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Pôquer online vira febre com discurso de habilidade, mas expõe riscos e lacunas na lei
Modalidade cresce com discurso de habilidade técnica em vez de jogo de azar, mas expõe riscos à saúde mental e ao bolso do usuário, além de lacunas na lei

Foto: Reprodução/Freepik
Impulsionado por influenciadores, celebridades e uma engrenagem bem afinada de conteúdos virais, o pôquer online ganhou tração nas redes sociais com um discurso que se repete quase como roteiro: não é bet, não é tigrinho; é habilidade. Lives longas, cortes editados e publicidades de jogatina camuflada de entretenimento ajudam a construir uma imagem mais “técnica” do jogo e, com isso, a atrair novos usuários.
Ao tentar se distanciar das apostas esportivas e dos jogos virtuais de cassino, já associados a vício e prejuízo financeiro, o pôquer passa a ocupar um lugar mais aceitável no imaginário digital. Mas essa diferenciação encontra um limite no dinheiro, que permanece sendo peça central da dinâmica.
Pôquer das estrelas
Como a maior parte das plataformas de pôquer online não tem nenhuma operação formal liberada no Brasil, incluindo gigantes do segmento como a PokerStars, a publicidade segue um caminho mais sutil, apresentando o jogo como diversão, sem risco iminente. E essa nova onda tem rosto, estratégia e, sobretudo, escala para ganhar a simpatia do usuário.
Em um vídeo de poucos segundos, Neymar aparece para rebater uma matéria na qual afirmava que ele teria ficado de sexta a domingo jogando pôquer, justamente no período em que ficou de fora de um jogo do Santos por “controle de carga”. Mas, para surpresa de alguns, ele não surge para negar os rumores, e sim para corrigir a informação: era verdade, sim. Neymar admitiu mesmo esteve jogando pôquer, sem sequer precisar sair de casa, por 16 horas seguidas.
Garotos-propaganda
“Joguei sim, online. Para quem não sabe, o scoop (série anual de torneio de pôquer) tá rolando lá no PokerStars. Eu tive esse tempinho pra fazer o que eu mais gosto fora do futebol, que é jogar um pokerzinho. E para quem joga, sabe do que eu tô falando. Eu tô muito contente pela minha performance lá, tô muito bem", disse o jogador nas redes sociais, antes de convidar os fãs a assistirem as partidas dele.
Comediantes, influenciadores digitais e outras celebridades também passaram a estampar o rosto em transmissões de competições de pôquer. Nomes badalados do como Marco Luque, Rodrigo Marques e Thiago Ventura, todos com milhões de seguidores e agenda de shows lotada aparecem como embaixadores de plataformas que disponibilizam o jogo online, especialmente a GG Poker. A estratégia segue a mesma lógica que impulsionou as bets: vender a ideia de apostas em entretenimento e usar caras conhecidas para difundir tal mensagem. Não há dúvidas de que o alcance é significativo.
Do cadastro ao jogo em poucos cliques
Tudo é feito de forma bem pensada para captar dinheiro que se torna simples entrar no mundo do pôquer. Em sites ou aplicativos como o PokerStars, o cadastro é feito em poucas etapas, com solicitação de dados básicos e confirmação de maioridade, sob a justificativa de verificação de identidade e segurança. Como se isso, de fato, impedisse uma criança de se entrar na mesa.
Na sequência, o usuário é direcionado para a etapa de depósito, com opções como Pix e cartões de crédito ou débito, entre outros. Para fisgar o jogador, oferecem valores de entrada acessíveis e conversão automática de moeda. No PokerStars, por exemplo, é solicitado um valor mínimo de depósito, de US$ 8, pouco mais de R$ 40 no câmbio atual. Com o saldo disponível, o acesso a mesas, torneios e jogos é liberado imediatamente.
Embora haja avisos sobre “jogo responsável” e ferramentas de controle, como limites de depósito, o ambiente é estruturado para manter a navegação contínua, com poucas interrupções entre o cadastro, o pagamento e o início das partidas.
Plataformas operam no limbo jurídico
Diferente dos jogos de azar, o pôquer virtual não se enquadra nessa categoria, já que decisões judiciais entendem que o desempenho depende majoritariamente de estratégia, e não apenas de sorte. Por isso, o jogo não é ilegal e segue operando em um espaço onde a lei permite, mas pouco regula.
O problema surge no que não foi regulamentado. A legislação recente das apostas esportivas não abrange o pôquer, criando um cenário de ausência de regras específicas para operação, fiscalização e proteção do usuário. Na prática, plataformas podem funcionar sem cumprir exigências impostas a outros tipos de apostas, especialmente quando sediadas no exterior.
