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A virgindade já foi uma espécie de título de nobreza doméstica

A virgindade já foi uma espécie de título de nobreza doméstica

As moças respeitáveis cultivavam a virtude com zelo quase profissional. O máximo permitido era alguma ousadia moderada — talvez um arranjo técnico conhecido como “botar nas coxas”

A virgindade já foi uma espécie de título de nobreza doméstica

Foto: Marcelo Kertész

Por: Mário Kertész no dia 20 de março de 2026 às 11:43

Durante muito tempo, especialmente entre a classe média e a burguesia brasileiras, a educação sentimental dos rapazes seguia um roteiro quase burocrático. As moças “de família” eram guardadas como porcelanas raras: intocáveis, intactas e, de preferência, entregues ao futuro marido com selo de garantia. Já os rapazes, esses coitados dominados por um “instinto selvagem”, eram discretamente encaminhados para os bordéis da cidade. Era ali que se resolvia, digamos, a parte prática da formação.

Não era exatamente um escândalo. Era quase um costume social. Uma espécie de estágio extracurricular masculino, transmitido de geração em geração com a naturalidade de quem recomenda um bom alfaiate. Os mais velhos aconselhavam, os amigos incentivavam, e os jovens iam cumprir o ritual de iniciação entre as chamadas “mulheres da vida”. Tudo muito civilizado — ao menos dentro da lógica moral da época.

Enquanto isso, as moças respeitáveis cultivavam a virtude com zelo quase profissional. O máximo permitido era alguma ousadia moderada — uma carícia mais entusiasmada, talvez um arranjo técnico conhecido como “botar nas coxas”. Ir além disso significava correr o risco de cair no purgatório social reservado às “faladas”. A virgindade, naquele tempo, era uma espécie de título de nobreza doméstica.

Esse arranjo curioso funcionou por décadas. Até que, entre o fim dos anos 1960 e o início dos 70, o mundo resolveu virar a mesa. A pílula anticoncepcional se espalhou, a chamada revolução sexual ganhou força e as namoradas começaram a participar mais ativamente da vida amorosa — inclusive na cama. De repente, o rapaz já não precisava atravessar a cidade até um bordel para resolver seus dilemas hormonais. Bastava namorar.

Foi o começo da decadência dos velhos puteiros tradicionais. Não porque o desejo humano tivesse diminuído — longe disso — mas porque as relações ficaram menos cercadas por hipocrisia social. As amadoras passaram a competir com as profissionais, e a concorrência foi devastadora.

Hoje, curiosamente, os bordéis voltaram a aparecer aqui e ali. Mas em versão empresarial, com marketing, preços estratosféricos e a elegante expressão “profissionais do sexo”. Nada a ver com as antigas casas barulhentas e cheias de histórias da velha Bahia.
 

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