Justiça

'Passei 12 anos tentando provar que era promotora', diz Lívia Vaz sobre vivência do racismo

Ela afirma que, por ser negra, teve que conviver com questionamentos sobre a função no Ministério Público da Bahia (MP-BA)

['Passei 12 anos tentando provar que era promotora', diz Lívia Vaz sobre vivência do racismo]
Foto : Matheus Simoni/Metropress

Por Juliana Almirante no dia 20 de Novembro de 2019 ⋅ 10:07

A promotora Lívia Maria Santana e Sant’Ana Vaz contou, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (20), que vivencia o racismo no posto que ocupa no Ministério Público da Bahia (MP-BA). 

Com 15 anos de carreira, ela afirma que, durante 12 anos, teve que conviver com questionamentos sobre a função como promotora. A situação mudou um pouco quando, nos últimos três anos, passou a atuar no Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação (GEDHDIS). 

"Passei 12 anos tentanto provar que era promotora de Justiça nos lugares onde eu passei. De três anos para cá, trabalhando no combate ao racismo, mudou um pouco de figura. Hoje as pessoas se surpreendem de forma positiva, porque atendo pessoas negras vítimas de racismo e dizem: 'ainda bem que você vai me atender e ter empatia com o que eu passo'", destacou.

Apesar de receber essa avaliação positiva das vítimas que atende, Lívia pontua que as situações de racismo ainda seguem acontecendo. Ela narra um dos casos, que ocorreu há dois anos.

"Recentemente em Salvador, com 13 anos de carreira, teve uma reunião institucional e não vou mencionar nomes para não constranger ninguém. Eu fui com algumas servidoras do MP. Um dos representantes da instituição chegou um pouco atrasado e não pegou o início da reunião. Ele disse que a reunião foi muito boa, mas que, da próxima vez, o MP poderia mandar um promotor.  Eu estava na reunião do início ao fim. Ele não imaginava que aquela mulher naquela reunião era uma promotora", relatou. 

Neste Dia da Consciência Negra, ela ressalta a importância de reconhecer o racismo e falar sobre o assunto cotidianamente, não apenas no 20 de novembro.

"Precisa ser todos os dias. E tem gente que ainda questiona a data e diz que deveria ser consciência humana. Pois enquanto a consciência humana é ainda, em grande medida, racista, no nosso país, a gente precisa falar sim, de consciência negra", defendeu.

Ela informa que o aplicativo do Mapa do Racismo e da Intolerância Religiosa, criado pelo MP-BA há um ano, já registrou 128 casos. Lívia lembra ainda que as pessoas negras são maioria entre os homicídios registrados no país, e nos índices de mortalidade materna e infantil.

"Não digo nem que (o racismo) é velado mais. Com os dados que a gente tem, é evidente. A gente falar que não existe racismo é não reconhecer a realidade. As pessoas não negras, minimamente, precisam reconhecer os privlégios que ela têm", afirmou.

A coordenadora do GEDHDIS pontua ainda que a consciência negra precisa virar uma luta coletiva, e não partir apenas da vivência individual do racismo. 

"Consciência negra não é só vivenciar racismo. Consciência negra parte do individual para enfrentamento coletivo, para assumir postura e defender o coletivo e assumir conduta proativa, no sentido de combater racismo e promover igualdade racial. Sai do individual do racismo e passa a pautar sua atuação onde quer que você esteja, em qualquer espaço que você ocupe", definiu.

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