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Com dupla derrota de ACM Neto, prefeitura de Salvador vira a última trincheira do carlismo
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Com dupla derrota de ACM Neto, prefeitura de Salvador vira a última trincheira do carlismo
Grupo político mais longevo da Bahia perde terreno para o PT no interior, vê vantagem encolher na capital em meio a desgastes e aposta a sobrevivência na eleição de 2028

Foto: Samanta Leite/Metropress
Enquanto os olhos do eleitor estavam exclusivamente voltados para o desfecho do duelo de nervos travado entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), outro efeito direto da sucessão presidencial deste ano aparecia no campo de visão apenas dos radares mais atentos: a possibilidade real de que o carlismo, o mais longevo polo de poder no estado, esteja nos últimos passos de uma dança na qual ocupa o palco principal da política baiana há pelo menos cinco décadas, mas agora depende exclusivamente do oxigênio de Salvador para evitar a asfixia.
A sinuca de bico que o bloco carlista entrou não pode ser atribuída somente ao resultado da eleição deste ano, tanto a estadual quanto a presidencial. Na verdade, ela começou a ser desenhada em 2022, quando o único herdeiro político do clã fundado por Antônio Carlos Magalhães, o ex-prefeito da capital ACM Neto (União Brasil), foi obrigado a engolir a seco a derrota sofrida para Jerônimo Rodrigues (PT). Na cabeça de Neto e da patota que o cerca, era impossível perder para um adversário sem musculatura, ilustre desconhecido pela massa do eleitorado e tratado por ele como um tipo de “poste de outro poste”.
Maré baixa
Quatro anos depois, a realidade eleitoral foi ainda mais desfavorável ao principal nome da oposição baiana. Reeleito no primeiro turno, Jerônimo venceu em 376 dos 417 municípios. Em 2022, havia conquistado 352 cidades. ACM Neto, por sua vez, que venceu em 65 municípios na eleição passada, perdeu 24 redutos e ficou à frente em apenas 41 neste ano, consolidando o avanço do grupo governista pelo interior.
O resultado prolonga uma sequência que já atravessa duas décadas: são seis eleições consecutivas para governador vencidas pelo mesmo campo político, desde a primeira vitória de Jaques Wagner, em 2006. Depois dele, vieram dois mandatos de Rui Costa e, agora, dois de Jerônimo Rodrigues. O grupo que gravita em torno do PT e de seus aliados transformou uma vitória que parecia improvável, há vinte anos, em uma hegemonia eleitoral que sobreviveu à troca de lideranças e à alternância de candidaturas.
Panorama é o oposto do passado
O contraste com o carlismo é expressivo. Durante décadas, Antônio Carlos Magalhães construiu uma estrutura de poder que combinava influência sobre o governo estadual, forte presença no Congresso, controle partidário e capacidade de articulação com Brasília. O grupo não se limitava a administrar a Bahia e dominar centenas de cidades no interior: projetava lideranças nacionalmente e mantinha ingerência sobre decisões políticas muito além das fronteiras estaduais. ACM Neto herdou parte desse capital, mas não conseguiu convertê-lo em vitória para o Palácio de Ondina.
A primeira grande rachadura dessa estrutura ocorreu justamente em 2006. Naquele ano, Jaques Wagner derrotou o então governador Paulo Souto e encerrou 16 anos de supremacia do PFL no estado. A vitória petista marcou o início de uma mudança profunda na geografia política baiana, avançando inclusive sobre antigos redutos carlistas. O resultado abriu caminho para a fragmentação do grupo e para a perda progressiva de sua capacidade de comando sobre a política estadual.
Nos anos seguintes, a reorganização partidária nacional acelerou a dispersão de antigas lideranças do PFL, rebatizado de Democratas em 2007. A criação do PSD, em 2011, ofereceu novo destino a uma parcela importante dos quadros políticos que haviam orbitado o antigo partido. O carlismo não desapareceu, mas perdeu a unidade e a dimensão estadual que o haviam transformado em força dominante. ACM Neto tentou reconstruir esse protagonismo, inclusive com a projeção nacional alcançada à frente do DEM, mas a derrota de 2022 e a repetição do revés em 2026 reduziram o espaço para essa ambição.
Capital como último abrigo
Salvador permanece como a principal fortaleza eleitoral do grupo. ACM Neto venceu Jerônimo na capital em 2026, com 769.752 votos, contra 630.677 do governador. A diferença, porém, caiu para cerca de 139 mil votos, ante aproximadamente 236 mil no primeiro turno de 2022 e mais de 470 mil no segundo turno daquele ano. A redução é significativa porque ocorre na cidade onde Neto foi prefeito por dois mandatos, sempre com altos índices de aprovação, e onde Bruno Reis, seu aliado e sucessor, conquistou uma vitória expressiva na eleição municipal de 2024.
É nesse cenário que 2028 já começa a aparecer no para-brisa da política baiana. A sucessão de Bruno Reis será mais do que uma disputa pela prefeitura: funcionará como um teste para medir a capacidade que o carlismo tem de preservar seu último grande centro de poder e, a partir dele, tentar reorganizar a oposição estadual. Uma derrota na capital reduziria ainda mais o espaço de articulação do grupo; uma vitória, por outro lado, manteria aberta a possibilidade de reconstrução.
Custos do apoio a Flávio Bolsonaro
Há ainda outro obstáculo grande no caminho do carlismo rumo à sobrevivência: a vitória de Lula com apoio robusto do eleitorado da Bahia, um dos seus grandes redutos. ACM Neto tentou manter a disputa pelo governo da Bahia distante da polarização nacional. Declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD), mas sem grande entusiasmo, para preservar o voto Lula-Neto. No calor da derrota para Jerônimo Rodrigues, mudou o discurso: disse que seria preciso mudar primeiro o Brasil para depois mudar a Bahia.

Na sequência, anunciou apoio a Flávio Bolsonaro, numa espécie de tudo ou nada. A mudança de postura repercutiu mal entre eleitores que votaram nele para governador e em Lula para presidente, apostando no distanciamento do ex-prefeito em relação ao bolsonarismo. No fim, se sentiram enganados.
Sem conseguir eleger seu candidato à Presidência da República, saiu duplamente derrotado e corre o risco de perder parte da base que lhe permitia transitar além da direita ideológica. O desgaste pode se tornar um problema em 2028, quando a sucessão de Bruno Reis colocará à prova a capacidade do grupo de conservar Salvador.
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