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Em uma cidade negra e feminina, placas de grandes avenidas de Salvador homenageiam mais homens brancos
Aristocratas, políticos e intelectuais dominam o 'Cemitério das Esquinas' na capital; mulheres têm apenas três dos 22 'jazigos', e somente um homem negro conseguiu espaço na lista

Foto: Imagem gerada com auxípio de IA
Na segunda-feira de Finados, Salvador foi ao Campo Santo, à Quinta dos Lázaros, ao Bosque da Paz, ao Jardim da Saudade. Levou flor, vela e saudade. Depois voltou para casa pela Tancredo Neves, cruzou a ACM, pegou a Luís Viana Filho. Sem perceber, atravessou outro cemitério, muito mais cheio de gente branca que de gente preta, numa capital com pele de ébano, onde 83% da população é negra ou parda.
Esse cemitério não tem muro nem coveiro. Tem placa azul, número e CEP. Cada avenida com nome de gente é uma lápide fincada no asfalto. Alguém, um dia, decidiu que aquela pessoa merecia ser lembrada para sempre por quem passa de ônibus, de moto, a pé, atrasado para o trabalho ou sem pressa de chegar.
A pergunta desta semana dos Finados é simples e incômoda: quem Salvador escolheu lembrar? E quem ela deixou de fora? Para responder tais perguntas, buscamos respostas do jeito mais simples possível. Listamos 22 das avenidas mais conhecidas da cidade, aquelas que aparecem no boletim do trânsito toda manhã, e perguntamos quem são os donos dos nomes.
O quadro completo está logo abaixo, mas antes que você vá bisbilhotar, o Jornal Metropole convida o leitor para uma volta imaginária de carro por essas vias batizadas com vultos que a maioria dos habitantes, salvo em relação a figuras muito conhecidas, ignora por completo. O resultado parece piada, mas é só a cidade se olhando no espelho pelo avesso.
Oito são políticos. Três são mulheres, uma delas negra. Há também um homem negro. E esse único negro virou placa somente em 2022. Os políticos ocupam as artérias que mandam no trânsito. Luís Viana Filho é a Paralela inteira. Antônio Carlos Magalhães, a avenida dos shoppings. Todas de fluxo intenso, assim como as avenidas Octávio Mangabeira, Aliomar Baleeiro, Juracy Magalhães e Luís Eduardo Magalhães.
Aliás, são três Magalhães com lápides nas grandes avenidas, de duas famílias diferentes, para quem gosta de genealogia, e adversárias em épocas distintas da história, para quem curte picuinha política. E ainda há os “importados”. Tancredo Neves, por exemplo, era mineiro. Ulysses Guimarães, paulista. Ambos têm avenida em Salvador.
Durante décadas, a avenida que passa na porta da Universidade Federal, em Ondina, homenageou Adhemar de Barros. Para quem não ligou as pontas, trata-se daquele folclórico ex-governador de São Paulo que virou a marca do "rouba, mas faz". Ah, nunca é demais lembrar que o dito nunca teve relação com a cidade.

