropole. Em outra entrevista, para a revista em homenagem aos 40 anos da FGM, MK volta a falar sobre a rotina de trabalho junto a uma equipe de tamanho naipe: “Eles tinham autonomia, claro, mas defini desde a minha posse que o maestro da orquestra seria eu”
Mama África na Casa do Benin
O plano de renascimento cultural concentrado na FGM passava, necessariamente, pelo fluxo de deslocamento. Tirar a cultura do eixo tradicional, físico e simbólico, e reconhecer o que já existia fora dele. Foi nesse contexto que Salvador fortaleceu sua conexão institucional com a África, com a participação decisiva de Pierre Verger, e passou a investir, de forma mais consistente, na valorização das matrizes afro-brasileiras.
Grande parte da ofensiva para valorizar os elos que unem a África e Salvador se deve aos esforços da fotógrafa Arlete Soares, então diretora da fundação. Nomeada por MK, Arlete não só participou da primeira visita de Mário Kertész ao Benin, com foi uma das principais incentivadoras de missões ao país africano, uma delas realizada em 1986, com a presença do primeiro presidente da FGM, Roberto Dias, e de outro diretor da fundação, João Jorge.
A dupla Arlete Soares e Mário Kertész foi responsável também por levar ao país da África uma série de personalidades estreladas da cultura baiana e da religiosidade afrobrasileira, tais como Mãe Stella de Oxóssi, Gilberto Gil, que presidiu a FGM em 1987, e Carybé, todos entusiastas da iniciativa, com as bênçãos e o apoio de Pierre Verger.

Ao lado de Eliana, Barybé e Gilberto Gil, Mário Kertész desembarca no Benin em 1987 (Arlete Soares)
A visita deu origem a uma gama de ações. Entre as quais a criação da Casa do Benin, concebida pela lendária arquiteta italiana Lina Bo Bardi no Pelourinho, e da Casa do Brasil, em Uidá, cidade do Benin que foi um dos maiores portos exportadores de pessoas escravizadas para as Américas. “O papel de Lina é importantíssimo. Inclusive, graças a esse esforço de resgate cultural nós conseguimos trazê-la de volta à Bahia, de onde ela tinha saído por perseguição política”, destaca MK.
"A criação da Gregório de Mattos foi uma iniciativa maravilhosa daquela gestão. Mário colocou a cultura da cidade para todo mundo, para jovens da periferia que não tinham acesso. E a fundação continuou fazendo a coisa certa", declarou a fotógrafa Arlete Soares, um dos cérebros por trás dessa “nova era”.
Motor da guinada cultural, Boca de Brasa resiste ao tempo
Talvez o gesto mais radical, e mais duradouro, da guinada cultural deflagrada pela FGM tenha sido o programa Boca de Brasa. Numa lógica que subvertia o padrão comum da época, o projeto levava estrutura, visibilidade e reconhecimento para bairros historicamente ignorados pelo circuito oficial. Em vez de concentrar a produção artística no Centro, a cidade passava a enxergar potência cultural em lugares como Sussuarana, Palestina e Lobato. Era, na prática, uma mudança de eixo: geográfico, político e simbólico.

Palcos intinerantes do Boca da Brasa fizeram com que a arte ultrapassasse os muros da elite (Acervo Pessoal)
Mais do que descentralizar atividades culturais, o Boca de Brasa ajudou a consolidar uma mudança de olhar sobre Salvador. Ao criar espaços de formação, apresentação e circulação artística nas comunidades, o programa transformou bairros periféricos em polos de produção cultural, revelando artistas, coletivos e linguagens que até então permaneciam à margem.
A política cultural da cidade passava, assim, a dialogar de forma mais direta com as expressões que já pulsavam nas ruas, nas praças e nas periferias, da música ao teatro, da dança às artes urbanas. É nesse contexto que o atual presidente da fundação, o economista e diretor teatral Fernando Guerreiro, define Salvador como uma cidade de múltiplos polos culturais.
“Salvador é multicentro. O Centro Histórico é importantíssimo, mas você tem hoje vida própria em vários pontos da cidade. Valéria tem um movimento cultural impressionante, Cajazeiras também, o Subúrbio Ferroviário, Cabula, Itapuã”, afirmou.
Nova dupla na área
Quando assumiu a presidência da Fundação Gregório de Mattos, em 2013, Guerreiro encontrou o programa parado há dez anos. Mas encontrou também o apoio total do empresário Guilherme Bellintani, recém-nomeado secretário municipal de Cultura e Turismo. O que ambos fizeram deu imensa sobrevida e fôlego ao órgão.
A retomada começou com ações itinerantes pelos bairros. “As pessoas diziam: ‘Eu quero uma coisa fixa. Não quero só que você passe’. Foi aí que começamos a criar os centros culturais”, declarou. Assim, a iniciativa evoluiu para a criação de espaços culturais permanentes nas comunidades.
Ao longo da década seguinte, o projeto foi se consolidando como uma das principais políticas de formação e circulação cultural da cidade. Hoje, o Boca de Brasa conta com 11 equipamentos culturais espalhados por Salvador, funcionando como pontos de encontro para artistas locais.
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