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Entre tintas e memórias, bairros de Salvador revivem tradição de decorar ruas para a Copa do Mundo

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Entre tintas e memórias, bairros de Salvador revivem tradição de decorar ruas para a Copa do Mundo

Em três comunidades da capital, moradores voltam a pintar as ruas com cores da Seleção e símbolos do Brasil, repetindo um costume que se renova a cada quatro anos

Entre tintas e memórias, bairros de Salvador revivem tradição de decorar ruas para a Copa do Mundo

Foto: Izabela Prazeres/Metropress

Por: Duda Matos no dia 18 de junho de 2026 às 09:00

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole de 18 de junho de 2026 

Antes mesmo que a primeira bola rolasse, a Copa do Mundo já havia começado nas ruas. Não nos estádios, nem nas transmissões de televisão, mas no asfalto. Em Salvador, a chegada do Mundial de 2026 trouxe de volta uma cena que marca diferentes gerações de brasileiros: moradores reunidos para pintar ruas, desenhar bandeiras e transformar bairros inteiros em uma celebração coletiva. 

Para muitos, a impressão era de que esse costume havia perdido força ao longo dos anos. Mas basta caminhar por alguns bairros de Salvador para perceber que a tradição continua viva. Entre latas de tinta, pincéis e madrugadas de trabalho, comunidades inteiras reafirmam laços de pertencimento e recuperam uma tradição que resiste às transformações da vida urbana. 

A reportagem visitou três pontos da cidade que decidiram manter acesa essa memória coletiva: a Rua Caxundé, na Boca do Rio; a Rua Souza Uziel, conhecida como a famosa Rua 13, na Federação; e o Estaleiro do Bonfim. Em cada um desses lugares, a Copa revelou algo que vai além do futebol: a prova de que ainda existem comunidades dispostas a se reunir para construir algo coletivamente.

Rua 13, patrimônio da comunidade

Se existe um lugar em Salvador onde a tradição das ruas decoradas ganhou dimensão própria, esse lugar é a Rua 13, na Federação. O nome oficial é Rua Souza Uziel, mas quase ninguém a chama assim. Há duas décadas, a via apertada se transformou em referência quando o assunto é ornamentação para a Copa do Mundo.

A história começou em 2006, por iniciativa de moradores liderados por Ronaldo Rangel, conhecido como Naldinho. Na época, a decoração era bem mais simples do que a que se vê atualmente. Com o passar dos anos, o projeto ganhou novas dimensões, incorporou o trabalho de grafiteiros e, principalmente, um tapete de bandeirolas a céu aberto que chama a atenção para além dos limites do bairro.

Fama internacional

O reconhecimento veio rapidamente. Em 2010, a rua recebeu cobertura de veículos internacionais e passou a figurar em reportagens produzidas por jornalistas de diferentes países. O destaque ajudou a consolidar a Rua 13 como um dos símbolos da cultura popular associada às Copas do Mundo em Salvador.

Este ano, o trabalho foi concluído em apenas 28 dias, tempo considerado recorde para os padrões da própria comunidade. Enquanto parte dos moradores instalava bandeirolas, outros preparavam estruturas, pintavam paredes ou organizavam os materiais. O processo se transformou em um grande mutirão comunitário.

Moradora da Rua 13, a assessora de comunicação e marketing Cibeli Sandrini, 23 anos, acredita que a principal motivação não está necessariamente na expectativa pelo título mundial. 

Legado afetivo

Para ela, o que move os moradores é a possibilidade de reviver experiências que marcaram a infância de muitas pessoas e transmitir essas memórias para as novas gerações. “O que move as pessoas é voltar a ter aquele sentimento da infância, do coletivo, de todo mundo junto. É uma coisa que só a Copa proporciona”, afirmou.

Nascido e criado na Rua 13 há 26 anos, Marcos Vinicius de Souza resume esse sentimento ao afirmar que a tradição representa uma passagem de bastão entre gerações. Os mais velhos ensinaram o caminho, e os mais jovens assumem agora a responsabilidade de mantê-lo vivo.

Rua Caxundé, onde tradição mobiliza os vizinhos

Na Boca do Rio, a pintura da Rua Caxundé quase não saiu do papel este ano. A ideia de repetir a mobilização de outras Copas enfrentou dúvidas e dificuldades, mas acabou vencida pela insistência dos próprios moradores. Segundo a influenciadora Ingrid Lenara, uma das pessoas envolvidas na organização, a comunidade foi decisiva para que a tradição fosse mantida. 

“O Brasil é país do futebol. Mesmo não acreditando tanto no hexa, como muitas pessoas não acreditam, é importante mandar energias positivas e torcer junto. E ainda manter a tradição para a nova geração”, disse Ingrid. 

A arrecadação começou de forma simples. Os moradores contribuíram como puderam e, através de grupos de WhatsApp, a organização coordenou as ações e os mutirões passaram a ocupar as noites da semana.

Neste caso, os artistas dos desenhos são os próprios moradores. Cada pessoa contribuiu como podia, seja criando uma arte, pintando um trecho ou ajudando na organização. O resultado foi uma rua inteira colorida por dezenas de mãos diferentes.

Ainda que a tinta desapareça com o tempo e o movimento dos carros, os moradores enxergam valor no processo. O sentimento compartilhado é de que a experiência vale a pena seja lá qual for o resultado da Seleção dentro de campo.

Estaleiro do Bonfim

No Estaleiro do Bonfim, a rua entra no clima da Copa com as cores da Seleção espalhadas pelo asfalto e pelas fachadas. Entre bandeiras, desenhos e tinta fresca, aparecem também elementos do próprio bairro, como o cachorro caramelo que circula pela rua e frases pintadas no chão, entre elas “minha rua é mais Brasil”.

No Bonfim, assim como nas demais ruas da Copa, a tradição vai além da disputa dentro de campo. Mesmo entre quem não demonstra plena confiança na conquista, o envolvimento com os mutirões se mantém como expressão de pertencimento e convivência coletiva. Mais do que o desempenho da Seleção, o que se preserva é a experiência compartilhada renovada a cada Mundial.