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BookTok impulsiona venda de livros de autores pouco conhecidos e resgata clássicos
Nova febre do TikTok impulsiona mercado de livros por meio de comunidades virtuais e atrai visibilidade para escritores queridos da atual geração

Foto: Divulgação
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 16 de março de 2026
Vídeos curtos, reações emocionadas e listas de leitura têm transformado o TikTok em vitrine literária para uma nova geração de leitores. Somente a hashtag “BookTok” já conta na rede social com mais de 77 milhões de publicações e tem impulsionado vendas, recolocando obras de volta entre os mais vendidos em sites e livrarias pelo Brasil e, claro, criando comunidades em torno dos livros.
Entre os títulos impulsionados por esse movimento estão É Assim que Acaba, de Colleen Hoover; A Hipótese do Amor, de Ali Hazelwood; e Daisy Jones & The Six, de Taylor Jenkins Reid, que ganharam nova visibilidade após viralizar entre criadores de conteúdo. No Brasil, o fenômeno também se reflete nas listas de vendas, com obras como Café com Deus Pai 2025, de Junior Rostirola, figurando entre os mais vendidos; A Empregada, de Freida McFadden; e o próprio A Hipótese do Amor. Todos seguem em destaque após a circulação nas redes.
No mesmo movimento, obras clássicas retomaram as prateleiras após anos de lançamento. As comunidades literárias fortaleceram o ressurgimento do interesse em livros como Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling; Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde; e Dom Casmurro, de Machado de Assis. Todos best-sellers universais e lidos por milhões de pessoas de gerações passadas, mas agora estão também na mira da chamada GenZ.
Da tela para as prateleiras
Para criadores de conteúdo, o impacto do BookTok vai muito além de recomendar uma leitura. Identificação e senso de pertencimento são pontos centrais no movimento, que também altera o papel tradicional de quem faz a mediação de leitura. Diversos professores, críticos e entusiastas literários aproveitavam outras redes, como o Youtube, para influenciar novos leitores e passaram a dividir espaço com uma nova rede social que tem como apelo a conexão emocional entre os leitores.
Para quem produz conteúdo, o sucesso do BookTok está diretamente ligado à forma como a leitura é apresentada. “Eu vejo como uma porta de entrada muito poderosa, porque tira a leitura daquele lugar obrigatório e transforma em algo desejável, divertido e até emocional”, afirma a criadora de conteúdo Yasmin Brossi, que conta com mais de um milhão de seguidores na rede social chinesa. Ela explica que os vídeos despertam a curiosidade, e que os conteúdos de reações reais durante a leitura conectam o público com a experiência.
Para Yasmin, os criadores de conteúdo não substituem professores e críticos, mas se apresentam como um complemento ao trabalho dos especialistas. “As redes sociais entram como um primeiro convite, de forma mais leve e acessível, que ajuda a gente a quebrar essa barreira inicial de que a leitura talvez possa ser algo distante. A leitura, em algum momento, deixou de ser algo solitário e passou a ser uma experiência compartilhada”, completou.
Lógica dos algoritmos
Apesar do TikTok não ser o primeiro espaço na internet a contemplar comunidades de leitura, a forma como os algoritmos e a dinâmica da plataforma agem permite uma difusão mais assertiva dos conteúdos. O professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (Ufba) André Lemos afirma que, em um país de poucos leitores, é importante que esse tipo de influência atue e explica que o aplicativo funciona como um mediador de opiniões e preferências.
“O BookTok tende a valorizar relações emotivas ao livro. Gosto, não gosto, como isso repercute na minha vida, que não é de uma crítica literária, mas sim de uma sensação e de expectativas do leitor comum. Uma crítica mais contundente sobre o livro não aparece muito, porque o algoritmo entende que é interessante essa perspectiva mais emocional e pessoal da leitura”, explica Lemos, uma das principais autoridades do Brasil em comunicação e tecnologia.
Segundo Lemos, a viralização acontece porque o algoritmo compreende rapidamente quais formatos mantêm o público engajado e passa a replicar esse padrão. “A viralização vai se dar porque o algoritmo aprende que essa é a maneira das pessoas circularem conteúdo e se manterem na plataforma”, afirma.
Para o pesquisador, embora a reação pessoal seja válida, a análise não deve se limitar ao gosto individual. “A questão do livro não é só gostei ou não gostei. Tem algo além dessa posição mais sentimental”, completa. Afinal, obras que conquistaram destaque e reconhecimento na literatura traduzem muito mais que a percepção pessoal. Traduzem o retrato de determinada época, captam comportamentos de certas parcelas da sociedade, resgatam a história ao longo do tempo, divertem e ensinam através do que contam e de como contam.
Likes criam fenômenos
As trends, publicações que viralizam e criam tendências nas redes sociais, impulsionam o reconhecimento de novas obras, mas também ajudam a relembrar clássicos da literatura. A influencer baiana Letícia Andrade conta que vídeos do tipo BookTok ajudam a trazer reconhecimento a autores que não tinham tanto espaço no mercado.
“Às vezes, livros muito antigos ou que não tiveram o reconhecimento que deveriam, ou até tiveram, mas foram esquecidos, a partir do momento que esse tipo de trend viraliza a gente tem um consumo muito forte, muito maior depois disso. Às vezes, uma obra já foi tendência antes, mas voltou à tona e você nunca leu. Com os virais, nasce essa vontade de ler”, explicou.
Tanto Leticia Andrade quanto Yasmin Brossi foram destaques na Bienal do Livro Bahia 2026, que começou na quarta-feira (15) e terminou na terça-feira (21). Por lá, passaram escritores cujo sucesso se devem, em parte, ao fenômeno do BookTok, Julia Quinn, autora de Bridgerton; a romancista Elayne Baeta; e os escritores Vitor Martins, Paula Pimenta, Raphael Montes e Vitória Queiroz.
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