Quinta-feira, 07 de maio de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Notícias

/

Jornal da Metropole

/

Bregas virtuais transforma Salvador na capital do sexo a um clique

Jornal Metropole

Bregas virtuais transforma Salvador na capital do sexo a um clique

Na capital, sites e plataformas online reorganizam a forma de apresentação, escolha, preço e atuação de garotas de programa que se exibem sem pudor

Bregas virtuais transforma Salvador na capital do sexo a um clique

Foto: Reprodução

Por: Duda Matos no dia 07 de maio de 2026 às 08:00

Atualizado: no dia 07 de maio de 2026 às 08:04

Salvador sempre teve rotas, discretas ou não, para aquilo que a cidade chama de várias maneiras: de cabaré a brega, de night club a puteiro. Mudam as décadas, mudam os pontos físicos, mas a lógica da procura e da oferta se mantém, reorganizada conforme o tempo e suas próprias formas de circulação. Os percursos da prostituição, antes marcados pelo espaço urbano e majoritariamente por encontros sexuais precedidos pela presença física, começaram a encontrar outros caminhos nos últimos anos, mediados por interfaces digitais.

Em outro tempo, havia quem percorresse certos pontos de Salvador à caça de um puteiro em locais como a Ladeira da Montanha. Décadas depois, os classificados de jornal resolviam tudo em poucas linhas, quase sempre no limite do que se podia sugerir. Hoje essa dinâmica se espalhou em outra direção, ganhou corpo em imagens explícitas e descrições capazes de organizar a escolha antes mesmo de qualquer contato.

Aos poucos, esse circuito foi deixando de depender do deslocamento físico como ponto de partida. A rua continua ali, mas perdeu o espaço que tinha inicialmente na indústria do sexo pago. Hoje, o primeiro gesto passa a acontecer na tela, onde a busca é constante, o acesso é imediato e a aproximação se dá em sequência de escolhas rápidas, como se os bregas da cidade tivessem sido transpostos para uma superfície contínua de navegação.

Beco digital 

Um levantamento rápido em plataformas digitais revela a existência de dezenas de sites de acompanhantes com atuação nacional e presença em Salvador, além de cidades do interior da Bahia, como Feira de Santana, Vitória da Conquista e Itabuna. Entre os mais famosos estão plataformas como Fatal Model, PhotoAcompanhantes, Eros Guia e Elite Girl, pioneiro do gênero na capital. 

Cada um desses sites organiza esse universo à sua maneira, mas todas compartilham uma mesma interface de funcionamento: a apresentação de perfis em formato de vitrine, com opções que podem ser filtradas, comparadas e selecionadas em poucos segundos.

Antes mesmo de acessar o conteúdo principal, há um gesto que se repete em praticamente todas essas plataformas. O aviso de 18 anos ou mais e confirmação da idade surge como filtro inicial, quase automático, antes que o conteúdo se revele. A partir daí, a página se desdobra em sequência de perfis, organizados como uma vitrine contínua, onde o olhar percorre e seleciona em poucos gestos.

Sex and the City

No Eros Guia, essa dinâmica já aparece desde a forma como o próprio site se apresenta. Em vez de uma descrição neutra, o que se lê é um texto que mistura elementos da cidade e experiência, como se Salvador fosse parte ativa da promessa. A lógica tenta enquadrar os perfis dentro de uma narrativa em que o ambiente urbano também participa da construção da expectativa do cliente.

Já na famosa plataforma Fatal Model, conhecida por ter patrocinado clubes do futebol brasileiro, entre os quais o Vitória, essa organização ganha outra forma de imediatismo. O perfil já se apresenta com fotografia, descrição, áudio e valores concentrados em uma mesma tela. O preço aparece de forma direta, sem etapas intermediárias, e a decisão tende a acontecer no mesmo fluxo de visualização. 

No Elite Girl, o próprio texto de apresentação delimita o funcionamento do sistema e busca separar com clareza as partes envolvidas. Ali se afirma que não há recrutamento, intermediação ou contato ativo para captação de anunciantes, reforçando que o ingresso acontece de forma individual e autônoma. 

A plataforma se define como um espaço de anúncios, uma espécie de marketplace, responsável apenas por conectar perfis e usuários, sem participação nas negociações ou nos conteúdos publicados. Cada perfil responde diretamente pelo próprio conteúdo, enquanto o sistema atua como estrutura de exibição.

Oásis de discrição

Em uma dessas navegações, um detalhe chama atenção. Ao buscar o primeiro contato, em vez de uma foto pessoal ou mais sensual, diferente das imagens dos sites, o perfil no aplicativo de mensagens exibia uma paisagem com flores. Uma escolha discreta, que foge completamente da lógica de exposição das plataformas e pode indicar um cuidado com a privacidade, tanto de quem anuncia quanto de quem procura o contato.

