Política

'Regredimos aos patamares da Guerra Fria', diz historiador Nelson Schapochnik

Ainda segundo o educador, a recente iniciativa do governo de Jair Bolsonaro (Sem partido), que consistia em garantir armamento para toda população, pode ter consequências graves ao país

['Regredimos aos patamares da Guerra Fria', diz historiador Nelson Schapochnik]
Foto : Metropress

Por Matheus Simoni no dia 01 de Junho de 2020 ⋅ 14:27

O historiador e professor da Faculdade de Educação da USP Nelson Schapochnik conversou com Mário Kertész hoje (1º) sobre o atual panorama do mundo, em meio a uma pandemia de coronavírus e diante das manifestações contra o racismo nos Estados Unidos. Em entrevista na Rádio Metrópole, ele apontou que os movimentos contra a segregação racial americana são históricos.

"A raiz deste problema pode ser encontrada neste histórico de segregação, racismo e preconceito que marcam a sociedade americana desde o começo do século XX. Nem mesmo a eleição de um presidente negro, como Barack Obama, conseguiu suplantar essa marca e cicatriz de origem da sociedade americana, que não é diferente do Brasil e de países que viveram a experiência da escravidão", afirmou. 

No Brasil, diversos manifestantes foram às ruas no Rio de Janeiro e em São Paulo no final de semana para protestar contra o atual governo e entoando palavras de ordem a favor da democracia e em repúdio ao fascismo. Para o historiador, é um mal que deve ser combatido. "Quero crer, como filho de imigrantes, tenho que acreditar que a luta contra o fascismo, todas as intolerâncias, tem que triunfar. E tem que triunfar de uma maneira racional, com aquilo que temos de melhor, que é a razão, a capacidade argumentativa, a capacidade de persuadir e constituir maioria para que sejamos hegemônicos", disse Schapochnik.

"É muito curioso ouvir do presidente Trump designar esse movimento, que não tem liderança porque é um movimento de expressão mundial, do antifascismo como comunista. Eventualmente a gente ouve reverberação disso aqui nessas terras. Basta você se colocar contra e expressar uma oposição e acenar a necessidade de diálogo, se colocando contra medidas que vêm de cima para baixo, para ser taxado de comunista. Regredimos aos patamares da Guerra Fria. É de causar perplexidade", acrescentou.

Ainda segundo o educador, a recente iniciativa do governo de Jair Bolsonaro (Sem partido), que consistia em garantir armamento para toda população, pode ter consequências graves ao país. Ele traçou um paralelo com o surgimento dos Panteras Negras. Originado nos anos 60, o movimento defendia a resistência armada nos bairros negros contra a perseguição policial.

"Tivemos uma experiência traumática e importante nos EUA, mas importante e significativa, que foram os Panteras Negras. Usando do mesmo princípio de que todo cidadão pode portar uma arma para se defender, eles partiram para a ideia de que se armar para se defender dos desmandos da polícia era uma estratégia positiva para preservar a integridade das comunidades afroamericanas", afirmou Nelson Schapochnik.

"Sou contra toda e qualquer forma de armamentismo. O que vem sido defendido aqui no Terra Brasilis do livre acesso às armas me parece ser um passo ao nonsense e, espero que nunca aconteça, para uma guerra civil. Nós temos o estado e o aparato para evitar esse tipo de ideia do justiçamento e de justiça popular", finalizou. 

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