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Quando a publicidade no cinema derrotou ACM

Quando a publicidade no cinema derrotou ACM

O material era malfeito e bem mais longo que o usual determinado por lei; o resultado disso é que os frequentadores das salas de cinema começaram a vaiar ACM sempre que ele aparecia na tela. 

Quando a publicidade no cinema derrotou ACM

Foto: Reprodução/Jornal Metropole

Por: Biaggio Talento no dia 12 de março de 2026 às 11:00

Quem frequenta as salas de cinema ainda é exposto a filmes publicitários antes da exibição da fita pela qual pagou ingresso para assistir. São cópias do mesmo material que costuma ser exibido nos intervalos da programação da TV aberta e em alguns streamings. Em passado recente, a exibição desses filmetes nos cinemas da Bahia virou um problema para o regime militar que, em documento secreto elaborado pelo escritório do SNI na capital baiana, o incluiu como um dos motivos que determinaram a vitória do antigo MDB - partido de oposição nos tempos da ditadura - nas eleições para prefeito em cinco importantes municípios do interior. 

Datado de 25 de maio de 1973, o documento 066/15/SNI/ASV/73 que trata da “Política no Estado da Bahia” (e vieram a lume com a abertura dos arquivos da ditadura) analisa o resultado das eleições de 1972, demonstrando preocupação com o próximo pleito, em 1974, ante o crescimento do MDB. O material culpa o então governador nomeado Antonio Carlos Magalhães pelo êxito da oposição em 72, apontando uma série de erros que ele teria cometido devido ao seu temperamento, que o levava, entre outras coisas, a hostilizar aliados, brigar com jornais e abafar algumas denúncias contra sua gestão. 

O item mais curioso dessa análise é o pacote de filmes com propaganda laudatória do governo exibido não só nas emissoras de TVs e rádios, mas nas salas de cinema. Uma publicidade “desordenada e pouco inteligente”, nas palavras dos arapongas do SNI. Nos anexos do documento estão recortes de jornais da época que retratam a insatisfação dos espectadores “irritados” com a “enxurrada de propaganda” sobre as realizações do governo estadual. O material publicitário era malfeito e bem mais longo que o usual determinado por lei, ultrapassado os cinco minutos previstos para esse tipo de publicidade antes da exibição do filme. O resultado disso é que os frequentadores das salas de cinema começaram a vaiar ACM sempre que ele aparecia na tela. 

Além das matérias críticas publicadas nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia, notas e editoriais também achincalhavam a estratégia do governo. O resultado disso, na visão do SNI, é que se criou um clima de antipatia com o mandatário, representante da ditadura na Bahia, levando as pessoas a votarem no MDB cujos candidatos venceram as eleições em Feira de Santana, Vitória da Conquista, Itabuna. Jequié e Alagoinhas cinco dos principais colégios eleitorais do interior. Se na época houvesse eleição direta para prefeito em Salvador (que era nomeado), certamente a oposição também ganharia. 

Num trecho da análise, o agente do SNI escreveu que embora a Arena (partido do governo) tenha vencido na maioria dos municípios baianos “é opinião geral que, nas eleições de 15 de novembro de 1972, na Bahia, o MDB foi o vencedor”. E prevê: “se a Arena continuar nas mãos do Governador ACM, nas eleições de 1974, o MDB, com as posições de direção administrativa e política dos principais e mais populosos municípios da BAHIA, obterá resultado mais expressivo fazendo pelo menos, a maioria dos deputados estaduais”. O MDB não fez maioria em 1974, mas a insatisfação da cúpula da ditadura com o governador por causa de suas brigas com as outras lideranças da Arena no estado (Luís Viana Filho, Jutahy Magalhães e Lomanto Júnior) levaram o presidente Ernesto Geisel a nomear, como novo governador, o professor Roberto Santos, rejeitando o nome de Clériston Andrade, apresentado por ACM aos generais. 

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