Sem proteção
Segundo o advogado Diogo Guanabara, especialista em Direito Digital, esse cenário cria uma zona de limbo jurídico. “O pôquer não é proibido, mas também não tem regras próprias sobre licenciamento, proteção ao jogador ou fiscalização. É um território legalmente tolerado, mas ao mesmo tempo desprotegido”, afirma.
O especialista também chama atenção para uma diferença relevante dentro do próprio mercado. Há plataformas dedicadas exclusivamente ao pôquer em que a natureza de habilidade encontra respaldo jurídico, mas também sites que oferecem o jogo junto a outros produtos típicos de cassino, como roleta e caça-níqueis. Nesses casos, a situação pode ser diferente. Quando a plataforma reúne jogos baseados em sorte e não cumpre as exigências legais para operar no Brasil, ela atua de formar irregular.
Modalidade traz riscos para os usuários
Se, por um lado, o acesso é simples, por outro, os riscos são, muitas vezes, pouco conhecidos pelos usuários. Um dos principais problemas envolve o bloqueio de contas sem possibilidade efetiva de contestação. Em plataformas sediadas no exterior, o jogador pode ter o acesso suspenso sob alegação de fraude ou violação de termos de uso e, sem garantia de contraditório ou defesa, perder o acesso ao próprio saldo.
Outro ponto sensível é o risco tributário. Os ganhos obtidos em plataformas de pôquer online devem ser declarados à Receita Federal, mas muitos usuários desconhecem essa obrigação. A falta de regras específicas para o setor ainda abre margem para dúvidas sobre a forma correta de tributação.
Há ainda o risco de envolvimento indireto em operações ilícitas, como lavagem de dinheiro. Com grande volume de transações e pouca transparência sobre a origem dos recursos, o ambiente pode expor jogadores a esquemas irregulares sem que eles tenham conhecimento. “Muitas vezes, você na condição de jogador, pode se ver também envolvido dentro de uma estrutura criminosa sem saber”, explica o advogado Diogo Guanabara.
Jogo limpo?
O boom do pôquer online também levanta dúvidas sobre a integridade das partidas. Nas grandes plataformas, porém, especialistas avaliam que há menos espaço para manipulação direta. Isso porque o lucro dessas empresas está no volume de jogos, e não no resultado individual dos jogadores.
“Elas ganham mais com uma pequena taxa que costumam cobrar a cada partida jogada. Então, quanto mais pessoas jogam na plataforma, mais lucro eles vão ter”, afirma o especialista em segurança cibernética, Ariel Moniz, cofundador da Tekky Soluções. “Por incrível que pareça, essas plataformas grandes e mais conhecidas não têm tanta manipulação assim por parte da própria plataforma”, completa.
O cenário muda quando se trata de plataformas menores ou sem certificação. “Um método que é mais utilizado normalmente é o uso de bots (robôs)”, afirma Moniz. Esses programas automatizados analisam padrões de apostas e tomam decisões com base em cálculos estatísticos, o que reduz drasticamente as chances de um jogador comum vencer.
Outro ponto de atenção são ataques conhecidos como “man-in-the-middle”, que permitem a interceptação de dados durante a partida. “Fazendo isso, eu consigo ter acesso a todas as informações do jogo, como está sendo feita a aposta, qual carta que vai ser distribuída”, afirma. Segundo o especialista, esse tipo de prática tende a ocorrer em ambientes menos seguros.
Entre habilidade e o vício
Outro alerta envolvendo o pôquer diz respeito ao potencial de dependência. Vendido como jogo de estratégia, com leitura de adversários e tomada de decisão, ele flerta com a ideia de “habilidade”, mas segue operando sob a lógica da incerteza e da recompensa variável.
Especialistas em saúde mental, no entanto, fazem ressalvas. A psicóloga Ana Carolina Guimarães Venâncio Barbosa, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia, afirma que o pôquer online pode gerar vício como qualquer outro jogo de azar. “Nesse caso, a pessoa acredita que se ela estudar mais ou jogar melhor, por exemplo, poderá recuperar as perdas, e isso vai mantendo o comportamento”, explica.
“Quanto maior a exposição a um determinado comportamento, maior a tendência de ele ser percebido como algo comum, aceitável e até desejável”, explica o psicólogo Iago Argolo, também especializado em dependência, ao salientar que, quando se vê, o que parecia só mais uma rodada já virou hábito.
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