
Em 2026, Esperançar!
Aí está o cerne do Esperançar. Não se iludir, não esperar de fora, não acreditar no fato dado sem a luta, sem o empenho, sem o suor necessário para fazer acontecer

Foto: Metropress
O Papa Francisco, insistentemente, trocava o substantivo Esperança pelo verbo Esperançar. Ele sabia muito bem o que estava fazendo. O que estava dizendo, onde queria chegar. Para nós, católicos, a Esperança é uma Virtude Cardeal, ou seja: é um dom, uma graça divina que gera um sentimento, um olhar para o horizonte capaz de ressignificar as pedras do caminho, dando a cada passo sentido de Eternidade. A Esperança, crescida no coração da pessoa, nasce no Coração de Deus.
A Esperança, no entanto, pode ser confundida com um certo romantismo diante da realidade, com um comodismo diante dos fatos e com um jeito displicente de levar a própria vida. Sabemos que esse não é o desejo do Autor da Esperança. Muito pelo contrário.
Consciente de toda a realidade, humana e divina, da Esperança, o Papa argentino passou a usar o termo Esperançar com uma constância peculiar. Aliás, ele conhecia e valorizava o conceito cunhado por nosso Paulo Freire em sua Pedagogia da Esperança. Francisco, portanto, alinhado ao pensamento Freiriano, cria uma Teologia da Esperança, com conotação de Esperança Ativa, em caminho, em luta, em busca. Não esperar passivamente, mas fazer acontecer. Ele afirma na mensagem para o Dia Mundial da Criação que “a esperança cristã não desilude mas, também, não se ilude.”
Aí está o cerne do Esperançar. Não se iludir, não esperar de fora, não acreditar no fato dado sem a luta, sem o empenho, sem o suor necessário para fazer acontecer.
Em 2026, portanto, esperançar. Não podemos mais terceirizar nossa esperança, acreditando que ela nos dará, por si só o que planejamos e desejamos. Sempre lembro nas homilias: Muita gente diz que vai ajudar os pobres quando ganhar na loteria. Mas não joga, sequer.
De fato, não acho que jogar na loteria seja um caminho razoável do esperançar, apenas uso a imagem para ajudar a perceber onde pode chegar a terceirização acima referida. Um deixar acontecer, um entregar às forças do tempo, um se desvincular de responsabilidades com a própria vida, o presente e o futuro. Esperançar tem a ver com desejar, planejar e realizar. Sempre pedindo forças a Deus para cada etapa, mas sabendo que Ele sempre quis precisar do contributo do ser humano para fazer a História acontecer.
Esperançar em 2026 tem a ver com desejar. O que eu desejo? Qual o meu horizonte de vida? Uma vida sem desejos fica mofada, ensimesmada e precocemente necrosada e fossilizada. Uma noite sem aurora, uma chuva sem estiagem. Uma mesmice sem fim. Desejar é próprio do ser humano e esta capacidade foi depositada em nosso coração pelo Criador. Naquele momento de silêncio reflexivo, do arrumar o guarda-roupa da existência, tão próprio do fim de ano, será importante pensar nos desejos e perceber se eles têm a ver com o Bem, com o Bom e com o Belo, com a felicidade para além do sucesso, pois ela até pode comportar a este. Mas nem sempre ter sucesso é sinônimo de felicidade.
Discernidos os justos desejos, planejar. Desejo sem planejamento é prelúdio de fracasso. Andar em círculos, se perder nos emaranhados do nada fazer e só reclamar com os inevitáveis resultados não alcançados. Um planejamento realista, exequível e que já purifique o desejo dos possíveis devaneios, ajuda a fazer caminho, a iluminar rotas e prevenir desgastes. Saber onde está e verificar o que é necessário para chegar onde se deseja é fundamental para uma existência esperançada, ativa e proativa. Aí vem a hora da decisão. O momento de fazer desejo discernido e planejado se tornar realidade. Momento exigente e determinante.
Realizar é um ato de coração e fé. Partindo da fé, um lançar-se, não no vazio que se arrisca diante da imensidão. Não! Realizar a partir da fé é um ato maduro, consciente e consequente. A Virgem Maria, quando aceitou a Vontade de Deus sobre ela para gerar o Menino Jesus, respondeu de consciente e consequente. Agiu como todos nós deveríamos agir.
A jovem de Nazaré perguntou ao anjo como tudo se daria. Diante de uma resposta firme, sabendo o que tudo aquilo acarretaria em sua vida - e não seria pouco – disse SIM. E foi Esperançar o próprio autor da Esperança.
Em 2026, podemos todos esperançar. Desejar, Planejar e Realizar com a coragem e a alegria dos santos e dos poetas. Que assim seja!
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