Saúde

'Hiperconectividade isola as pessoas e as deixa mais sós', diz psicanalista

Marcelo Veras ressalta que, no curto espaço de tempo em que os conteúdos são vistos e compartilhados, não há espaço para diálogo de ideias. 

['Hiperconectividade isola as pessoas e as deixa mais sós', diz psicanalista]
Foto : Matheus Simoni/Metropress

Por Juliana Almirante no dia 02 de Dezembro de 2019 ⋅ 09:20

O médico psiquiátrico, psicanalista, professor e coordenador do programa de Saúde Mental e Bem Estar da Ufba Marcelo Veras, analisou, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (2), como o fenômeno da hiperconectividade do ambiente digital afeta as relações humanas. 

“Existe uma falsa ideia de que mundo da hiperconectividade aproxima mais as pessoas. Mas já há vários trabalhos mostrando que hiperconectividade isola as pessoas e as deixa mais sós”, pontua.

Veras citou um estudo que analisou postagens em redes sociais de um grupo formado por 200 pessoas diagnosticadas como deprimidas e outras que não tinham diagnóstico de transtorno mental.

“A gente percebeu que esse grupo de pessoas que estava bem e tinham usado redes sociais nos últimos dois anos não acreditavam muito naquele troço, usavam para brincar e fazer piada. Mas no caso de pessoas deprimidas, foram analisar o conteúdo das redes sociais delas, elas realmente acreditavam que iam encontrar ajuda. Eram pessoas que estavam ali pedindo ajuda ou tentando se conectar pelo modo que questionavam problemas e tentavam se conectar aos outros. E não percebem que esse ambiente não é muito para isso”, avaliou.

O psicanalista ainda lembrou outro trabalho, que analisou o comportamento de jovens de 17 a 29 anos com smartphone, mostrou que eles ficam em média 20 segundos na mesma tela. 

"Quando você só tem 20 segundos, você mal vê e já conclui, sem o tempo de pensar junto com outro. Houve encurtamento dessa temporalidade, em que penso com o outro e penso no contraditório. Então se mal recebo fake news, já estou compartilhando. sem tempo de compreender. Ou seja, isso cria algo que eu chamo de uma epidemia. Quem mais compartilha são os mais velhos, que não sabem lidar com a temporalidade das redes sociais. Eles não tem ainda noção da temporalidade de uma clicada", disse. 

Ele ressalta que, no curto espaço de tempo em que os conteúdos são vistos e compartilhados, não há espaço para diálogo de ideias. 

“Nesse tempo do imediato, em que todo mundo é especialista de tudo ou de nada, nós vemos o fracasso da conversação”, pontua. 

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