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Ampolas de "mounjaro paraguaio" entram na Bahia por contrabando e abastecem mercado paralelo
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Ampolas de "mounjaro paraguaio" entram na Bahia por contrabando e abastecem mercado paralelo
Frascos ilegais de tirzepatida chegam à Bahia por rotas de contrabando, abastecem mercado paralelo em expansão pela facilidade de compra e preocupam autoridades de saúde

Foto: Imagem gerada com auxílio de IA
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 18 de junho de 2026
A busca por soluções rápidas para a perda de peso tem impulsionado um mercado clandestino que cresce em todo o país e já alcança a Bahia. Depois da febre das canetas emagrecedoras paraguaias, agora as ampolas à base de tirzepatida – princípio ativo do Mounjaro – produzidas no país vizinho e sem autorização para venda no Brasil chegam aos consumidores por meio de uma cadeia de contrabando que atravessa fronteiras, rodovias e aeroportos, até desembarcar em cidades baianas.
O fenômeno acompanha a popularização dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes. Com a alta procura e os preços elevados dos produtos regularizados, versões paraguaias passaram a ser oferecidas em redes sociais, aplicativos de mensagens e canais informais de venda.
A diferença de preço é um dos principais atrativos para os consumidores. Enquanto o Mounjaro de 15 mg comercializado legalmente no Brasil pode custar cerca de R$ 3.500, mesmo com descontos oferecidos pela fabricante, ampolas produzidas no Paraguai são anunciadas por valores entre R$ 370 e R$ 950.
Sem garantia
Não há garantias sobre procedência, composição e condições de armazenamento desses produtos. Muitas ampolas entram no país escondidas em veículos ou bagagens e percorrem longas distâncias sem qualquer controle de temperatura ou conservação, fatores que podem comprometer sua eficácia e segurança.
Além disso, o transporte e a comercialização dessas ampolas podem resultar em responsabilização criminal. Dependendo das circunstâncias, os envolvidos podem responder por contrabando, descaminho e crimes contra a saúde pública.
Mercado clandestino
A facilidade de acesso a esses produtos chamou a atenção da reportagem. Em uma busca simples nas redes sociais, o Jornal Metropole localizou links publicados no Facebook que direcionavam para grupos de WhatsApp dedicados à comercialização de ampolas de tirzepatida.
Além dos grupos monitorados pela equipe, também foram identificados dois vendedores que negociavam diretamente pelo aplicativo de mensagens. Nos espaços acompanhados, havia comerciantes e potenciais compradores de diferentes regiões do país, incluindo a Bahia.
Em contato com os vendedores que atuavam nesses grupos, a reportagem identificou um padrão semelhante de operação. Todos afirmavam que os produtos eram importados do Paraguai e procuravam afastar possíveis desconfianças dos interessados.
Durante as conversas, os comerciantes argumentavam que o fato de as ampolas serem produzidas no país vizinho não significava que fossem falsificadas ou de baixa qualidade. Alguns chegaram a afirmar que também utilizavam a substância.
Compra fácil
Para concluir a compra, bastava informar a marca desejada e a dosagem pretendida. Os próprios vendedores, sem qualquer formação médica, orientavam os consumidores sobre qual concentração seria mais adequada, com que frequência a substância deveria ser aplicada e qual seria sua suposta eficácia, classificada por eles como "mais forte" ou "mais fraca".
Além de promoções e descontos, os grupos anunciavam rifas e campanhas para atrair novos clientes. Outro aspecto que chamou atenção foi a estratégia utilizada para transmitir credibilidade. Os administradores compartilhavam constantemente vídeos, fotografias e depoimentos de pessoas que afirmavam ter recebido as encomendas.
Rede estruturada para distribuição em larga escala
Os relatos destacavam principalmente a rapidez da entrega. Alguns compradores diziam ter recebido os produtos em até dois dias, enquanto outros afirmavam que a encomenda chegou no mesmo dia da compra. Havia ainda vendedores que prometiam prazos de até dez dias. Segundo eles, os envios são realizados pelos Correios, geralmente via Sedex, mediante cobrança de frete que variava entre R$ 25 e R$ 60 para qualquer região do país. Outros ofereciam entrega própria ou por aplicativos de transporte.
Apesar de comercializarem um medicamento que exige armazenamento em temperatura controlada, os vendedores afirmavam que as encomendas eram enviadas de forma "discreta", geralmente acondicionadas em embalagens de alimentos, caixas de papelão ou recipientes de isopor. Entre os comerciantes contatados pela reportagem, apenas um informou utilizar gelo durante o transporte. Os demais alegaram que a medida seria desnecessária em razão do prazo de entrega.
