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“Lucro das bets é obtido a partir dos prejuízos dos apostadores”, lembra auditora que perdeu irmão para o vício em jogos
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“Lucro das bets é obtido a partir dos prejuízos dos apostadores”, lembra auditora que perdeu irmão para o vício em jogos
Juliana Prates passou a denunciar os impactos da ludopatia após perder o irmão para o vício e critica a publicidade, o endividamento e a atuação das casas de apostas online

Foto: Metropress/Juliana Fernanda Vilas
Advogada e auditora fiscal do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE), Juliana Prates se tornou ativista contra as casas de apostas online após perder o irmão para o vício em jogos. A entrevista aconteceu em 21 de julho deste ano, meses antes de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciar uma medida para proibir as bets no território brasileiro.
“Eu estava muito impressionada e indignada que ele tivesse morrido pelo superendividamento por causa das casas de apostas. Porque as apostas estavam permitidas no nosso país e estavam sendo glamourizadas com propagandas”, relatou.
Relato ganhou repercussão
Após publicar um texto sobre a morte do irmão, Juliana percebeu o alcance que o relato teve e começou a receber diversos relatos de pessoas que enfrentavam problemas semelhantes. Ao perceber a repercussão, sentiu a necessidade de produzir mais vídeos sobre o assunto, principalmente porque, segundo ela, poucas pessoas falavam sobre a ludopatia.
Com a publicação de novos conteúdos, a auditora afirma que os vídeos passaram a alcançar públicos cada vez maiores. “Deixou de se tratar do meu irmão e se tornou uma causa coletiva”, disse. Ao estudar e se aprofundar no assunto, Prates afirma ter percebido que propagandas e influenciadores podem funcionar como gatilhos para pessoas que enfrentam o vício. “Muitos entram achando que é só diversão ou que vão conseguir um dinheiro extra. É isso que é vendido nas apostas”, afirmou.
“Essas atividades entraram no Brasil sem a gente cuidar dessas pessoas. A gente só pensou na arrecadação. Era certo que a ludopatia ia vir junto, porque a atividade das apostas, dessa indústria, traz esse adoecimento e endividamento.”
Críticas às apostas
Ao longo da entrevista, a auditora também criticou o uso de recursos públicos em festas e eventos de grandes proporções patrocinados por casas de apostas. “Por que o dinheiro público está envolvido com apostas?”, questionou. Ela acrescentou que, na avaliação dela, o Estado estava incentivando essas atividades em vez de criar campanhas e políticas públicas de prevenção. Prates comparou a situação com as políticas adotadas para combater o tabagismo.
“A falta de coragem de contar e procurar ajuda. É um tema muito triste, pesado e denso. Estamos lidando com as emoções das pessoas. E uma pessoa que está doente, ludopata, tem características difíceis para a família lidar. A pessoa está muito isolada, estressada, ela se afasta. A cada uma pessoa doente, atinge, no mínimo, seis pessoas que estão ao redor.”
Prates também criticou o argumento de que basta ter autocontrole para evitar o vício em apostas. “As pessoas dizem: ‘Tem que ter controle, se você não tiver controle, você não joga’. Não é tão objetivo assim. O desconhecimento sobre o tema também faz com que você vá lá só se divertir. E há uma necessidade de transparência. A gente tem uma relação de consumo dentro das apostas, mas a gente não sabe como é o mecanismo dela nesses jogos. Ela não sabe que vai perder, até porque as pessoas ganham.”
Segundo a auditora, os extratos bancários do irmão mostravam que ele chegou a ganhar R$ 29 mil em uma aposta, mas acumulou uma dívida superior a R$ 1 milhão. “Eles perdem a dimensão do dinheiro que eles perdem, na expectativa do ganho.”
O ambiente digital, segundo Prates, torna as apostas mais rápidas e acessíveis. Ela cita como exemplo a atuação de influenciadores digitais na divulgação de casas de apostas. “As apostas estão aí porque tem gente que consome, promove e diz que é bom.”
Prates defende que é preciso compreender as apostas como uma atividade nociva à sociedade e questiona o que o setor deixa para o país além do adoecimento provocado pelo vício. Ela também chama atenção para o fluxo de dinheiro para empresas internacionais. Segundo a auditora, algumas casas de apostas são controladas por grupos estrangeiros e movimentam valores elevados, enquanto o lucro é obtido a partir das perdas dos apostadores. Para ela, esse processo representa uma forma de “extrativismo digital”, em que o país permite novamente que suas riquezas sejam levadas para fora.
Relembre a entrevista:
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