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Comida boa e algo mais: praças de alimentação improvisadas viram ponto de encontro em Salvador

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Comida boa e algo mais: praças de alimentação improvisadas viram ponto de encontro em Salvador

Como praças de alimentação improvisadas em vias púbicas se tornaram points populares em Salvador para quem quer comer bem e pagar menos que nos shoppings

Comida boa e algo mais: praças de alimentação improvisadas viram ponto de encontro em Salvador

Foto: Duda Matos/Metropress

Por: Duda Matos no dia 30 de julho de 2026 às 07:00

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 30 de julho de 2026 

Diferente de uma praça de alimentação de shopping, onde o cliente escolhe entre grandes redes de fast-food e ocupa uma mesa cercada por vitrines, geralmente a preços nada módicos, as praças de alimentação populares de Salvador nascem de forma espontânea. 

É mais ou menos assim: alguém decide vender café da manhã na calçada e outro estaciona um carro carregado de marmitas na hora do almoço. Até que terceiros percebem que, se havia gente procurando rango, talvez também houvesse espaço para comidas pesadas, caldo de cana, acarajé, pastel, salgado. E assim nasce mais um “cacete-armado” cheio de delícias na cidade 

Porta-malas

Quando fechou o negócio que mantinha em Salvador, Dona Francisca imaginou que descansaria por um tempo. Mas a pausa durou pouco. Incomodada por ficar em casa sem trabalhar, tomou uma decisão que mudaria sua rotina pelos últimos 17 anos: colocou o restaurante dentro de um carro.

Desde então, ocupa diariamente uma vaga na Avenida Tancredo Neves, onde serve almoço para quem trabalha nos edifícios empresariais da região. Faz questão de variar o cardápio e sabe exatamente qual prato mais atrai clientes. "Esse pedacinho virou um shopping do povo", conta. 

Ao redor do carro de Francisca, outros comerciantes chegam conforme a manhã avança. Aos poucos, o trecho ganha movimento de uma pequena feira gastronômica improvisada. Não há administração e nem divisão oficial dos espaços. Cada vendedor estaciona onde encontra vaga e começa o expediente. 

Manhã cheirosa

Bem antes do almoço, porém, outro cheiro domina a área inaugurada por Dona Francisca. Às 6h, quando muitos escritórios ainda estão fechados, Flora já organiza o café da manhã. Aos 72 anos, prepara cuscuz, carne do sol, ensopados e salada de frutas para quem passa antes do expediente.

Há mais de duas décadas na região, ela viu a concentração de vendedores crescer. Hoje, novos comerciantes chegam atraídos pelo movimento criado justamente pelos pioneiros. Ainda assim, faz questão de ser a primeira a montar a banca. Sabe que, no dia seguinte, os clientes vão procurá-la exatamente no mesmo lugar.

Drive-thru na Paralela 

Na Avenida Luís Viana Filho, a Paralela, o ponto de alimentação nasceu acompanhando o fluxo dos carros. Em frente ao antigo Bahia Café Hall, um espaço vazio virou parada obrigatória. Ali, pouca gente desce do veículo: os pedidos são feitos pela janela, e a viagem continua minutos depois. O movimento lembra os drive-thrus das grandes redes, mas o cardápio é tipicamente baiano.

Quem iniciou essa história foi Val Mesquita, quando instalou o primeiro ponto, em setembro de 2017. O trecho era praticamente vazio e a ideia de vender acarajé para clientes na marginal de uma das avenidas mais movimentadas da cidade parecia improvável para quem conhecia a tradição dos tabuleiros nas praças e esquinas.

Com o tempo, outros comerciantes passaram a ocupar o entorno. Em vez de enxergar concorrência, Val acreditava que a diversidade atrairia mais clientes, transformando o espaço em um corredor gastronômico. Deu no que deu. Hoje, vários pequenos comerciantes vendem de mocofato a feijoada, de rabada a dobradinha.

Foi nesse movimento que Damiana Correia chegou ao local. Durante a pandemia, viu a renda da família desaparecer e decidiu transformar sua receita de maniçoba em fonte de sustento. "O boca a boca trouxe muita gente para cá", resume, enquanto atende a grande fila de carros.

Fast-foods de Pernambués 

A poucos quilômetros dali, a Praça Arthur Lago, em Pernambués, mostra outra face desse mesmo fenômeno. O espaço foi sendo ocupado pela própria comunidade até se tornar referência para quem procura almoço, acarajé ou uma cerveja gelada.

Thaís dos Santos, conhecida como Tia da Quentinha, encontrou uma forma de recomeçar depois que um problema de saúde interrompeu sua rotina de trabalho com carteira assinada. Há dez anos, começou vendendo quentinhas por R$ 5 na praça. 

Ao longo desse período, ela viu a praça mudar completamente. O terreno de barro, cercado por barracas de frutas, trailers e vendedores espalhados, deu lugar aos quiosques e à estrutura atual. Mas ainda cabem, e muito, as antigas barraquinhas improvisadas.

Evolução do improviso

Entre todos os espaços visitados, o Imbuí talvez seja o exemplo mais claro de como uma ocupação espontânea pode se transformar em parte oficial da cidade. Antes dos quiosques de alvenaria, dos bancos reformados e da iluminação, havia apenas barracas, trailers e carrinhos de mão disputando espaço na antiga Praça das Gaivotas.

Quem acompanhou essa transformação desde o início foi Antônio Jesus Santos, conhecido como Marcos. Há 34 anos no local, ele começou vendendo apenas caldo de cana em um carrinho de mão. Com o tempo, vieram a água de coco, um trailer e, depois, os almoços e petiscos do Cantinho da Roça.

Viés de alta

À medida que a região cresceu, o comércio também precisou se organizar. Quem viveu essa mudança de perto também foi Simone Santana, dona da Sica Dendê. Há 19 anos no Imbuí, ela começou vendendo acarajé debaixo de uma árvore, usando apenas uma mesa de bar como ponto de apoio.

A reforma reorganizou o espaço e substituiu as estruturas improvisadas pelos quiosques, mas não mudou a relação construída com os clientes. No fim das contas, nenhum desses locais nasceu para ser praça de alimentação. Como quase tudo em Salvador, elas cresceram sem cerimônia, porque alguém resolveu colocar uma panela no fogo — e a cidade decidiu sentar à mesa.