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Dietas malucas: redes impulsionam práticas extremas sem base científica e preocupam médicos
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Dietas malucas: redes impulsionam práticas extremas sem base científica e preocupam médicos
Depoimentos nas redes e ideias de “limpar o organismo” ajudam a espalhar práticas perigosas vendidas como solução para excesso de peso e evolução alimentar

Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial/Metropress
A cena se repete em silêncio: alguém rola o feed, encontra um vídeo de transformação impressionante e decide tentar. No começo, parece simples – cortar um alimento, estender o jejum, seguir à risca um protocolo. Em poucos dias, o corpo responde. Em poucas semanas, cobra.
Entre a promessa de resultado rápido e a realidade biológica, cresce um fenômeno que médicos já tratam como preocupante: a explosão de dietas extremas impulsionadas pela internet. Mais do que modismos isolados, essas práticas se sustentam em narrativas sedutoras – a ideia de “purificar” o organismo, acelerar o metabolismo ou assumir controle total sobre o próprio corpo.
Desejo e o risco
A busca por um corpo mais magro levou o escritor Pedro Braga, de 31 anos, a mergulhar em dietas cada vez mais restritivas. Inspirado por vídeos do YouTube, adotou a dieta carnívora em um dos momentos em que estava mais obcecado em perder peso. Cortou totalmente carboidratos e passou a viver basicamente de proteína.
No início, viu o corpo responder – e isso bastou para seguir, mesmo diante dos sinais de alerta. Chegava a ignorar episódios de tontura e fraqueza. Em fases mais intensas, relata que até reações negativas do corpo, como diarreia, eram interpretadas como progresso.
A experiência não se sustentou. A fome constante, o mal-estar e a dificuldade de manter a rotina fizeram com que abandonasse a dieta, seguido de ganho de peso. Profissional com mais de duas décadas de experiência, a endocrinologista Maria Creusa Rolim, chefe do serviço de endocrinologia no Hospital Ana Nery, referência no estado para a área explica que esse ciclo é comum.
Basicamente, diz a médica, dietas extremamente restritivas levam à perda rápida de peso, mas também a redução de massa muscular e desaceleração metabólica, favorecendo o efeito rebote. Maria Creusa destaca ainda práticas dessa ordem deixam o corpo em estado de estresse metabólico, aumentando riscos cardiovasculares, hormonais e até de doenças graves.

"Dietas restritivas levam também
à redução de massa muscular",
alerta Maria Creusa Rolim
Outro extremo
A estudante Luísa Cunha, de 25 anos, trilhou outro caminho, mas igualmente extremo: passou dias apenas com ingestão de água após ver relatos nas redes. Com histórico de transtornos alimentares, naturalizou sinais como pressão baixa. Os especialistas ouvidos pela reportagem alertam que práticas assim podem agravar quadros pré-existentes e levar a complicações sérias, físicas e psicológicas.
Para a nutróloga Aritana Alves Pereira, formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Santa Cruz e especializada na Universidade de São Paulo (USP), essas dietas ignoram pilares básicos da nutrição, como equilíbrio, variedade e sustentabilidade.
Nos consultórios, os efeitos já são notados. A nutróloga relata aumento de casos de desnutrição, anemia e perda severa de massa muscular. Em um dos atendimentos, uma paciente idosa perdeu tanta força que precisou de muletas para andar após aderir a uma dieta extremamente restritiva.
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Vinícius Farani, psicólogo, e Aritana Alves, nutróloga, alertam para os perigos de embarcar
em dietas que prometem milagres nas redes, mas entregam problemas graves de saúde
Dietas que viralizaram
Carnívora ou da selva - É um plano alimentar extremamente restritivo e baseado a
penas no consumo de produtos de origem animal como carnes, ovos e, em alguns casos, laticínios. Elimina completamente frutas, vegetais, grãos e qualquer fonte de carboidrato. Vendida como estratégia para emagrecimento rápido e aumento de energia, pode provocar deficiências importantes de vitaminas, ausência de fibras, alterações intestinais e aumento de colesterol.
Jejum intermitente e prolongado - Consiste em períodos sem ingestão de alimentos que podem variar de horas a dias. Quando estruturado e acompanhado, pode ter aplicações específicas. Mas versões extremas – como jejuns de 48h, 72h ou mais – são disseminadas como solução rápida para emagrecimento. Sem supervisão, podem causar hipoglicemia, perda de massa muscular, desidratação e desequilíbrios eletrolíticos.
Crudivorismo extremo - Baseia-se no consumo exclusivo de alimentos crus, sem qualquer tipo de cozimento. A proposta é preservar nutrientes, mas, na prática, pode comprometer a ingestão adequada de proteínas e levar à deficiência de vitamina B12, ferro, cálcio e zinco, além de ser pouco sustentável a longo prazo.
Dieta da argila (geofagia) - Defende a ingestão de barro ou argila como forma de “desintoxicar” o organismo. Não possui qualquer respaldo científico e pode causar contaminação por metais pesados, além de prejudicar a absorção de nutrientes e provocar problemas intestinais.
Respiratorianismo (breatharianismo) - Uma das práticas mais extremas: propõe que o ser humano pode viver sem comida – e, em alguns casos, sem água – sustentando-se apenas por “energia vital”. Do ponto de vista médico, leva à desnutrição severa, desidratação e risco concreto de morte.
Protocolos de fisiculturismo adaptados - Estratégias usadas por atletas em contextos específicos – a exemplo de cortes drásticos de carboidratos, sobrecarga de proteínas e manipulação de água - vêm sendo replicadas por pessoas comuns. Sem acompanhamento, podem gerar sobrecarga renal, distúrbios metabólicos, desidratação e complicações cardiovasculares.
O que os números mostram
Um levantamento feito pelo Jornal Metropole, com base no Google Trends, revela o quanto intensa tem sido a busca por essas dietas. A busca por “dieta carnívora” aumentou 40% nos últimos dois anos e segue em alta. Já o termo “dieta carnívora como fazer” cresceu 60% no mesmo período.
O jejum aparece como outro protagonista. A pesquisa por “plano de jejum intermitente gratuito” disparou 4.450% nos últimos cinco anos. “Jejum intermitente metabólico” cresceu 1.350% apenas no último ano. E o interesse geral por jejum intermitente subiu mais de 30%, com destaque para a busca “jejum intermitente emagrece”, que avançou 60%.
Outras práticas seguem a mesma lógica de picos repentinos: o crudivorismo teve alta de 100% nas últimas semanas, com pico em 27 de abril, enquanto o respiratorianismo também registrou aumento de 100% no início de abril.

