Política

Economista avalia aproximação de Bolsonaro com Centrão: 'Não dá pra virar as costas para o Congresso'

Segundo Zeina Latif, pandemia forçou revisão de equívocos e problemas estruturais da sociedade

[Economista avalia aproximação de Bolsonaro com Centrão: 'Não dá pra virar as costas para o Congresso']
Foto : Metropress

Por Matheus Simoni no dia 26 de Junho de 2020 ⋅ 09:40

Ex-economista-chefe da XP Investimentos, uma das maiores corretoras de valores do Brasil, e colunista do jornal Estadão, Zeina Latif avaliou o momento econômico do país em meio à crise provocada pela pandemia de coronavírus. Em entrevista a Mário Kertész hoje (26), durante o Jornal da Bahia no Ar da Rádio Metrópole, ela afirmou que, diante das dificuldades do Brasil, os problemas econômicos apresentam contornos mais graves.

"É um país tão difícil. A gente acabou de aprovar o marco regulatório do saneamento com tanto atraso e um quadro em que a gente tem quase metade da população sem acesso a esgoto tratado. Isso, obviamente, junto com essas fraquezas, aumentam nosso sofrimento. Sem contar a situação da economia. Temos muitos desafios pela frente, mas gostaria de fazer a seguinte provocação: essa doença, apesar de ser uma coisa terrível, nos força a pensar os equívocos e a pensar esses problemas estruturais que a gente tem que avançar", comentou Latif.

Ainda de acordo com a economista, governos anteriores tiveram posicionamentos distintos em relação à estratégia econômica. Ela citou como exemplo as gestões dos ex-presidentes Dilma Roussef e Michel Temer. "O governo que sou mais crítica é o governo Dilma. Acho que o Brasil perdeu o rumo totalmente. Se antes a gente tinha muitas dificuldades, ali perdemos o rumo. O governo Temer foi importante, aqui estou falando apenas de economia e não faço julgamento além de economia. O governo Temer deixou um legado importante e deixou o legado de colocar de novo a política econômica nos trilhos. Ainda que num ritmo muito lento e aquém de nossas necessidades, algumas coisas conseguimos avançar e algumas correções de rumo foram feitas", disse. 

Questionada sobre a atual gestão de Paulo Guedes no comando do Ministério da Economia, ele afirmou que, apesar da estratégia de campanha, ele não conseguiu implementar uma agenda que fomentasse e recuperasse a economia do país. "A gente perdeu capacidade de planejamento do estado brasileiro. Acho que foi importante e, depois de todo inchaço promovido no governo Dilma, o Paulo Guedes fez bem em chacoalhar esse debate. Agora, eu não diria que a agenda dele tem sido bem sucedida. Ficou muito mais na retórica. A gente teve alguma privatização? Teve nada. Tivemos reforma da Previdência, que já havia sido costurada e discutida no governo Temer", avaliou Latif.

"Nem se trata de estado mínimo ou máximo. É porque a previdência está quebrada. O país envelheceu e precisava fazer essa reforma, independente da pessoa ser liberal, conservadora ou ortodoxa e heterodoxa. É uma questão das coisas não fecharem", acrescentou.

Sobre a iniciativa do presidente Jair Bolsonaro de negociar cargos com o Centrão, que reúne políticos que passaram a apoiar o presidente na estratégia de garantir governabilidade, Zeina Latif declarou ser favorável à aproximação. De acordo com ela, é necessário que o chefe do Poder Executivo tenha apreço pelo diálogo. "O fato de ter tantas bancadas já mostra que há algo errado em nosso sistema democrático. Não era para ser assim. Como que pode o Congresso se dividir em bancadas e defender o interesse de grupos? Existe a bancada dos vulneráveis, dos pobres. Tem algo muito errado em nosso sistema. Essa construção de consensos para aprovação de reformas é muito difícil. O que estou querendo dizer é o seguinte: não seria justo a gente condenar o Centrão, que no fundo é um grupo que tenta se unir para garantir governabilidade ao presidente", citou a economista.

"Prefiro olhar da seguinte ótica, dá pra fazer uma negociação sem necessariamente isso gerar uma piora do jogo político. Existe a boa negociação e a boa política. Claro que as instituições democráticas têm que ficar de olho e apontar excessos e equívocos, mas é possível sim esse caminho. Bem ou mal, o que a gente estava vendo era o presidente muito distante do Congresso. É um equívoco. Collor fez isso, Dilma fez isso e o Congresso está lá, concordando ou não, elas foram eleitas e têm sua legitimidade. Não dá pra virar as costas para o Congresso", finalizou.

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