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Contra o racismo, a lucidez: Hélio Santos revisita as aflições da população negra do 14 de maio aos dias atuais
Em entrevista ao Jornal da Metropole no Ar, na última sexta-feira (21) Hélio revisita o pós-abolição, o racismo estrutural e os desafios da população negra no Brasil atual

Foto: Metropress
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 27 de agosto de 2026
O dia seguinte à Abolição diz mais sobre o Brasil do que a assinatura da Lei Áurea. É com essa ideia que o professor, escritor e pesquisador Hélio Santos constrói seu novo livro, “14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo”. Em entrevista ao Jornal da Metropole no Ar, na última sexta-feira (21), Hélio, que é tido como uma das maiores autoridades do país em estudos sobre racismo, recuperou memórias pessoais, episódios de sua trajetória no movimento negro e discussões sobre políticas públicas para falar de um país em que, mesmo tendo avançado na percepção sobre as desigualdades raciais e o preconceito, ainda assiste a manifestações explícitas de discriminação.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida ao apresentador Mário Kertész selecionados pelo Jornal Metropole:
Dia seguinte
A imagem do “14 de maio” acompanha Hélio desde a infância. O incômodo começou em aulas sobre o 13 de Maio, quando ouvia das professoras o sofrimento dos negros no país. O dia seguinte, porém, era pouco discutido. E é nesse intervalo que está a provocação da sua mais recente obra.
Ele chama atenção para a distância entre a liberdade formal e a realidade encontrada pela população negra após a escravidão. Hélio lembra que a senzala não deve ser romantizada: era um lugar de prisão, onde pessoas permaneceram por três séculos e meio. No dia seguinte à abolição, esses homens e mulheres saíram sem recursos, sem sequer terem sapatos.
Inércia do mal
Segundo Hélio, a sociedade tem hoje uma maior consciência sobre o racismo, mas não conseguiu eliminar a discriminação. Agora, é acompanhado de manifestações que passaram a aparecer abertamente. “Uma coisa a gente tem que reconhecer: a roda do racismo girou. Hoje, a sociedade brasileira tem uma percepção muito melhor. As pessoas sabem, mas junto com essa nova percepção, a gente começou a ter racismo a céu aberto”, disse.
Ele chama atenção ainda para o que chama de “racismo inercial”: práticas e comportamentos que se reproduzem, sustentados por imagens construídas historicamente sobre quem ocupa determinados espaços sociais.
Um dos exemplos é o da mulher negra que, mesmo ocupando um cargo alto, como desembargadora, pode ser confundida com uma funcionária de supermercado, caso seja vista em trajes casuais. Não é preciso uma ofensa explícita para que o racismo esteja presente. Basta a expectativa de que a pessoa, por ser negra, deveria ocupar outro lugar.
Inversão de papéis
Hélio relatou ainda conversas com jovens negros que evitam permanecer em seus próprios bairros quando percebem uma operação policial. O motivo, segundo relatos, é o medo de se tornarem alvos daqueles que teoricamente foram ao local enfrentar o crime.
Isso, para ele, é uma inversão que deve ser enfrentada. A população empobrecida, para ele, não pode receber tratamento diferente conforme o lugar onde mora. A democracia, nesse cenário, aparece não como uma abstração, mas como uma exigência prática de tratamento igual.
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