
Política
Jornadas de Junho: Especialistas apontam que mobilizações tiveram impacto limitado na Bahia
Analistas políticos avaliam que os movimentos de 2013 não foram capazes de produzirem lideranças extremistas e antipetistas de projeção no estado

Foto: Lula Bonfim/Arquivo Pessoal
Salvador, 22 de junho de 2013. Cerca de 20 mil pessoas se reuniram, em clima de paz, no Campo Grande e caminharam pelas ruas da capital baiana, atravessando o Vale do Canela, a Garibaldi até chegar à Avenida Antonio Carlos Magalhães. Em frente ao Shopping Iguatemi (atualmente Shopping da Bahia), um nevoeiro de gás e bomba perturbou a tranquilidade da manifestação. Por cerca de uma hora, o cenário caótico se prolongou, inclusive, com a Polícia Militar participando da repressão ao movimento. Apesar disto, o grupo seguiu até a Avenida Paralela, onde fechou as duas pistas.
Por cerca de cinco vezes no mês de junho, grupos populares se organizaram em Salvador, em organizações que foram marcadas por confrontos intensos com policiais e até mesmo depredação do patrimônio público por manifestantes "dissidentes". O que começou com o Movimento Passe Livre passou a reunir gente de todas as classes em prol de pautas como transporte público, educação e saúde. Mas, na Bahia, diferente do que aconteceu no Sul e Sudeste do Brasil, os protestos não deram tanto espaço para o crescimento de lideranças extremistas ou antipetistas, na avaliação de estudiosos.
“Se considerarmos que as Jornadas de Junho tiveram impacto na política brasileira, a Bahia não ficou imune. Mas, como havia na Bahia um sistema muito sólido de alianças [políticas], esse sistema conseguia refratar esses efeitos negativos da onda que varreu o país até mesmo no tempo do impeachment [da presidente Dilma Rousseff]. A história da política baiana tem mais a ver com a interação entre governo e oposição dentro do próprio estado”, avalia ao Metro1 Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Os protestos não foram capazes de evitar que Rui Costa (PT), candidato de Jaques Wagner (PT) para o cargo de governador da Bahia, fosse eleito em 2014, apesar da queda do partido em outras partes do país, ocasionada pelo impeachment da presidente Dilma em 2016. Além disso, o atual ministro da Casa Civil conseguiu se reeleger em 2018 e garantiu a vitória de Jerônimo Rodrigues (PT) como governador no ano passado.
Por outro lado, nos últimos anos, o PT não tem sido a escolha preferida dos eleitores na prefeitura de Salvador e em 17 das 20 maiores cidades da Bahia nas últimas eleições municipais. No entanto, de acordo com o professor, isso não está relacionado às Jornadas de Junho.
“Isso tem a ver com um sistema de alianças [políticas]. Se a gente parar para pensar, até agora, apoiaram o PT na Bahia todos os partidos que tinham rompido no plano nacional com o PT. Montou-se uma base de apoio do PT aqui, mas acho que isso não tem nada a ver com o junho”, ressalta Paulo Fábio.
Para o cientista político e também professor da Ufba, Jorge Almeida, os impactos foram reduzidos na Bahia porque as manifestações não tiveram início no estado. Foi em São Paulo que os atos tiveram maior força. Uma das primeiras cidades que recebeu protestos, no entanto, foi Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. “Temos que analisar as coisas no atacado. No geral, aqui na Bahia, esses movimentos não geraram lideranças importantes nem da direita, nem da esquerda, ao contrário de estados como São Paulo, que gerou [Guilherme] Boulos, no Rio de Janeiro”, pensa.
O pesquisador Rodrigo Carreiro, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), entende que as Jornadas de Junho provocaram efeitos no Legislativo do estado. “Foram impactos indiretos. Surgiram lideranças políticas da direita que não tinham espaço. São nomes que conseguiram galgar espaço no Legislativo, mas, do ponto de vista da eleição de governador, não houve alteração”, pontua.
Em 2016, o MBL (Movimento Brasil Livre), que é considerado um grupo originário das Jornadas de Junho, elegeu o médico Cezar Leite para vereador de Salvador na eleição daquele ano. Dois anos depois, o movimento também estaria na chapa de José Ronaldo (na época DEM, hoje União Brasil) ao governo da Bahia com a médica Mônica Bahia, como postulante a vice-governadora. A composição foi derrotada por Rui Costa.
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