
Política
Emendas de Flávio Bolsonaro pagaram empresas investigadas e entidade considerada 'inexistente'
Levantamento do UOL identificou repasses a empresas investigadas por suspeita de fraude em licitações, a uma organização sob investigação e a um instituto ligado a um miliciano

Foto: Vittor Sales/Divulgação
Emendas parlamentares do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, foram usadas para pagar empresas investigadas pela Polícia Federal (PF) por suspeita de fraude em licitações, uma entidade classificada como “inexistente de fato” pela Receita Federal e investigada pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), além de um instituto cuja liberação de recursos foi tratada por um miliciano condenado. As informações são de um levantamento publicado pelo UOL.
Desde 2020, Flávio teve mais de R$ 300 milhões reservados para emendas no orçamento federal. A reportagem rastreou empresas e entidades contratadas por órgãos públicos que receberam recursos indicados pelo senador. Procurado, ele afirmou que não indica as empresas que serão contratadas pelos beneficiários das verbas.
Instituto recebeu R$ 666 mil de emenda
Em 2024, Flávio destinou R$ 3,1 milhões para a atenção básica de saúde de Mesquita (RJ), município governado pelo PL. Desse total, R$ 666 mil foram pagos, em agosto de 2025, ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP).
Em junho de 2026, a Receita Federal classificou o instituto como “inexistente de fato”. Segundo documento do órgão, há “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”.
O IMP é investigado pelo TCE-RJ desde 2024. Entre 2019 e o fim de 2024, a Prefeitura de Mesquita firmou contratos que somaram mais de R$ 580 milhões com a entidade para a gestão da saúde pública.
Um acórdão do tribunal, publicado em 2025, apontou suspeitas de irregularidades, como a ausência de estudos técnicos prévios à transferência da gestão municipal de saúde e indícios de conluio na concorrência vencida pelo instituto. O documento também registrou que uma pessoa que assinava documentos da entidade estava morta desde 2017.
Em abril de 2026, a prefeitura impediu o IMP de firmar novos contratos com o município por dois anos. Segundo a administração municipal, os contratos foram rescindidos, a entidade foi multada em R$ 3 milhões e o caso foi encaminhado ao Ministério Público.
Empresas investigadas por suspeita de cartel
Parte das emendas do senador também foi usada para pagar empresas fornecedoras de equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar do Rio de Janeiro.
A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil entre maio e junho, por meio de convênios que incluíam recursos de emendas de Flávio e de outros parlamentares. Já a Inbra-Tecnologia recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio. Uma nota de empenho do Ministério da Justiça identifica uma emenda do senador na compra de 342 capacetes balísticos da empresa.
A Glágio e uma empresa do grupo Inbra foram alvo de buscas na Operação Perfídia, realizada pela Polícia Federal em setembro de 2023. A investigação apura suspeitas de divisão de contratos públicos, com alternância de vitórias em licitações conforme o tamanho dos equipamentos e a região do país.
Durante a apuração sobre a compra de coletes à prova de balas, a PF encontrou uma mensagem de um representante da Glágio afirmando que o general Walter Braga Netto havia “prometido interferir” para viabilizar a aquisição.
Segundo os investigadores, um oficial da reserva teria sido contratado para atuar junto à cúpula do governo e reverter a suspensão do processo. Braga Netto foi ministro no governo Bolsonaro e candidato a vice-presidente em 2022. Ele está preso após condenação por tentativa de golpe de Estado.
Emendas também foram destinadas a projetos esportivos
Outros repasses do senador já haviam levantado questionamentos. Uma emenda de R$ 4 milhões destinada, em 2025, a um projeto esportivo ligado ao Vasco da Gama entrou na mira da Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo informações divulgadas pelo UOL, R$ 684 mil foram destinados a um único fornecedor, uma microempresa registrada em uma sala comercial na zona leste de São Paulo.
Em outro caso, Flávio destinou R$ 200 mil ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), para um projeto esportivo em Taquara, no Rio de Janeiro. A reportagem cita indícios de irregularidades na aplicação dos recursos.
O levantamento também menciona Robson Calixto, conhecido como Peixe, miliciano condenado no caso da morte da vereadora Marielle Franco. Segundo mensagens reveladas pelo Estadão, ele tratou da liberação de emendas com uma assessora de Flávio.
Além disso, uma emenda destinada a Resende (RJ) resultou em nove pagamentos à empresa Valle Sul, que somaram R$ 6,61 milhões, para obras de revitalização do aeroporto municipal. A revista piauí revelou que máquinas da companhia foram vistas trabalhando em uma propriedade privada de Renato Araújo, amigo do senador.
O que dizem Flávio e a Prefeitura de Mesquita
Em nota, Flávio Bolsonaro afirmou que ele e seus assessores não indicam empresas para receber os recursos das emendas. Segundo o senador, o gabinete se limita à indicação das verbas, enquanto as contratações são de responsabilidade dos beneficiários. Ele defendeu que eventuais irregularidades sejam apuradas pelos órgãos de controle.
A Prefeitura de Mesquita declarou que rescindiu os contratos com o IMP, aplicou multa de R$ 3 milhões e declarou a entidade inidônea por dois anos. A administração afirmou que a continuidade temporária dos serviços ocorreu para evitar a interrupção da assistência à população durante a transição contratual.
O município também ressaltou que os recursos foram transferidos ao Fundo Municipal de Saúde e aplicados no custeio dos serviços, com informações disponíveis no Portal da Transparência. Segundo a prefeitura, a escolha da empresa responsável pela execução dos serviços cabe à administração municipal, sem participação do parlamentar que indicou a emenda.
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