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A derrota dos medalhões: conheça os figurões da política que não conseguiram se eleger

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Quando o voto vira ódio: xenofobia contra baianos originada na ultradireita encontra eco entre bolsonaristas
Ataque de Rodrigo Constantino à Bahia e a Salvador expõe a face mais radical da ultradireita, que transforma divergência eleitoral em preconceito e xenofobia

Foto: Imagem gerada com auxílio de IA
Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole na edição de 09 de outubro de 2026
Uma coisa é o cidadão escolher nas urnas quem quer ver sentado na cadeira de presidente da República a partir de 1º de janeiro de 2027. Democracia é assim, e isso é muito melhor que quaisquer alternativas que volta e meia assombram um país de forte tradição golpista como o Brasil. Outra coisa é xenofobia e preconceito explícitos praticados por um integrante destacado da extrema-direita contra um estado inteiro por causa das preferências políticas da maioria do seu eleitorado. Vamos aos fatos:
O economista e comentarista político Rodrigo Constantino, figura de proa da ultradireita brasileira, reagiu ao resultado das eleições de 4 de outubro no estado atacando, em um vídeo, não apenas os vencedores, mas milhões de pessoas. Chamou a Bahia de “câncer do Brasil”, Salvador de “lixo” e afirmou que os baianos, salvo algumas exceções, seriam uma vergonha para o país. Também recorreu a experiências pessoais para sustentar a imagem de uma população que não gosta de trabalhar.
Velha chaga
A imagem do baiano preguiçoso é um estereótipo antigo que, nas últimas eleições, sempre reaparece quando o resultado das urnas desagrada a determinadas facções da política. O problema é quando ela ressurge travestida de análise política. Não há muita sutileza a procurar aí. O próprio contexto elimina boa parte da dúvida sobre a motivação de Constantino.
A Bahia tinha acabado de dar ampla maioria ao presidente Lula no primeiro turno, reeleito Jerônimo Rodrigues para o governo e escolhido Rui Costa e Jaques Wagner para o Senado. Constantino estava furioso com o resultado e escolheu uma maneira particularmente reveladora de expressar sua revolta: em vez de atacar os candidatos ou o PT, atacou o lugar e seus habitantes.
Alça de mira
Como tudo que é feito hoje em dia para causar controvérsia, o vídeo ganhou enorme repercussão. A Polícia Civil passou a investigar o caso, o Ministério Público iniciou a coleta de provas para apurar eventuais crimes de xenofobia e a OAB da Bahia apresentou notícia-crime à Polícia Federal. Independentemente do que virá a partir desse contra-ataque jurídico, o episódio não pode ser tratado como mero inconformismo.
Quem administra a Bahia e Salvador - por sinal, vindos de grupos políticos rivais - podem e devem ser criticados. Segurança, mobilidade, infraestrutura, saúde e administração pública são temas legítimos de debate. Governos fracassam, políticas públicas precisam ser cobradas e eleitores têm o direito de fazer escolhas equivocadas. Mas pessoas não são governos.
Figura carimbada da barbárie verbal
Para quem ainda não ligou o nome à figura, Rodrigo Constantino não surgiu ontem. Economista formado pela PUC do Rio de Janeiro, com MBA em Finanças, Constantino construiu carreira no mercado financeiro e passou por veículos como Veja, O Globo, Valor Econômico, IstoÉ, Jovem Pan e Record. Apresentava-se como liberal e conservador, defensor do livre mercado e de um Estado menor.
Com o tempo, porém, sua atuação na imprensa o aproximou cada vez mais da extrema-direita brasileira, personificada no bolsonarismo. E sua carreira passou a acumular episódios em que a agressividade da retórica deixou de ser mero estilo.
Em 2020, durante a repercussão do caso Mariana Ferrer, Constantino afirmou que, se uma filha sua relatasse ter sido estuprada em circunstâncias semelhantes às discutidas naquele episódio, ele não denunciaria o homem e colocaria a própria filha de castigo. A declaração provocou sua demissão da Jovem Pan e da Record, além de desligamentos de outros veículos.
Reação contrária dentro da direita
É preciso separar o autor de um campo político que não é feito apenas por pessoas como Rodrigo Constantino: isso não é “a direita”. Há conservadores que rejeitam o PT, liberais que criticam Lula e eleitores de direita que consideram a votação da Bahia equivocada. Nada disso os torna xenófobos. A crítica política é legítima. O preconceito da ultradireita, não.
Houve, inclusive, reação às declarações dentro do próprio campo ideológico da direita. Entre elas, a do colunista Paulo Polzonoff Jr., da Gazeta do Povo, que publicou um texto cujo título já resume a posição: “Não, a Bahia não é o câncer do Brasil!”. A crítica é importante porque desmonta a tentativa de transformar o episódio em uma briga entre esquerda e direita. O que está em discussão é outra coisa.
Também é equivocada a tentativa de transformar a Bahia em sinônimo de PT. A Bahia existia muito antes do partido e continuará existindo depois dele. Sua população reúne eleitores de esquerda, centro e direita. Nenhuma eleição elimina essa diversidade e nenhuma tentativa de minimizar o caso apaga as declarações de xenofobia.
Quando o preconceito ganha eco
O mais preocupante veio depois do vídeo. Nas redes sociais, surgiram comentários defendendo a separação do Nordeste, dizendo que a região seria um obstáculo ao desenvolvimento do país, associando seus habitantes à ignorância e afirmando que a Bahia seria “o atraso do Brasil”. Houve quem recomendasse evitar Norte e Nordeste e quem dissesse que os baianos deveriam “sair daqui”.
É assim que o preconceito se alimenta: alguém acende o fósforo, outros encontram combustível. E o episódio não acontece no vácuo. Trabalhadores baianos já foram tratados como inferiores. Já houve quem dissesse que a única cultura baiana seria “viver na praia tocando tambor”. Já existiram ataques em estádios, discriminação no ambiente de trabalho e até mensagens pregando violência contra nordestinos.
Em 2010, depois da eleição de Dilma Rousseff, uma jovem chegou a publicar que “nordestino não é gente” e acabou condenada pela Justiça. Em 2018, após a forte votação de Fernando Haddad no Nordeste, circularam mensagens defendendo até “campos de concentração para baianos”.
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