Flora, nome usado pela garota de programa do perfil acima, tem 24 anos e trabalha desde os 18 como acompanhante. Ela diz que a forma como se apresenta é uma escolha pensada dentro do próprio ambiente digital. “Priorizo a descrição e serenidade. Nada vulgar pra não atrair clientes que pra mim não são interessantes”, afirmou Flora, em conversa com o Jornal Metropole.

Vitrines do desejo 

Nesse universo, a imagem acaba ocupando o lugar principal da vitrine. É ela que aparece primeiro, que organiza o olhar e, em muitos casos, define o próximo passo. O fotógrafo Marcelo (nome fictício), que atua nesse mercado há mais de uma década, descreve o trabalho para sites do ramo como algo que vai além de registrar pessoas. “No fundo, é sobre como você vai ser visto dentro da plataforma”, diz.

Ele conta que tudo começa antes do clique. Tem conversa, alinhamento e uma ideia do que precisa ser comunicado. “A imagem é o primeiro contato, às vezes é o único”, resume, com naturalidade de quem já viu esse processo se repetir muitas vezes.

A partir daí, a construção é quase como montar uma vitrine. Escolha de luz, cenário, pose, tudo entra nessa composição que precisa funcionar dentro do ambiente digital. Não é só sobre ficar bonito na foto, mas sobre chamar atenção no meio de outras tantas opções que aparecem lado a lado. Marcelo faz uma comparação direta. “É como um shopping mesmo. Cada perfil é uma loja. E a foto é a vitrine que faz alguém entrar ou seguir andando”, diz.

Relatos de uma acompanhante de luxo

Entre perfis, imagens e descrições, há também quem atravesse esse mercado o tempo suficiente para observar suas mudanças por dentro. Brunna Leal, acompanhante de luxo, está nesse percurso há mais de uma década. Começou em um formato ainda marcado por intermediações, indicações e acessos restritos, antes de migrar para os sites online. 

“Antes, a gente se limitava a fazer anúncios nos jornais, ser agenciada, ter um cafetão para dizer qual trabalho fazer e com quem fazer. A gente não tinha essa autonomia de escolher o que vai fazer ou com quem vai sair”, explica. 

Ao falar sobre esse universo, no entanto, o que emerge não é apenas a mudança das formas de trabalho, mas a maneira como ele ainda é percebido por quem está de fora. “Existe ainda muito julgamento e essa crença de que toda mulher que é do ‘job’, que está trabalhando como acompanhante, é uma mulher que não teve possibilidades, condições, chances na vida, é sempre uma coitada”, desabafa.

Brunna diz que a atividade não exclui outras possibilidades, nem se coloca como último recurso. Nesse deslocamento, a figura da acompanhante deixa de estar associada apenas à falta e passa a ser narrada a partir de uma decisão pessoal. “Depois de 14 anos como acompanhante de luxo, afirmo que, para mim, é uma escolha que eu administro muito bem e que eu não tenho problemas em trabalhar [...] Tenho formação em administração de empresas, estou cursando psicologia, mas isso não quer dizer que o trabalho como acompanhante não seja mais um trabalho que eu também quero exercer”, completa.

O que diz a lei

A leitura jurídica sobre esse tipo de atividade parte de uma distinção central. Segundo a advogada Jôze Karen Souza, especialista em Direito Digital, Proteção de Dados e Cibersegurança, vender serviços sexuais de forma autônoma não é crime no Brasil. O que a legislação penaliza são as condutas de terceiros que envolvem exploração, indução ou obtenção de lucro sobre a atividade de outra pessoa, como nos casos de favorecimento ou rufianismo, a boa e velha cafetinagem.

No ambiente digital, o debate se torna mais sensível. Plataformas costumam se apresentar como espaços de anúncios, mas essa fronteira pode se alterar quando há intermediação de contatos, controle de visibilidade ou participação indireta na dinâmica dos serviços. “Quando a plataforma vai além do papel de catálogo, ela começa a se aproximar de outras responsabilidades jurídicas”, observa a advogada.

Esse cenário se tornou ainda mais complexo com a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital e com regras já previstas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). As plataformas passaram a ter obrigações mais rígidas de verificação de idade e proteção de dados sensíveis, especialmente, os ligados à vida sexual. Em caso de falhas, as sanções podem incluir multas elevadas, suspensão de atividades e responsabilização compartilhada entre os diferentes agentes da cadeia digital.