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O conde húngaro e a loja de papai

O conde húngaro e a loja de papai

Salvador não resiste a um bom rendimento e quando se deu conta, o conde já tinha saído do balcão da loja e entrado nos salões da cidade. Virou notícia, virou convite, virou assunto. Já não era curiosidade era fenômeno

O conde húngaro e a loja de papai

Foto: Reprodução Jornal Metropole

Por: Mário Kertész no dia 16 de abril de 2026 às 07:00

Olha…Salvador, em 1954, era uma cidade que ainda acreditava em muita coisa. Em promessas, em histórias bem contadas…e, veja você, até em condes.

Pois foi nesse cenário, com o calor derretendo até desconfiança, que apareceu por aqui um sujeito que parecia saído direto de um romance europeu. Alto, elegante, olhos azuis daqueles que não pedem licença, entram e se acomodam.

Chamava-se Ladislau Szécheny. Mas não era só Ladislau, não. Era conde. Da alta nobreza húngara, segundo ele.
E sabendo que meu pai, Jorge Kertész, também era húngaro desses que vieram fugindo da guerra, da perseguição, da vida virada do avesso, o tal conde foi bater justamente na porta da nossa loja.

Chegou educado, fala mansa, história pronta: perseguido pelo comunismo, dono de castelos, família tradicional. Mas, naquele momento, precisando trabalhar. Uma tragédia aristocrática, como ele mesmo parecia insinuar.

Meu pai, que tinha o coração maior que a cautela, fez o que sempre fazia: ajudou. Botou o conde para trabalhar. E o detalhe é bom: sem salário no começo. “Quero provar minha capacidade”, disse ele. Coisa de conde, claro.

E não é que provou? Trabalhava bem, vendia melhor ainda, e encantava como ninguém. Rapidinho virou atração da loja. Tinha cliente que nem comprava nada, ia só ver o conde. “Tem um conde ali atrás!”, diziam.

Mas o talento dele não era só vender rádio, não.

Ele tinha um dom mais fino: criar confiança.

Começou pequeno, ali entre conhecidos. Pedia um dinheiro emprestado numa segunda, devolvia na quinta com juros que fariam qualquer banco pedir aula. E cumpria. Sempre cumpria.

E Salvador…ah, Salvador não resiste a um bom rendimento.

Quando se deu conta, o conde já tinha saído do balcão da loja e entrado nos salões da cidade. Virou notícia, virou convite, virou assunto. Já não era curiosidade era fenômeno.

E aí vem o capítulo mais bonito…e mais triste.

Ele conhece Lia Mara. Bonita? Não. Belíssima. Bailarina, elegante, dessas presenças que marcam o ambiente.
Se apaixonaram. Sob o olhar atento do irmão dela, Brim Filho, locutor respeitado, homem de voz forte, figura importante numa Salvador que ainda girava em torno do rádio.

Noivaram. Casaram-se.

E que casamento! Na Catedral Basílica, com bênção do cardeal primaz. A sociedade inteira lá. Era o conto de fadas completo: o conde europeu e a musa baiana.

Parecia que Salvador tinha adotado um príncipe.

Parecia.

Porque poucos dias depois na lua de mel três, quatro no máximo o conde sumiu.

Evaporou.

Sumiu do mapa, do casamento e, principalmente, do dinheiro de muita gente.

Levou uma fortuna. De amigos, de conhecidos, de gente que acreditou mais ainda depois de vê-lo casar, fincar raízes, virar “um dos nossos”.

A cidade acordou em choque.

E lá iam bater na porta da loja de papai: “cadê o outro húngaro?”

Papai, firme, só repetia: nunca botei um centavo nisso, não tenho nada com isso, além do susto.
Lia Mara voltou. Recomeçou a vida com dignidade. Brim Filho resolveu o que dava: conseguiu a anulação do casamento.

E Salvador fez o que sabe fazer melhor: transformou o escândalo em história.

Porque não demorou muito, e o caso virou cordel. Na voz irreverente de Cuíca de Santo Amaro: “O Conde Húngaro e a Bronca da Rádio América.”

E pronto.

Virou memória.

No fim das contas, Salvador não perdeu um conde.

Ganhou uma história.

E daquelas boas: com romance, dinheiro, escândalo e um final que mistura indignação com uma certa risada, meio sem graça, meio resignada.

Porque aqui, meu amigo, até golpe, às vezes, vem com charme.

E, de vez em quando, até com título de nobreza.
 

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