Como os clássicos morrem?

Confira o artigo de Diego Assis sobre o clássico Ba-Vi

[Como os clássicos morrem?]
Foto : Divulgação/ECV/Maurícia da Matta

Por Diego Assis no dia 08 de Fevereiro de 2020 ⋅ 12:59

Lá, no longínquo 1932, aquelas pessoas que se amontoaram no antigo Campo da Graça pra assistir o início de uma das maiores e mais tradicionais rivalidades do futebol brasileiro, poderiam imaginar o fim melancólico que o futuro lhe preparava?

Desde pequeno ouço pelas ruas de Salvador: O BaVi é aquele clássico que começa uma semana antes e só acaba uma semana depois (e olhe lá!). E quem há de questionar?

Em 89 anos de clássicos BaVi nos orgulhamos de, na contramão dos outros grandes clássicos, estabelecermos a cultura de bebermos com nossos rivais antes do jogo naquele clima de “vença o melhor, perca o Bahia” e mesmo quando o natural não se cumpria (minha geração se acostumou a vencer BaVi) e o resultado não fosse favorável, entre um gole e outro de cerveja, uma ou outra gentileza, esse era o segundo plano e tudo passa e a vida segue.

Esse é o torcedor comum. A infinita maioria!

Hoje a torcida do Vitória encontra-se há uns 03 anos sem assistir um clássico como visitante (o rival tem menos por questões meramente circunstanciais), e por quê?

Pela violência dentro do estádio entre as torcidas que não ocorre há décadas?

Pela violência do lado de fora que nunca deixou de se repetir?

Pelos crimes nos bairros que usam futebol e torcida como pano de fundo de uma guerra muito maior, enquanto o poder público segue ineficiente?

Nos meus anos enquanto estudante de direito aprendi que normas não se pautam pela exceção, ou seja, não dá pra aplicar uma censura a 30 mil pessoas, por causa de 200 que estão errados. É mais fácil punir os 200 que prejudicar o todo. Essa deveria ser a regra.

Dentro dessa perspectiva, podemos listar, ainda sob os aspectos jurídicos, razões que tornam toda essa campanha de ataque ao futebol baiano, além de imoral, ilegal.

Fere o personalismo da atividade criminosa, direito de ir e vir, estatuto do torcedor e mais alguns institutos do juridiquês que não serão tratados nesse texto.

O que é alvo desse texto é como um discurso ancorado na mais pura hipocrisia e atestado de incompetência do poder público, opera para o lento fim do futebol baiano e do maior clássico do norte-nordeste deste país.

Na decisão que motivou a última limitação a participação das duas torcidas no clássico, por exemplo, o Promotor Oliveira Campinho teve a audácia de justificar que uma briga entre duas torcidas organizadas ocorrida na Baixa dos Sapateiros (distante cerca de 15 km do Barradão), ocorrida às 09h da manhã (o jogo foi às 16:30) era razão impeditiva da convivência pacífica entre as duas maiores torcidas da Bahia.

Em outro momento, Oliveira Campinho justificou pela briga EM CAMPO daquele BaVi da vergonha, como razão para o afastamento de uma das torcidas de campo.

Em quê se sustentam argumentos tão frágeis?

Na falta de interesse do poder público em tratar a segurança pública de maneira eficiente, na incapacidade da Polícia Militar de prender e afastar os verdadeiros responsáveis pela violência, na triste ideia de que ninguém pode dar tanta importância assim a um jogo de futebol. Mas não é qualquer jogo...

E infelizmente não há perspectiva de reversão, e também acredito que o rival sozinho, ou o Vitória sozinho deva se opor ao fim anunciado do BaVi. Não cabe a nenhum dos dois clubes, tomar para si a responsabilidade pela segurança e por tudo que ocorrer por falta dela nos jogos futuros. Isso é responsabilidade irrenunciável do Estado!

Mas é papel dos dois clubes e seus dirigentes a comunhão e o respeito aos que vieram antes deles, aos 89 anos desse clássico e aos milhões de torcedores que não disfarçam a ansiedade em véspera de jogo.

A pressão por melhores condições de segurança, maior efetividade nas punições e afastamento dos violentos dos estádios deve vir dos clubes, juntos, contra o poder público, como deve ser em qualquer lugar do mundo.

Do contrário seguiremos, aos desmandos de autoridades ineficientes, assistindo o lamentável fim do antes clássico que parava a cidade, que unia famílias em volta do radinho ou da TV, e que era instrumento das risadas da semana.

A campanha é pelo desinteresse no BaVi, uma campanha orquestrada e pautada em mentiras que tem por objetivo afastar o torcedor exclusivamente desse clássico para que as críticas ao péssimo trabalho de décadas dos órgãos públicos siga passando despercebidos.

Entretanto, por fim, quando as bandeiras se abaixarem, quando as gozações silenciarem, quando as torcidas não sentirem mais tanta atração pelo clássico e o BaVi virar apenas mais um jogo, talvez a violência ainda esteja aí, a Polícia ainda seja incapaz de identificar os infratores, o Ministério Público continue incapaz de processa-los, a justiça incapaz de puni-los...

E nós, que crescemos entre clássicos, gozações e risadas, teremos apenas para o que um dia foi o maior clássico do nosso futebol, lembranças e saudade.

E no fim, a violência venceu.

 


*As opiniões colocadas neste texto não representam, necessariamente, a posição do Grupo Metrópole

 

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