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O dia em que o verão acabou

Ficamos imóveis. Papai estava vivo e se recuperando bem. O constrangimento tomou conta da sala. Nenhum de nós sabia como reagir. O visitante ficou vermelho, pediu desculpas

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Em tempos não tão distantes, a vida guardava costumes que hoje parecem quase impossíveis. Quando nascia uma criança, os chefes iam até a casa; colegas se apresentavam; amigos atravessavam a cidade carregando um pacote, um bolo ou apenas um sorriso.
Recordo bem o dia em que meu filho Sérgio nasceu. Eu morava em Amaralina, meu professor querido, Luis Sande, e sua esposa, dona Miriam, deixaram o distante bairro da Barra para nos visitar, trazendo um presente e o carinho de quem acompanhava os primeiros passos da vida alheia.
Sande, corredor devoto da Turma da Madruga, acordava antes das cinco para correr na orla. À mesa de casa, mal acabou o café, adormeceu de cansaço; rimos, ofereci um travesseiro. Era assim: a simplicidade de uma visita, o papel social que hoje a pressa engoliu.
O ano de 1962, marcou minha família para sempre. Em 15 de janeiro, minha mãe, Violeta, partiu aos quarenta e nove anos, vítima de um aneurisma cerebral. Passávamos o verão em nossa casa de veraneio em Amaralina. Voltar à casa da avenida Princesa Isabel foi um martírio. A presença dela ainda estava em cada parede, em cada porta, em cada silêncio.
Papai, um viúvo de cinquenta e dois anos, bonito e inteligente, tentava seguir a vida. Em dezembro daquele mesmo ano ele voltava da praia e parou o carro, um Fusca, no semáforo em frente ao Hospital Português, aguardando a luz verde. Uma caminhonete Dodge, guiada por um bêbado, desceu a avenida e atravessou a esquina, batendo de frente no carro de papai.
O impacto foi devastador. O volante entrou no peito dele. Com o pulmão perfurado, o ar escapava pelo corpo como se ele fosse um boneco inflável. Levado às pressas ao hospital, ficou entre a vida e a morte. Quase nos despedimos de novo, poucos meses após perdermos mamãe.
Uma semana depois, papai ainda se recuperava no hospital quando a campainha de casa tocou. Fui abrir e dei de cara com o professor de física de Carlos e Eduardo, meus irmãos. Clóvis Gouveia entrou na sala, aceitou um café e então, com toda a compostura, anunciou: “Vim trazer meus pêsames pela morte de seu pai”.
Ficamos imóveis. Papai estava vivo. O constrangimento tomou conta da sala. Nenhum de nós sabia como reagir. Eu, o caçula, nem aluno dele era. Mesmo assim, tomei a iniciativa e esclareci: “Professor, papai está vivo. Está se recuperando”. Foi difícil dizer.
Ele ficou vermelho, pediu desculpas, tentou justificar o engano. Para suavizar o clima, inventei: “O senhor não foi o único a vir aqui nos dar os pêsames”. Era mentira, mas me serviu para salvar a situação. Abracei-o, agradecemos a gentileza, e nos despedimos. Quando fechamos a porta, rimos daquela cena surreal, entre a dor e o alívio, o importante era que papai respirava.
Hoje, aos oitenta e dois anos, ainda me lembro do rosto envergonhado do professor, da risada contida de Sande cochilando no sofá, do Fusca de papai levantando poeira naquele cruzamento. Eram tempos em que a gente se deslocava para dar uma palavra, para partilhar a alegria e a dor.
Em meio aos tropeços e enganos, havia algo precioso: a presença física, o abraço sem pressa, a solidariedade que atravessava ruas e avenidas. E é essa lembrança boa que me faz recontar essas histórias, com o coração inteiro, cada detalhe vivo, como se tudo tivesse acontecido ontem.
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