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Wellness fake: febre dos suplementos transforma promessas de saúde em perigo silencioso
Na ponga do conceito wellness, empresas vendem suplementos que prometem corpo bonito e bem-estar sem esforço para quem está disposto a pagar por um milagre que não existe

Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial/Metropress
Corpos definidos, envelhecimento lento e energia de sobra. Essas são promessas que parecem fáceis de se cumprir, segundo quem as vende, mas na realidade transformaram o cuidado com o físico e a mente em um mercado que comercializa desempenho e boa aparência como se fossem garrafinhas de água em pleno deserto. Nas academias, redes sociais e, principalmente, lojas online, o bem-estar passou a ser tratado como algo que pode ser facilmente adquirido e otimizado. Tudo isso na ponga de um conceito que virou moda na década: wellness.
O problema é que, por trás dessa lógica, crescem também excessos, riscos e uma relação cada vez mais distante das práticas comprovadamente seguras. Segundo o Global Wellness Institute, organização sem fins lucrativos dedicada a promover o bem-estar no mundo por meio de pesquisa, educação e colaboração científica, o setor movimenta 5,6 trilhões de dólares e pode chegar a 9 trilhões de dólares até 2028. No Brasil, tal avanço se traduz na popularização de suplementos que prometem resolver tudo: do ganho de massa muscular à regulação hormonal.
Poções de ilusão
Misturas de substâncias como cafeína e taurina, entre outros compostos, prometem energia imediata empacotadas nos chamados “pré-treinos”. Pouco se fala, porém, que tais poções vendidas como mágicas podem provocar reações nocivas intensas. O publicitário Nei Neto, de 27 anos, conta que já utilizou fórmulas com composições duvidosas e sentiu efeitos como dormência no corpo, ansiedade e insônia. O que o levou a interromper o uso.
Para esmiuçar os riscos inerentes às poções de ilusão, o Jornal Metropole ouviu três médicos renomados na comunidade científica da Bahia. Entre os quais, a gastroenterologista Ana Ribas, para quem esse tipo de produto pode causar desde sintomas digestivos – como refluxo e diarreia – até complicações cardíacas. Especialmente quando combinados com altas doses de estimulantes.

O publicitário Nei Neto suspendeu o uso de um pré-treino após dormência e ansiedade
Puro marketing
Já o hepatologista Raymundo Paraná, conhecido por combater publicamente a indústria da saúde fake, destaca que muitos dos pré-treinos vendidos a rodo e de modo descontrolado têm mais apelo de marketing do que eficácia real. E o que é pior: com fórmulas pouco transparentes.
A endocrinologista Maria Creusa Rolim explica ainda que a ideia de “regular” ou aumentar hormônios sem diagnóstico é totalmente equivocada. Segundo ela, o organismo saudável já mantém esse equilíbrio naturalmente, exceto quando exames apontam a real necessidade. Intervenções externas podem elevar riscos de trombose, doenças cardiovasculares, câncer e alterações psiquiátricas.
Abecedário do ‘embromation’
Cada suplemento que compõe o cardápio do wellness tipo “embromation” carrega uma promessa que nem sempre está acompanhada da essencial segurança ou do efeito real. Um levantamento feito pela reportagem revela alguns dos produtos em alta entre os consumidores, mas que no fim das contas oferecem riscos à saúde. O hepatologista Raymundo Paraná alerta que muitos desses produtos seguem uma lógica de modismo - surgem, ganham popularidade e, no ano seguinte, são substituídos por outros produtos, mesmo sem comprovação científica. Veja a lista:
Quando o excesso vira doença
O risco aumenta quando dezenas de suplementos são usados ao mesmo tempo. A busca por resultados mais rápidos leva à combinação de fórmulas, muitas vezes sem orientação. O administrador Fred Guedes, de 40 anos, passou a consumir mais de 15 substâncias, mas não observou melhora e ainda desenvolveu desconfortos gastrointestinais. Entre os quais, arrotar a cada minuto do dia.

Raymundo Paraná alerta para alto risco de danos aos rins e ao fígado
De acordo com Raymundo Paraná, esse tipo de prática, além de sobrecarregar fígado e rins, podem provocar desequilíbrios nutricionais. Ana Ribas sente isso no próprio consultório em Salvador. A gastroenterologista relata que, nos últimos dois anos, detectou uma explosão de cerca de 45% de queixas relacionadas a suplementos, incluindo casos de doenças hepáticas, distúrbios gastrointestinais e inflamações do pâncreas, parte dele evoluindo para internações.
Redes sociais: porta de entrada
A entrada nesse universo costuma começar com o objetivo de melhorar o corpo e a aparência sem tanto esforço. Foi assim com o analista de negócios Gabriel Bonfim, de 28 anos. Em busca de aumentar a disposição física, perder gordura e melhorar o fluxo intestinal, Bonfim passou a usar, sem orientação especializada, quatro produtos do cardápio wellness: ZMA, Ômega-3, Morosil e Psyllium, todos comprados online, seguindo a lógica da praticidade e dos resultados rápidos.
Esse comportamento, no entanto, vai além do aspecto individual. Profissional com dez anos de experiência em psicologia clínica, a psicóloga Izabelle Nossa explica que, hoje, as redes sociais têm um papel decisivo nesse processo. Nelas, corpos são apresentados como projetos em constante evolução, quase sempre associados ao uso de suplementos. O que cria a sensação, falsa, de que consumir tais produtos é parte obrigatória para conquistar o objetivo.
Laboratórios ‘171’
Para tentar conter danos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém canais de denúncia, mas enfrenta limitações. Diferente dos medicamentos, os suplementos não passam pelo mesmo rigor antes de chegar ao mercado. Quando a informação de produtos suspeitos chega à agência, ela atua na apreensão de suplementos de empresas sem registro ou estrutura sanitária comprovada. Mas, até que isso aconteça, a fiscalização fica para trás diante da velocidade com que novos produtos chegam ao mercado.

Agentes da Anvisa intensificam cerco a produtos irregulares, mas trabalho esbarra na velocidade com que surgem novos rótulos
Testes realizados pela Associação Brasileira de Empresas de Produtos Nutricionais (Abenutri) já apontaram inconsistências graves, como falta do suplemento que diziam vender ou pureza abaixo do recomendado – a mesma coisa de levar cloaca achando que é peito do frango. As principais dizem respeito à creatina.
No fim, apesar da variedade de produtos, especialistas são unânimes: alimentação equilibrada, sono adequado, exercícios físicos regulares e acompanhamento médico são as únicas fontes confiáveis de bem-estar físico e corpo saudável. Fora isso, não existe mágica.
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