Política

Bolsonaro é 'sintoma e consequência' de sociedade forjada no autoritarismo, diz juiz criminalista

Para Rubens Casara, viés autoritário do governo também é identificado em outros países do mundo

[Bolsonaro é 'sintoma e consequência' de sociedade forjada no autoritarismo, diz juiz criminalista]
Foto : Metropress

Por Matheus Simoni no dia 24 de Setembro de 2020 ⋅ 09:40


O juiz criminal do Rio de Janeiro e professor Rubens Casara lançou em junho deste ano um livro onde ele destrincha o fenômeno do bolsonarismo e como se organiza a base de apoio ao governo de Jair Bolsonaro. Em entrevista a Mário Kertész hoje (24), durante o Jornal da Metrópole no Ar da Rádio Metrópole, ele, que é autor de "Bolsonaro - O Mito e o Sintoma", afirmou que a iniciativa de escrever a obra partiu de uma avaliação do momento da sociedade.

"A vontade de escrever esse livro surgiu da necessidade de entender como nós fomos parar nesse momento histórico na qual o absurdo acabou se tornando naturalizado. Nesse sentido, a ideia do Bolsonaro não como uma causa de alguns problemas suportados pela sociedade brasileira, mas como um sintoma e consequência de uma sociedade forjada numa tradição autoritária e, ao mesmo tempo, submetido a isso que se convencionou chamar racionalidade neoliberal", declarou o magistrado.

"Esse modo de pensar e agir no mundo que se tornou hegemônico a partir da década de 80. O que eu tentei trabalhar foi, primeiro, essa natureza autoritária da sociedade brasileira e essa crença no uso da força para resolver os mais variados problemas sociais, essa incapacidade de elaborar fenômenos históricos, como a escravidão e a ditadura civil-militar instaurada em 1964 que fazem com que a gente naturalize a hierarquizações de pessoas de um lado e pense na ditadura como um período de paz, lei e ordem ou ausência de corrupção, quando na realidade não foi nada disso", acrescenta.

Rubens Casara argumenta que o livro não trata do lado pessoal de Bolsonaro e sim da representatividade do presidente para o atual momento do país. Ele comparou a situação vivida pelo Brasil em relação a outros países do mundo que também apresentam viés autoritário em seus líderes. "É um fenômeno que ocorre não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. A busca por um líder autoritário que vai acabar responsável por fazer aquilo que a própria pessoa se sente incapaz de fazer. A gente vive um momento histórico muito interessante do ponto de vista da análise. Vários problemas que são consequência direta do neoliberalismo, esse modo de ver e pensar o mundo, foram atribuídos não ao liberalismo, mas à democracia. Há um medo da democracia, que é também o medo de assumir a responsabilidade pelos próprios atos", aponta o autor. 

"Nesse sentido, o indivíduo passa a procurar um pai, alguém que vai agir por ele e resolver os problemas. Temos uma séria crise causada pelo neoliberalismo. Só que pessoas dessa ideologia atribuem à causa dessa crise a democracia. Daí surge esse pai forte, essa figura forte, que vai decidir por aquelas pessoas que têm medo de exercer a própria liberdade", diz.

"O que o Brasil hoje passa tem muito do que já passamos em outros momentos autoritários"

O juiz aponta ainda como a adoção de um discurso em torno de um inimigo comum facilita com que os ideais autoritários sejam instalados na sociedade. "Quando acaba o bloco comunista e vira um mero recurso retórico de líderes autoritários, a função da democracia para o detentor do poder econômico desaparece. O próprio detentor passa a ver a democracia, as regras, princípios e valores democráticos como obstáculos ao seu lucro. Muitas vezes, para respeitar a democracia, é necessário diminuir a margem de lucro do titular do poder econômico, os chamados super ricos", afirmou o escritor.

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