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João Cezar de Castro Rocha transforma entrevista à radinha em sala de aula
Em uma entrevista que movimentou ouvintes e redes sociais, o escritor João César de Castro Rocha traça um panorama ‘literário’ sobre o Brasil, Lula, bolsonarismo, eleições e guerra cultural

Foto: Luan Borges/Metropress
Por uma hora, o professor, pesquisador e escritor carioca João César de Castro Rocha transformou o estúdio da Rádio Metropole em uma sala de aula, durante entrevista concedida ao apresentador Mário Kertész no último dia 30, quando visitou Salvador. Em uma conversa que transitou entre política, história, filosofia e literatura, Castro Rocha fez Shakespeare encontrar Hannah Arendt, Donald Trump dividir espaço com Jair Bolsonaro e a disputa presidencial de 2026 no Brasil conversar com a literatura inglesa do século XVI.
Convidado do Jornal da Bahia no Ar, ele não economizou nas provocações. Castro Rocha, que também é enxadrista, disse que o Brasil vive sob o efeito da "mais poderosa máquina de desinformação da história do homo sapiens", classificou a família Bolsonaro como uma "franquia" e afirmou que a eleição de 2026 será menos uma disputa entre direita e esquerda e mais um embate em torno da soberania nacional.
Para ele, a guerra cultural produziu um ambiente em que fatos perderam espaço para narrativas emocionalmente poderosas. O problema já não é a falta de informação, mas justamente o contrário: o excesso. "O problema não é que as pessoas não tenham argumentos. O problema é que elas têm argumentos demais, embora sejam falsos". Em resumo, diz que “estamos vivendo um caos cognitivo".
Nesse processo ele enxerga a força do chamado antilulismo. Mais do que uma rejeição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ele o enxerga como um fenômeno histórico recorrente na América Latina, semelhante ao antivarguismo no Brasil antes de 1950 ou ao antiperonismo na Argentina. O que, disse, não passa de reação às políticas voltadas às classes populares. Leia abaixo os principais trechos dessa entrevista que rendeu grande repercussão nas redes sociais ou se preferir assista na íntegra pelo canal yotube.com/portalmetro1.
"Franquia Bolsonaro"
Quando a conversa chegou ao bolsonarismo, João lançou uma das frases mais contundentes da entrevista. Segundo ele, os Bolsonaro não formam um clã político, tradição comum na política brasileira, mas uma "franquia". A principal característica da família, afirma, seria transformar práticas de apropriação da máquina pública em um modelo reproduzido ao longo dos anos.
As críticas se estenderam à relação entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e do presidente norte-americano Donald Trump. Para Castro Rocha, nunca houve, na história recente do país, uma geração de políticos "tão entreguistas" quanto a atual. "O verdadeiro debate da eleição será a soberania nacional", afirmou, ao dizer que a interferência dos EUA nos assuntos brasileiros deve ocupar o centro da campanha presidencial.
Cobrança à esquerda
Se as críticas ao bolsonarismo vieram em tom duro, João também reservou espaço para cobrar mudanças da esquerda. Segundo ele, o campo progressista não pode tratar a segurança pública apenas como um desdobramento da desigualdade social. Durante décadas, argumentou o escritor, parte da esquerda associou determinadas formas de banditismo a uma espécie de rebeldia social, enxergando a violência como consequência da exclusão e das injustiças históricas. Essa leitura, afirmou, fazia sentido em um contexto em que a própria esquerda era perseguida, mas deixou de responder à realidade com o avanço do crime organizado.
"A esquerda precisa apresentar um projeto contra o crime organizado que seja de caráter imediatista. É preciso recuperar os territórios controlados pelo crime organizado e seguir o dinheiro", defendeu. Embora aponte que a direita identifica corretamente a gravidade do problema, Castro Rocha critica as respostas simplista demais desse campo ao oferecer uma saída, focada no bandido pequeno.
Shakespeare explica
Em outro ponto da conversa, recorreu a Shakespeare para explicar o cenário político atual. Ao comentar a figura de Ricardo III, personagem que decide se tornar um vilão para conquistar o poder, o pesquisador estabeleceu um paralelo com líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro. "Nunca antes alguém tinha vindo ao palco diante da plateia e dito: 'Estou decidido a provar-me um vilão'", afirmou.
Na interpretação de João, esse comportamento representa uma mudança em relação às formas tradicionais de autoritarismo. "Não é mais a banalidade do mal. É a ostentação da vilania", disse, em um diálogo com o conceito formulado por Hannah Arendt. Para ele, o vilão contemporâneo já não esconde suas intenções nem busca parecer moderado. Ao contrário, transforma a agressividade e a provocação em capital político.
Prognóstico para 2026
João Cezar de Castro Rocha também arriscou um prognóstico um tanto otimista para a eleição presidencial. Em sua avaliação, Lula chegará fortalecido à disputa e será reeleito logo no primeiro turno. Para ele, a extrema-direita entrou em um processo de desgaste que tende a se intensificar nos próximos anos.
Para chegar ao prognóstico, o professor de literatura comparada novamente recorreu a Shakespeare literatura. Buscou em Macbeth uma metáfora para interpretar o cenário contemporâneo. Na célebre obra, o usurpador acredita que seu poder permanecerá intacto até que "a floresta caminhe" em sua direção, um acontecimento que ele considera impossível. A surpresa vem quando o exército inimigo avança camuflado por galhos e folhas, fazendo a profecia se cumprir.
É nessa passagem que ele encontra um paralelo com a política contemporânea. "O que derrotará a extrema direita, Elon Musk, Donald Trump, Nayib Bukele, Flávio Bolsonaro, é a natureza. O negacionismo climático ao qual eles abraçam retornará como reivindicação política. A floresta começou a se mover", concluiu.
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