Passarelas de intelectuais e aristocratas
No rolé imaginário pelo roteiro do cemitério de placas, é fácil se deparar com cinco avenidas bem conhecidas da cidade: Pinto de Aguiar, Orlando Gomes, Manoel Dias da Silva, Cardeal da Silva e Paulo VI. Salvo os de gerações passadas que mantém a memória em bom estado, poucos conseguirão dar nome aos bois, mas a gente ajuda.
Vamos lá: José Pinto de Aguiar foi um economista, professor, escritor e intelectual baiano atuante entre as décadas de 1940 a 1980. Orlando Gomes foi um importante jurista baiano que nasceu em 1909 e faleceu em 1988. Tido como luminar do Direito Civil, publicou obras que se tornaram referência para gerações de advogados e magistrados no país.
Já Paulo VI foi papa, e isso é muito em uma cidade criada sob a fé católica. E Cardeal da Silva foi arcebispo primaz do Brasil e da Bahia entre 1924 e 1968. Já de Manoel Dias da Silva se sabe apenas que foi um próspero comerciante que fez fortuna no início de Século 20 e virou dono da Pituba, a ponto de imortalizar seu nome na ligação desse bairro com Amaralina.
Maioria com status de minoria
Salvador é a capital mais feminina do Brasil. Pelo Censo de 2022, as mulheres são 54,4% da população. Nas grandes avenidas, sobram apenas três. Uma é Joana Angélica, a abadessa morta em 1822 na porta do Convento da Lapa, tentando barrar as tropas portuguesas. A outra é Anita Garibaldi, catarinense de Laguna, heroína de uma guerra bem distante da terrinha, a Revolução Farroupilha, lá pelas bandas do Rio Grande do Sul.
Maria Felipa, a marisqueira negra de Itaparica que enfrentou os portugueses com sangue na boca durante a mesma luta pela Independência do Brasil na Bahia que Joana Angélica travou, comemorada a cada Dois de Julho, não aparece em nenhuma das 22 placas nas grandes avenidas da cidade. Por outro lado, tem Mãe Stella de Oxóssi ligando o fim da Paralela à orla de sua xará, Stella Maris.

O problema não é só baiano. Em São Paulo, a prefeitura contou: das ruas com nome de pessoa, 84% homenageiam homens e 16% mulheres. No Recife, a conta foi pior. Menos de 5%. E quando têm mulher na lápide, elas estão nas travessas e quebradas da periferia. Muitas entraram na placa por serem mãe, mulher ou filha de homem importante. Em Salvador, essa conta jamais foi feita. E, caso tenha sido, esqueceram de divulgar.
Ah, branca flor do querer
Sobre o protagonismo dos pretos como população dominante do ponto de vista numérico, no cemitério viário soteropolitano as placas contam outra história. Na nossa lista das 22 avenidas, os únicos homenageados negros são Mãe Stella de Oxóssi, ícone do candomblé, e Milton Santos, um dos maiores geógrafos do Século 20, gênio incontestável, professor da Ufba e perseguido pela ditadura.

Mãe Stella virou nome de avenida em 2019, quando a via foi inaugurada. Já Milton Santos só ganhou o sepulcro em uma das avenidas mais bacanas de Ondina em fevereiro de 2022, quando o prefeito Bruno Reis (União Brasil) sancionou a troca de Adhemar de Barros pelo nome do geógrafo. Antes disso, foi preciso campanha nas redes, petição com milhares de assinaturas, parecer contrário na Comissão de Justiça da Câmara dos Vereadores de Salvador e uma briga que durava desde 2013. Mas a munição era indefensável, com rima e tudo: “Adhemar rouba, mas faz”, não cabe mais.
O historiador Cândido Domingues, do projeto Salvador Escravista, mapeou a cidade com outra lente. Ele separou as homenagens controversas, a traficantes de escravizados e senhores de engenho, das homenagens reparadoras. A descoberta: as reparadoras estão concentradas no Subúrbio, onde cerca de 90% dos moradores são negros. Os heróis negros moram na periferia. Os traficantes, em estátua, ficam no centro.
Novos viadutos preferem publicitários
A safra recente de obras viárias em Salvador, como era de se esperar, trouxe novidades. Em março de 2025, o viaduto de retorno da Avenida ACM ganhou o nome de Duda Mendonça, o publicitário que reinventou o modo de fazer campanha eleitoral do Brasil.
No acesso da ACM ao Acesso Norte, o viaduto José Linhares lembra outro pioneiro da propaganda. Nesse caso, no universo dos outdoors. Dois publicitários em três viadutos. A cidade que vive de vender a própria imagem decidiu homenagear quem a vendia bem.
Para comprovar que existe descanso artístico na Salvador dos mortos imortalizados, temos o viaduto Raul Seixas e a avenida Dorival Caymmi. Um está na região do Iguatemi e a outra em Itapuã, onde o homenageado dizia que passar a tarde lá é bom.
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