Questionado sobre a ausência de refrigeração, um dos vendedores enviou um áudio à reportagem afirmando que o produto poderia permanecer fora da geladeira por até 30 dias sem prejuízos à qualidade.
Manual do crime
"Eu comercializo tirzepatida há mais de um ano, e essa é uma das dúvidas mais frequentes dos clientes. Segundo representantes dos laboratórios com os quais tivemos contato, a medicação pode permanecer entre 21 e 30 dias fora da geladeira, desde que não fique exposta a temperaturas superiores a 30 graus, nem à luz direta do sol. As ampolas são transportadas bem embaladas e protegidas. Por isso, o uso de gelo não seria necessário, já que o produto não permanece tanto tempo em trânsito. Além disso, boa parte das transportadoras trabalha em ambientes climatizados", afirmou.
A atuação dos vendedores, porém, vai além da simples comercialização. Em conversa com a equipe, um deles forneceu orientações detalhadas sobre o uso da substância, explicando como as doses deveriam ser aumentadas ao longo do tratamento e informando quanto tempo cada ampola poderia durar.
Também foram repassadas instruções sobre a aplicação do medicamento, incluindo os locais do corpo recomendados para a injeção. Em determinado momento, o vendedor chegou a se oferecer para realizar uma chamada de vídeo com o objetivo de ensinar o procedimento ao comprador.
As facilidades se estendiam às formas de pagamento. Alguns anunciantes ofereciam parcelamento em até três vezes, enquanto outros permitiam dividir o valor em até 12 parcelas, mediante cobrança de taxas adicionais.
Em 24 horas de monitoramento, a reportagem registrou a entrada de 77 novos participantes em apenas um dos grupos acompanhados, um indicativo da procura crescente por esse tipo de produto.
Recepcionista admite uso de ampola paraguaia
A recepcionista Júlia* – nome fictício adotado para preservar a identidade – contou ao Jornal Metropole que utilizou durante três meses uma ampola da marca paraguaia TG, comercializada como medicamento à base de tirzepatida. Diferentemente do que a reportagem identificou em parte das negociações realizadas nos grupos, ela afirma que não recebeu informações sobre a procedência do produto durante a compra.
De acordo com o relato, a entrega foi realizada de forma discreta em seu local de trabalho. Além da medicação, o vendedor enviou um vídeo com orientações sobre a aplicação da substância. "Perdi 10 quilos. Só descobri que o remédio vinha do Paraguai depois que uma colega de trabalho me alertou. Ela também tinha comprado a medicação", afirmou.
O relato reforça outra característica observada nesse mercado clandestino: a ausência de informações claras e padronizadas sobre os produtos comercializados. Hoje, ao relembrar a experiência, Júlia afirma que não repetiria a decisão. "Olhando para trás, eu percebo o risco que corri. Não faria novamente, mas, graças a Deus, não tive nenhum efeito colateral", completou.
Contato pelas redes
O arquiteto João*, que também pediu para ter a identidade preservada, contou que o primeiro contato com o produto ocorreu por meio das redes sociais. Segundo ele, vídeos e comentários publicados na internet despertaram sua curiosidade, mas a decisão de utilizar a medicação veio após recomendações de amigos que já faziam uso do produto.
"Sem sombra de dúvidas o preço foi o que me chamou mais atenção. No meu primeiro contato com o produto eu fiquei meio receoso justamente por ser mais barato. Duvidei da sua eficácia e busquei saber sobre riscos, mas como a esmagadora maioria dos usuários teceu elogios eu decidi economizar e arriscar", completou.
Cerco aos ilegais
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a venda de produtos sem registro sanitário ou introduzidos no país por vias irregulares. Grande parte das marcas encontradas pela reportagem, como TG, Lipoless, Tirzedral, Tirzec, Lipoland, Gluconex e Slimex, informa possuir autorização da Vigilância Sanitária do Paraguai (Dinavisa). Ainda assim, não podem ser comercializados legalmente em território brasileiro.
Em nota ao Jornal Metropole, a Anvisa informou que medicamentos devem ser adquiridos exclusivamente em farmácias e drogarias, uma vez que toda a cadeia de produção e distribuição, do fabricante ao varejo, é regulada e fiscalizada pelos órgãos competentes. "Recentemente, a Anvisa restringiu o ingresso no país de algumas marcas e apresentações de ampolas emagrecedoras após evidências de comercialização irregular, inclusive na internet e em redes sociais", informou o órgão.
Dados da Receita Federal mostram a explosão desse mercado. Entre maio - quando entrou em vigor a restrição ao ingresso desses produtos no país - e dezembro de 2025, foram apreendidos 7.479 remédios do tipo. Em 2026, o número já alcança 71.860 unidades, aumento de 860,8%.
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