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A audácia da ignorância

Um relato sobre como a repressão na Hungria em 1956 atravessou continentes e transformou o cotidiano de uma família na Bahia, mudando hábitos, idiomas e lembranças que sobreviveram ao exílio

Foto: Reprodução/Jornal Metropole
Em outubro de 1956 o mundo parou para ouvir Budapeste. Estudantes na rua, a estátua de Stálin derrubada a marreta, um povo inteiro achando que dava para dizer não à União Soviética. Deu certo, por doze dias.
No dia 4 de novembro os tanques russos voltaram. A Rádio Kossuth foi ao ar pedindo socorro ao Ocidente, em húngaro, em inglês, em alemão, até calar. Ninguém veio. O mundo estava ocupado com o Canal de Suez, e a Hungria virou nota de rodapé. Restaram milhares de mortos e o "não" virou escombro.
Mas na confusão daquele fim de ano a fronteira com a Áustria afrouxou. Por semanas houve gente atravessando pântano e arame farpado, no escuro, no frio, com o que cabia numa mala. Quase duzentos mil escaparam por ali. Duas dessas malas eram das minhas tias.
Meu pai, Jorge Kertész, húngaro que a Bahia adotou, não fez reunião de família nem conta de despesa. Mandou as passagens. Vieram tia Clara com o marido Luís e o filho Peter, e tia Elvira com o filho Janos. Desembarcaram em Salvador de sobretudo, com quarenta graus à sombra, com aquele ar de quem ainda ouve tanque em algum canto da cabeça. Ficaram meses em nossa casa, dividindo quartos e paciência, até meus pais montarem apartamentos para eles.
E foi então que a minha casa mudou de sotaque, e de cardápio.
Éramos judeus sefaradim do jeito que os nossos vieram: pelo Norte, pelo rio. Marroquinos que subiram a Amazônia no século XIX e desceram à Bahia. A mesa era tartaruga, açaí, farinha d'água, e os doces de vovó Raquel Aferiati Mello, uma confeitaria de Marrocos que atravessou o Atlântico inteira, sem perder uma amêndoa.
Aí chegaram os judeus asquenazes. Com eles vieram a páprica, o goulash, o strudel de maçã, uma sopa de galinha capaz de ressuscitar defunto e uma melancolia bem-humorada que nós não tínhamos. Duas cozinhas judaicas na mesma casa é assunto sério, quase diplomático. Levou tempo até se descobrir que o problema nunca foi teológico: era de tempero.
E a língua? A língua húngara até o diabo teme. Ninguém aprendeu, ninguém tentou, ninguém sobreviveria. Sobrou o inglês, que virou o idioma oficial da sala de jantar. Sotaque de Budapeste de um lado, sotaque da Bahia do outro, todo mundo se entendendo mal e se gostando bem, que é, no fim, como funcionam quase todas as famílias.
Peter e Janos aprenderam depressa a dizer palavrão baiano com sotaque de Budapeste. Eu era menino e achava aquilo o normal do mundo. Só muito depois entendi o tamanho da coisa: um império mandou tanques contra estudantes, a fronteira abriu por um descuido da história e o efeito prático, na minha casa, foi que passei a comer strudel e a falar inglês.
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