Saúde

Antônio Nery: 'A marca da condição humana é o sofrimento'

Psiquiatra falou sobre a descoberta da vocação, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (21)

[Antônio Nery: 'A marca da condição humana é o sofrimento']
Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por Juliana Almirante no dia 21 de Junho de 2019 ⋅ 12:28

O psiquiatra e professor Antônio Nery relatou, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (21), como foi a descoberta pela vocação profissional, durante o estágio no último ano da faculdade. 

"Eu não escolhi a medicina. A medicina me escolheu. Estou convicto de que as pessoas não escolhem as profissões. Acho que somos tomados ao longo da vida por pequenas peças colocadas como se fosse um quebra-cabeça. Quando se menos espera, o quebra-cabeça está pronto", disse.

Antônio Nery, que já atuou como coodernador do Observatório Baiano sobre Substâncias Psicoativas (Cetad-Ufba), disse que, inicialmente, teve interesse em atuar com psiquiatria oncológica, depois de ver o sofrimento das pessoas que sofriam de câncer. 

"Eu penso que o que a marca da condição humana é o sofrimento. Nós sofremos desde sempre e até antes do nascimento. Porque, mesmo quando estamos felizes, a felicidade é tão transitória, tão fugaz, que a gente fica ansioso e sofre porque a felicidade vai embora. Então não tem saída, a felicidade não é permanente. Por outro lado, penso que somos seres marcados pela morte. Nós sabemos que vamos morrer e isso causa sofrimento. Eu chamo isso de sofrimento fundamental", avalia o psiquiatra.

O médico pontua que se refere ao sofrimento psíquico, que permeia todos os seres humanos.

"Quando eu falo de sofrimento, eu não digo da pessoa que fica sentada dizendo 'Ai ai ai, ui ui ui'. Eu falo de sofrimento na dimensão da percepção da existência finita, porque nascemos com um 'carretelzinho' de vida que vamos desenrolando e todo mundo sabe disso", comparou.

Ele ainda afirma que nunca foi próximo da farmacologia na prática médica e teve que fazer psicanálise também para aprender a lidar com o próprio sofrimento, por conta da aparência física.

"Se eu considerar que a morte é meu sofrimento principal, o meu segundo polo de sofrimento foi minha feiura. Eu tinha plena consciência de que eu era homem feio. Eu escolhi viver e passar a suportar. Imagine as pessoas rirem da sua cara e isso causava sofrimento muito grande. Não foi uma coisa simples conviver com a exclusão subjetiva. Depois eu compreendi uma coisa interessante. Depois de fazer 40 anos, eu passei a olhar as pessoas e reconhecer nelas um olhar que não era aquele antigo olhar da feiura e comecei a me sentir menos feio", diz Nery. 

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