Os maconheiros e o boi bombeiro

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Os maconheiros e o boi bombeiro]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 15 de Outubro de 2020 ⋅ 09:24

Depois de brigadistas, ongueiros, bombeiros locais sem equipamentos, estudantes, ambientalistas, pantaneiros e a chuva apagarem o fogo no Pantanal, os ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina entraram na história com personagens novos, criados por eles: meia dúzia de maconheiros e o boi bombeiro. O folclore brasileiro é riquíssimo. Temos mãe d’água, saci, boitatá, boto cor-de-rosa, caipora, uma infinidade de seres e lendas, mas nenhum tinha chegado oficialmente aos relatos da República. Agora, acabou de chegar o boi que apaga fogo. 

Quem apresentou primeiro o boi foi Tereza Cristina, ministra da Agricultura, em um roteiro de lamento. Tivesse o Brasil investido mais em pastos e na criação de bois, não teríamos tido em setembro de 2020 a tragédia que se viu no Pantanal. Sabe aquelas onças mortas, o jaguar com as patas em chaga viva, sangrando sobre brasas, as cobras espiraladas em cinza, as cotias, os jacarés e as aves, tudo morto? Milhares de hectares queimados? Tudo aquilo foi falta de boi. A lógica é simples: a floresta teria sido derrubada antes, haveria capim no lugar, o boi teria comido o capim e, assim, cadê alimento orgânico para alimentar as chamas? A tese é uma linha reta. Queimou agora porque não deixaram os criadores de gado derrubar e queimar antes. 

A formulação de que, com mais bois o fogo teria sido evitado, não foi fabulação da imprensa maldosa. Foram aspas de Tereza Cristina, que deve entender de bois mais do que de ministério, pois está onde está por ser criadora de gado. Aspas da ministra: "Aconteceu o desastre porque nós tínhamos muita matéria orgânica seca que, talvez, se nós tivéssemos um pouco mais de gado no Pantanal, isso teria sido um desastre até menor do que nós tivemos este ano. O boi é o bombeiro do Pantanal, porque é ele que come aquela massa do capim, seja ele o capim nativo ou o capim plantado, que foi feita a troca. É ele que come essa massa para não deixar como este ano nós tivemos. Com a seca, a água do subsolo também baixou os níveis. Essa massa virou um material altamente combustível". 

MEIA DÚZIA - Dias depois dessa declaração no Senado, o próprio presidente da República reiterou a tese e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, aquele que sugeriu aproveitar a COVID para passar a boiada, foi ao Pantanal. Sobrevoou a região, mandou aspergir um líquido químico retardante de incêndio - depois do fogo todo apagado, claro - e citou a importância do boi bombeiro da coleguinha. Ambientalistas protestaram. Criticaram a demora do ministro em visitar a região e o uso do produto químico lançado pelas aeronaves do governo, pela toxicidade para a fauna e flora. 

Em nota oficial, a assessoria de imprensa do Ministério do Meio Ambiente foi de um tecnicismo primoroso para rebater as críticas ao uso do retardante de incêndios. Os críticos eram “meia dúzia de maconheiros”. Passamos da piada pronta e estamos no aperfeiçoamento do meme perfeito. Até a geografia o ministro rejeita ou ignora. Para Salles, só 6% do Pantanal são responsabilidade do Governo Federal. O cuidado do resto do bioma é função dos governos (estaduais) da região. Os maconheiros e os bois ainda estão procurando onde fica esse percentual de terra.


 

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