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Previsão de maior intensidade de um dos fenômenos climáticos mais temidos vira assunto até de boteco e aumenta estimativas de secas e chuvas extremas para grande parte do estado

Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial/Metropress
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 20 de agosto de 2026
De uns meses para cá, o termo El Niño ganhou espaço nas previsões do clima, na cesta de notícias e até nas conversas de botequim. De uma hora para outra, “O Menino” caiu na boca do povão diante de uma possibilidade que passou a ocupar o imaginário coletivo, sobretudo aquele que adora previsões catastróficas e apocalípticas: a formação de um episódio de intensidade excepcional, apelidado de “Super El Niño”. Mas o que o baiano quer saber mesmo é: o que isso pode mudar por aqui?
pergunta, o Jornal Metropole foi atrás de quem entende do assunto. A começar pelo Instituto Nacional de Meteorologia, o bom e velho Inmet. Antes de partir para o assunto propriamente dito, é importante saber o seguinte: mais do que mexer com o termômetro e a quantidade de chuva, um fenômeno dessa magnitude pode afetar a agricultura, a disponibilidade de água, o preço dos alimentos e a rotina das cidades.
Que braseiro!
Na Bahia, se o cenário se confirmar, o fenômeno vai elevar as temperaturas e deixar as chuvas mais irregulares. Meteorologista do Inmet, Melquizedek Rafael deixa claro que o Norte e principalmente o Semiárido, que ocupa cerca de 85% do território baiano, podem ter períodos de seca mais prolongados e chuvas abaixo da média. Os efeitos, caso “O Supermenino” venha super mesmo, devem ser mais perceptíveis a partir da Primavera e em boa parte do Verão, mais precisamente entre outubro deste ano e fevereiro do ano que vem.
Para saber como será a capital sob o fenômeno, a reportagem foi buscar respostas na tropa da Defesa Civil (Codesal). Em Salvador, o cenário previsto também exige atenção, mas não significa que a cidade ficará sem chuva. Segundo o oceanógrafo Gabriel Pugliese, coordenador do Centro de Monitoramento e Alerta da Codesal (Cemadec), o Super El Niño pode alternar períodos de estiagem e chuva intensa, aumentando os riscos de déficit hídrico, alagamentos e deslizamentos. Isso acontece porque a chuva em Salvador também depende de sistemas atmosféricos e das condições climáticas do Oceano Atlântico.
Do clima para o bolso
Quando a chuva desanda, já sabem, né? A produção agrícola vai junto. Segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda, uma seca severa associada ao Super El Niño poderia gerar impacto superior a R$ 13 bilhões, entre perdas na produção e efeitos sobre renda, insumos, transporte, comércio, agroindústria, arrecadação e atividade econômica dos municípios.
A estimativa considera eventos anteriores. No El Niño de 2023/2024, mais de um milhão de animais foram perdidos na Bahia devido à redução das pastagens e à escassez hídrica, com impacto estimado em R$1,13 bilhão. Também houve prejuízos no café, além de impactos na produção de milho, mandioca, feijão, cebola, laranja, castanha de caju, leite e mel.
O semiárido é uma das áreas que mais preocupam pela dependência da regularidade das chuvas e da disponibilidade hídrica. No Centro-Norte, que abriga cidades como Irecê, Jacobina, Itaberaba e Senhor do Bonfim, o feijão já sofreu impactos em períodos recentes de restrição hídrica. No Centro-Sul, onde estão Vitória da Conquista e Jequié, a batida é semelhante.
Peso no prato do dia a dia
No Oeste, um dos principais polos agrícolas do país, cidades como Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, Formosa do Rio Preto e São Desidério, conhecidos pela alta produção de milho, soja e algodão, também podem sentir os efeitos de alterações severas no regime de chuvas. E consequentemente, na produtividade, no calendário agrícola e nos custos de produção.
E aí a coisa pode chegar direto ao prato. Milho, feijão, mandioca e produtos da pecuária estão entre os alimentos que podem sofrer maior pressão de preços, segundo a Faeb. O milho ainda pesa duas vezes nessa conta: além de chegar à mesa, é usado na alimentação animal, o que pode encarecer carnes, leite e ovos em caso de quebra de produção.
Plano de ação
De olho no pior cenário, a Faeb encaminhou ao governo da Bahia propostas que incluem ativação de poços já perfurados, novas linhas de crédito para infraestrutura hídrica, estoques estratégicos de milho, ampliação da assistência técnica, fortalecimento do seguro rural e investimentos em barragens, reservatórios e tecnologias de convivência com o semiárido.
Mas, por enquanto, o que existe é um cenário que exige acompanhamento e preparação. Na Bahia, a história do El Niño não começa nem termina nas águas mais aquecidas que de costume no Oceano Pacífico: dependendo da intensidade do fenômeno, ela pode aparecer na chuva que falta, na chuva que cai de uma vez, na lavoura que perde produtividade e até no preço que chega ao supermercado.
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