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Bronze do perigo: apesar de alertas, máquinas de bronzeamento seguem atraindo clientes em Salvador
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Bronze do perigo: apesar de alertas, máquinas de bronzeamento seguem atraindo clientes em Salvador
Influência de redes sociais, busca por autoestima e associação entre pele bronzeada e beleza ajudam a manter prática perigosa de bronzeamento em máquinas, proibida pela Anvisa, em alta na capital baiana

Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial/Metropress
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 14 de maio de 2026
O quarto escurece, fitas em formato de biquíni são ajustadas ao corpo e as lâmpadas começam a emitir uma luz forte, quente e artificial. Em poucos minutos, a promessa aparece diante do espelho: pele dourada, marcas bem desenhadas e a sensação de autoestima renovada. Em Salvador, onde o bronzeado é moda quase desde que o mundo é mundo, máquinas de bronzeamento seguem atraindo clientes, mesmo sob proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O fenômeno vai além da estética. A busca pela chamada “marquinha perfeita” vem sendo impulsionada por uma combinação poderosa de pressão estética, influência digital e a ideia de que o bronzeado representa beleza, saúde e autocuidado.
A Anvisa mantém, desde 2009, a proibição de câmaras de bronzeamento artificial para fins estéticos no Brasil. A decisão foi tomada após a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), classificar os equipamentos como cancerígenos para humanos.
Interdição em série
Na última semana, seis espaços que ofereciam bronzeamento artificial foram interditados em Salvador e Lauro de Freitas, durante uma operação conjunta de fiscalização. Em cinco deles, além das máquinas, foram encontrados produtos sem autorização sanitária, vencidos ou adulterados.

Foto: Acom/PCBA
Hoje, as máquinas de bronzeamento já não são câmaras como nos anos 2000. Os modelos são abertos, em formatos de corredor, em pé ou deitados. Apesar da diferença, na prática, o princípio é o mesmo: uso de lâmpadas ultravioleta, principalmente UVA, com raios capazes de penetrar profundamente na pele.
“Autoestima lá em cima”
Durante muito tempo, a servidora pública Ellen Dias, de 25 anos, moradora da cidade de Mata d
e São João, na RMS, evitou fazer bronzeamento, justamente pelos alertas que via sobre queimaduras e câncer de pele. No entanto, dos últimos tempos para cá, aderiu ao bronzeamento artificial.
O que acabou vencendo o medo não foi exatamente a busca pela marca desenhada no corpo. Foi o que vinha depois dela. Ellen conta que começou a se interessar pelo bronzeamento ouvindo mulheres relatarem mudanças na autoestima após as sessões.
A ideia de se sentir mais bonita, mais confiante e mais satisfeita com a própria aparência passou a despertar curiosidade. O ponto decisivo veio quando viu uma influenciadora em quem confiava abrir o próprio espaço de bronzeamento. Desde então, a percepção de segurança mudou.
A primeira experiência foi no bronze de fita em máquina. Antes disso, ela chegou a fazer bronzeamento no sol, mas não gostou do resultado. Nas máquinas, segundo relata, o tom ficava mais uniforme e mais intenso.
Com o tempo, o bronze passou a ocupar um espaço fixo na rotina estética da servidora. Ellen descreve a marquinha como parte de um conjunto que ajuda a elevar a autoestima, junto com cabelo, maquiagem, unhas e cílios. Mesmo consciente dos riscos, afirma que continua fazendo sessões porque gosta da sensação provocada pelo resultado na pele.
A experiência narrada por ela ajuda a mostrar por que o bronzeamento segue crescendo mesmo diante dos alertas médicos. Não se trata apenas de cor de pele. Existe uma dimensão emocional ligada à sensação de pertencimento, beleza e valorização da própria imagem.
Método esconde ‘gato por lebre’
O dermatologista G
ustavo Machado, do hospital Mater Dei e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), afirma que o que mais preocupa os médicos é justamente a banalização da exposição a essas luzes como padrão estético saudável.
Segundo ele, enquanto muitas pessoas ainda associam pele bronzeada à saúde e vitalidade, o bronzeado representa, na verdade, uma reação de defesa da pele após agressão causada pela radiação ultravioleta.
O médico ainda explica que tanto o bronzeamento natural quanto o artificial provocam danos cumulativos ao DNA das células. Parte dessas lesões até é reparada pelo organismo, mas outra parte permanece acumulada ao longo dos anos, aumentando o risco de manchas, perda de elasticidade, envelhecimento precoce e câncer de pele.
Para o oncologista Carlos Frederico Lopes Benevides, professor da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e gerente de Ensino e Pesquisa do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, esse comportamento revela um fenômeno cada vez mais comum: pessoas que conhecem os riscos, mas seguem encarando o bronzeamento como algo associado ao bem-estar e à estética.

Oncologista Carlos Frederico Lopes Benevides
Segundo o médico, a exposição repetida à radiação UVA ou UVB na juventude é especialmente preocupante porque os danos são progressivos e silenciosos. Queimaduras solares frequentes, principalmente aquelas com vermelhidão intensa ou bolhas, aumentam significativamente o risco de desenvolvimento de câncer de pele ao longo da vida.
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