
Política
“Não creio que a política brasileira voltará ao status quo de 2013 até porque não seria desejável”, diz Paulo Fábio
Cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia analisa, em entrevista ao Metro1, os impactos das Jornadas de Junho no país

Foto: Arquivo pessoal
Os 10 anos subsequentes às manifestações de junho de 2013 foram marcados por um novo ciclo na política brasileira. Depois dos movimentos, o Brasil viu a Operação Lava Jato criar e destruir mitos, um impeachment da primeira mulher - Dilma Rousseff (PT) - a ocupar a Presidência e a ascensão da extrema direita, que culminou na eleição de Jair Bolsonaro (PL).
Não apenas isso. Parte do país passou a questionar o sistema político, a Constituição e tudo o que o brasileiro tinha como algo "estável" desde a redemocratização em 1985. No entanto, é mesmo tudo culpa das Jornadas de Junho? Em entrevista ao Metro1, o cientista político e professor adjunto da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Fábio Dantas Neto, analisa os desdobramentos destes movimentos na política brasileira.
Confira a entrevista:
Muitos estudiosos avaliam que as Jornadas de Junho trouxeram consequências negativas para o Brasil. O que o senhor pensa sobre essas manifestações que ocorreram em 2013?
A política do país piorou de 10 anos para cá, mas isso não quer dizer que todas as coisas que aconteceram são resultados diretos das Jornadas. Grande parte dos elementos negativos resultam não daquele fato, mas das respostas que foram dadas a ele por parte dos partidos. Não acredito nessa história de que as consequências estão escritas nas estrelas. Poderia resultar em diversas coisas, dependendo de como se reage a isso.
Eu prefiro dizer que, ao invés de um diagnóstico negativo, convivo com a percepção de que o Brasil entrou em outro círculo político. As coordenadas mudaram na política a partir de 2013, porque aqueles eventos causaram impactos que geraram outras ações e que chegaram onde estamos hoje. Defino o momento atual como um beco. Estivemos até o ano passado na beira de um abismo, escapamos de um precipício e entramos em um beco.
Mas o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro dois anos depois são desdobramentos das Jornadas de Junho?
Gosto de usar uma metáfora manjada, mas útil. Usar as imagens de hardware e software. A República brasileira seria como um hardware, com vários componentes. A Constituição como se fosse a placa mãe. O sistema democrático, as regras, os partidos, como processadores, e as políticas públicas como os softwares.
No primeiro momento, os movimentos de 2013 estavam preocupados com as políticas públicas. Ninguém estava falando do sistema político e se reagiu mal a esses movimentos tentando desviar a conversa. O governo, inclusive. Até a proposta de mudança de Constituição aconteceu. É uma conversa de surdo, porque os movimentos cobravam eficiência dos serviços públicos, e a pauta de repente foi desviada.
Naquele primeiro momento de junho, não se viu os movimentos questionarem a existência dos processadores, muito menos a Constituição. Aí, na sequência, a campanha eleitoral agiu como se nada tivesse acontecido. A candidata à reeleição Dilma Rousseff vendia um peixe como se o país tivesse passando por um momento de bonança, e não estava. Entramos em uma eleição extremamente polarizada. A pauta inicial dos estudantes [da tarifa de ônibus] foi substituída pela pauta de quem se engajou na disputa política.
Em 2014, os movimentos já estavam com a contestação ao governo e depois mudaram de características, e passaram a avaliar os processadores. Imagine a avaria que causou às instituições a fricção que durou meses entre [o então presidente da Câmara dos Deputados] Eduardo Cunha e Dilma Rousseff. Aquilo deu a ideia à opinião pública que aqueles processadores não estavam funcionando, que a relação entre Legislativo e Executivo não promoviam governabilidade. A crise política foi se agravando e estamos há 10 anos na polarização sem enxergar uma saída.
O governo Bolsonaro só agravou a situação política do país?
Durante o governo Bolsonaro, pela primeira vez, começaram a pôr em dúvida e mirar na placa mãe, a Constituição, portanto, a vida da própria República. Claro que o Executivo se enfraqueceu com os desastres, e o Legislativo se enfraqueceu com a Lava Jato, que tinha como alvo principal destruir os processadores. E o que seria da placa mãe sem os seus processadores?
Felizmente o que aconteceu no ano passado foi que o país enxergou a possibilidade de salvar a placa mãe e de reconstituir os processadores. A situação ainda está complicada porque alguns processadores estão muito avariados. Não foi brincadeira o desmonte feito na estrutura administrativa e nas relações institucionais entre os poderes quando o presidente Bolsonaro terceirizou suas funções.
