
Política
PF suspeita que Toffoli seja ‘beneficiário final’ de fundo que recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro
Relatório de 196 páginas sobre as relações entre ministro do STF e ex-dono do Banco Master estava sob sigilo havia sete meses e foi revelado pela revista piauí

Foto: Gustavo Moreno/STF
Um relatório de 196 páginas elaborado por quatro delegados da Polícia Federal aponta a hipótese de que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), seja o “beneficiário final” ou “proprietário de fato” de um fundo de investimentos que recebeu R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As informações foram reveladas pela revista piauí, que teve acesso à íntegra do documento.
O relatório foi encaminhado ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, há cerca de sete meses e, segundo a publicação, submetido à análise dos demais integrantes da Corte. A revista afirma que os ministros consideraram o documento juridicamente inconsistente e decidiram mantê-lo em sigilo.
A investigação cita o FIP Arleen, que tinha participação no resort Tayayá, empreendimento ligado a Toffoli e familiares no Paraná. De acordo com o documento, o fundo recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro e posteriormente transferiu a totalidade de seus ativos para uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, território conhecido por funcionar como paraíso fiscal.
“Foram identificados diversos elementos de informação que, analisados de forma conjunta, apontam no sentido de que o ministro José Antonio Dias Toffoli possa ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do FIP Arleen, bem como de seus ativos”, afirma o relatório.
Cobranças por pagamentos
A PF também identificou mensagens que, segundo o relatório, indicariam uma preocupação de Vorcaro com os repasses relacionados ao fundo. Em maio de 2024, o banqueiro questionou Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e ligado às negociações envolvendo o empreendimento, sobre um aporte destinado ao Tayayá. Na conversa, Vorcaro afirmou estar em uma “situação ruim” diante do atraso. Meses depois, em agosto, voltou a cobrar informações sobre o pagamento.
Após receber a confirmação de que os recursos haviam sido encaminhados a um intermediário, Vorcaro demonstrou irritação e questionou onde estava o dinheiro. Zettel respondeu que os valores estavam no fundo proprietário do Tayayá.
Na sequência, Vorcaro pediu um levantamento dos aportes já realizados. Zettel informou que haviam sido pagos R$ 20 milhões anteriormente e mais R$ 15 milhões naquele momento, totalizando os R$ 35 milhões mencionados no relatório.
Investigação sobre voto de Toffoli
O documento também levanta dúvidas sobre a atuação de Toffoli em um processo relacionado a precatórios de uma usina do setor sucroalcooleiro.
Segundo a piauí, a PF registrou que o ministro alterou seu voto durante o julgamento e recomendou um “aprofundamento analítico” para verificar se Vorcaro teria exercido influência sobre a mudança de posicionamento.
A suspeita ganhou relevância para os investigadores porque o Banco Master mantinha em seu balanço mais de R$ 10 bilhões em precatórios ligados ao setor sucroalcooleiro.
Relatórios sobre Toffoli e Moraes
A reportagem também compara o documento produzido sobre Toffoli com outro relatório da PF envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e suas relações com Vorcaro. Segundo a revista, os dois documentos tratam de episódios semelhantes, mas deram pesos diferentes a determinados fatos. Um deles envolve uma viagem a Londres e uma degustação de uísque que teria custado R$ 3,3 milhões.
No relatório relacionado a Toffoli, o episódio aparece de maneira secundária. Já no documento sobre Moraes, segundo a piauí, o assunto recebe maior destaque.
A publicação aponta que a diferença de tratamento levanta questionamentos sobre a condução do caso pelo relator, ministro André Mendonça, que deu publicidade ao relatório sobre Moraes enquanto manteve sob sigilo o documento envolvendo Toffoli.
Relação com Vorcaro
O relatório também descreve a proximidade de Vorcaro com o ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, Fábio Faria. De acordo com a revista, Faria atuava como intermediário e lobista do banqueiro e também teria sido responsável por organizar eventos privados para ele.
As informações fazem parte do conjunto de elementos reunidos pela PF para investigar as relações financeiras e pessoais entre Vorcaro e integrantes do Judiciário e do meio político.
O relatório, porém, não estabelece como fato consumado que Toffoli seja proprietário do fundo ou tenha recebido diretamente os recursos. A própria investigação trata a condição de “beneficiário final” ou “proprietário de fato” como uma hipótese a ser apurada a partir dos elementos reunidos pelos investigadores.
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