
Política
Mais de seis décadas depois, golpe militar de 1964 ainda é um fantasma que ronda o Brasil
Tentativa de tomar o poder na marra, cristalizada no 8 de Janeiro de 2023, faz parte de um roteiro que mistura o passado do país e o presente no mundo, com invasão do Capitólio nos EUA e avanço da extrema-direita fascista

Foto: Reprodução
Já se passaram 62 anos do 31 de março que levou o Brasil a um dos períodos mais sombrios de sua história. Foram aproximadamente duas décadas de perseguições, arbitrariedades, torturas, censura, tirania e supressão de liberdades individuais e coletivas. Embora o país se achasse livre do fantasma da ditadura desde a redemocratização estabelecida pela Constituição de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, o fantasma do totalitarismo volta e meia ronda o céu da nação. Mas agora carregado a tiracolo por um tipo de devoção ao fascismo em escala global e pelo avanço da extrema-direita, ainda que disfarçada de patriotismo.
Não faz muito tempo - precisamente três anos, dois meses e 23 dias - que os brasileiros viram o mais ousado ataque direto à democracia desde a marcha dos militares iniciada em 31 de março de 1964 - o ano que jamais deveria ter existido. Em 8 de janeiro de 2023, centenas de militantes arregimentados pela tropa de choque leal ao ex-presidente Jair Bolsonaro se sentiram à vontade para um ataque coordenado em massa aos Três Poderes. O objetivo era claro: depor o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito pelo voto direto, e recolocar o derrotado nas urnas de volta ao comando, por meio de mais uma entre tantas outras tentativas ou golpes consumados que jogaram o país nas trevas.
Embora tenham ocorrido danos ao patrimônio brasileiro, seja ele histórico ou não, o prejuízo foi muito maior. As cenas de depredação e invasão à força contra as sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário não deixam dúvidas de que o Estado Democrático de Direito e a ordem institucional voltaram a ficar ameaçados. Não foram poucas as vozes que clamaram pela volta do AI-5, o braço mais duro e letal do regime militar instaurado em 1964. Essas vozes, é sempre bom lembrar, estavam em sintonia fina com outro ataque semelhante ocorrido cerca de dois anos antes na parte da cima da linha do Equador.
Em 6 de janeiro de 2021, um bando invadiu o Capitólio, sede do Congresso Nacional norte-americano, para protestar contra o resultado da eleição presidencial realizada no ano anterior e tentar emparedar o governo de Joe Biden na marra. Inconformado à época com a derrota na busca pelo segundo mandato à frente da Casa Branca, Donald Trump incitou dezenas de apoiadores a investir contra o Capitólio. A sucessão de atos violentos deixou cinco mortos, 138 policiais feridos e 1.500 pessoas indiciadas, mas depois perdoadas de forma integral assim que Trump retornou ao cargo, em março de 2025.
Todo esse roteiro de claro verniz antidemocrático nos Estados foi desenhado sob a falsa alegação de fraude às urnas. Qualquer similaridade com o discurso adotado pelos partidários de Bolsonaro não terá sido mera coincidência. Muito menos está desconectado do que acontece em parte do mundo onde a direita extremista, a mesma que flerta desavergonhadamente com o fascismo, caminha a passos largos. Na Europa, movimentos como o Chega, em Portugal, e o Vox, na Espanha, crescem sedimentados por discursos de ódio, separatismo e xenofobia da mais pura, numa ópera nada cômica e bastante trágica.
França, Itália, Alemanha, Hungria, Holanda, Áustria e Polônia também veem tal fenômeno ganhar corpos e mentes em progressão aritmética. Até o milenar Japão foi tragado pelo extremismo de direita, a partir da ascensão da atual primeira-ministra do país, a ultraconservadora Sanae Takaichi, eleita em outubro de 2025. Ainda é cedo para dizer até onde pode chegar a onda mundial contrária à democracia, mas é impossível negar que a maré é grande e forte. E Mais: que é imprescindível instituições muito sólidas para segurar o rolo-compressor do totalitarismo. O Brasil teve sucesso em deter o golpismo bolsonarista de três anos atrás. Resta saber se terá a mesma força para combatê-lo novamente.
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