Hoje, temos, a meu ver, dois problemas: um são as avarias que foram feitas nessas instituições, que processam os softwares das políticas públicas dentro dos marcos da Constituição. Chegou-se ao ponto de tentarem um golpe. Outro problema é que os softwares ruins continuam na praça. Mas não posso considerar que tudo isso que está acontecendo é um desdobramento lógico natural do que aconteceu em 2013. Em 2013, houve uma lufada de desarrumação e as lideranças políticas não souberam direcionar o barco e mudar as políticas públicas que pudessem atuar de maneira benigna.
A política brasileira pode voltar a como era antes das Jordadas de Junho?
De modo geral, temos que compreender que não é mais possível “desfritar” o ovo. Não creio na possibilidade de voltar ao status quo de 2013, até porque isso não seria desejável. Os próprios movimentos de junho mostram que não estávamos bem. Estamos condenados a encontrar uma solução nova que ainda não desponta no horizonte. A política está ainda em um ar rarefeito e com agravamentos recentes. A pauta policial voltou ao centro da política brasileira, que esgarçou nosso tecido durante o período da Lava Jato. Me parece que está faltando clareza, unidade das forças democráticas para sairmos desse beco.
A força que a extrema direita conseguiu com a eleição de Bolsonaro não foi um desdobramento deste período?
Não acho que seja um desdobramento direto nem indireto. Os movimentos que começaram tinham sentido de crítica e aperfeiçoamento da democracia. Mesmo o processo de impeachment, também. Embora já tivesse polarização na época, eu não concordo que o impeachment teria levado necessariamente ao que aconteceu em 2018. Em 2016, instalou-se uma transição, comandada pelas forças políticas que comandaram o impeachment. O governo de Temer era isso. Essas forças políticas, a meu ver, falharam na obrigação que tinham de chegar junto nas eleições de 2018. Era uma obrigação mínima, de chegar em 2018 como alternativa. Mas o que a gente viu entre 2016 e 2018 foi que a Lava Jato entrou na cena com ameaça de exterminação geral da classe política e instalou-se um “salve-se quem puder”.
Como o senhor vê os impactos que a Lava Jato e o impeachment de Dilma tiveram na política atual?
Concordo com a ideia de que o grupo de Curitiba, comandado por Sérgio Moro, tinha como foco o PT. Mas não era o mesmo caso do Ministério Público sediado em Brasília, cujo alvo era o MDB. Quando o governo Temer começou foi alvejado pela Lava Jato com a mesma intensidade que tinha sido o PT no governo anterior.
Essas forças políticas, que estavam na base do governo Temer, abriram o gás, enquanto o PT teve uma reação do ponto de vista partidário que terminou sendo boa para ele. O PT resistiu, sobreviveu e deu a volta por cima. Já os partidos que fizeram o impeachment se dispersaram de tal maneira que quando se soma uma insatisfação generalizada, com ausência de alternativa democrática para disputar com o PT, deu Bolsonaro.
Bolsonaro não resultou do impeachment, resultou da atitude política que as forças que comandaram o impeachment tiveram depois. Não quer dizer que a extrema direita nasceu ali.
E aqui na Bahia, houve algum impacto das Jornadas de Junho? Vimos o PT perdendo votos nos ultimos anos.
O PT passa por processo de desgaste na Bahia semelhante à época de Paulo Souto em 2002. Venceu, mas tem desgastes enormes. Agora, o PT tem uma condição que Paulo [Souto] não teve. Além de ser um grupo político que tem implantação inegável no estado, tem o governo federal.
A questão é saber o que os petistas baianos farão com essa chance que a história está lhes dando de renovar suas relações com o eleitorado baiano. Se vão restabelecer diálogo amplo com a sociedade civil ou se vão reproduzir modelo tradicional de política que predominou nas eleições de 2022. Vamos ver o comportamento que terão nas eleições municipais. Mas não consigo enxergar conexão com junho. Isso tem a ver com os últimos 10 anos dos governos petistas da Bahia, e com a oposição com suas virtudes e problemas. A história da política baiana tem mais a ver com a interação entre governo e oposição no próprio estado.
Então não dá para dizer que houve impacto na Bahia?
Se considerarmos que as Jornadas de Junho tiveram impacto na política brasileira, a Bahia não ficou imune. Mas como havia na Bahia um sistema muito sólido de alianças, esse sistema conseguia refratar esses efeitos negativos e dissolventes da onda que varreu o país, inclusive, no tempo do impeachment. Agora, há sinais de desgaste muito claro. A depreciação da qualidade dos quadros políticos, a ausência de política, a atividade de governar se torna cada dia mais imposição de recursos da base. Há uma precariedade no diálogo político na Bahia, que caiu de nível fortemente.
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