Imagem gerada por interligência artificial
Práticas pregam cultura da pressa e corpo como símbolo
Por trás dos números que revelam o salto nas buscas por soluções irreais, há um padrão cultural. O psicólogo Vinícius Farani, com 20 anos de experiência clínica, aponta que a sociedade atual valoriza velocidade, resultado imediato e performance constante. Nesse cenário, o corpo deixa de ser apenas biológico e passa a representar conquista, disciplina e sucesso.
A busca por controle total – seja da alimentação ou da aparência – se conecta a uma tentativa de dominar incertezas mais profundas. O problema, destaca Farani, é quando essa busca ultrapassa o limite do cuidado e se transforma em obsessão, gerando isolamento social, culpa e sofrimento, diz o profissional.
Para o Conselho Regional de Nutrição da 5ª Região (CRN-5), que atende a Bahia, a internet é um dos principais vetores de desinformação. Diante da explosão de dietas extremas nas redes, o órgão afirma que tem ampliado a atuação para conter a desinformação alimentar. Embora reconheça que não é possível monitorar todo o conteúdo publicado, acompanha temas que ganham grande repercussão e age a partir de denúncias ou circulação massiva.
As medidas incluem orientação pública com campanhas, fiscalização e encaminhamento de casos ao Ministério Público quando há indícios de exercício ilegal da profissão. Influenciadores sem formação podem ser investigados e responsabilizados. Inclusive, há registros de denúncias recentes sobre dietas perigosas que já resultaram em advertência e multa.
Por trás da viralização
O crescimento dessas dietas não acontece por acaso. Parte da explicação está na forma como os conteúdos circulam nas redes. Segundo Gustavo Coutinho, mercadólogo com dez anos de atuação e especialista em marketing digital, conteúdos que despertam curiosidade e prometem resultados rápidos tendem a prender mais atenção – e, por isso, são mais distribuídos pelas plataformas.

Gustavo Coutinho
Na prática, isso cria um efeito de repetição: ao interagir através de curtidas, comentários ou apenas assistir vídeos sobre dieta, o usuário passa a receber cada vez mais conteúdos semelhantes, muitas vezes mais radicais. Relatos pessoais e formatos como “antes e depois” ganham destaque porque são mais fáceis de consumir do que explicações científicas, acrescenta o psicólogo Vinícius Farani.
Além disso, influenciadores constroem autoridade com base em identificação com o público, não necessariamente por meio de formação técnica. O resultado é um ambiente onde experiências individuais se transformam em regra – e onde o que viraliza nem sempre é o que é seguro.
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