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Chegaram os húngaros


Foto: Metropress
Amanhã completam-se 65 anos da manhã em que Jânio Quadros escreveu trinta palavras num papel, assinou com uma caneta Bic de 35 cruzeiros e sumiu. O salário mínimo, na época, era de 9.400 cruzeiros. Alguém guardou a caneta.
"Nesta data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça as razões do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da República." Foi isso. Sete meses de governo e 5,6 milhões de votos, a maior votação individual que o país tinha visto até então, encerrados num bilhete que cabe num guardanapo.
Passei um bom tempo remexendo nessa história com a Duda Hamilton, para escrever 1961 — Que as armas não falem. Terminamos sem resposta, como todo mundo que se meteu nisso antes de nós. Mas com uma quantidade de detalhes que continuam me parecendo mais úteis do que as teses.
Comecemos pelo homem, que já entra na vida pública em clima de folhetim. Ainda estudante, no escritório do ex-ministro Vicente Rao, um cliente pede para ler sua mão, examina as linhas, chora e anuncia diante do jurista que aquele rapaz seria prefeito, deputado, governador de São Paulo e presidente da República, e que morreria assassinado como Lincoln, no segundo mandato, numa cidade do interior. O vidente chamava-se Sana Khan e acertou tudo, menos a morte.
Jânio nasceu em Campo Grande em janeiro de 1917, numa família que não esquentava lugar. Até os dezesseis anos morou em oito cidades e chegou a passar um semestre em cada escola. Ia mal em matemática e em português — sua melhor média era desenho —, era ruim em todos os esportes e sobrava para ele a vaga que ninguém disputava, a de goleiro. Ficou praticamente cego do olho direito quando levou um jato de lança-perfume num baile de carnaval, e mais tarde, presidente, proibiu o lança-perfume. Nunca se sabe se por causa disso.
A primeira eleição da vida foi em 1938, para o centro acadêmico do Largo de São Francisco. Enfrentava um candidato tido como imbatível. Pôs uma fita no chapéu com os dizeres "Vote em Jânio Quadros", sentou-se num barril diante das arcadas e ganhou. Tinha 21 anos e já estava tudo ali.
Daí em diante, uma escada com degraus improváveis. Suplente de vereador com 1.707 votos. O mais votado da Assembleia paulista. Prefeito de São Paulo com 285.155 votos contra menos de dezessete mil do segundo colocado, com uma vassoura na mão e o slogan "o tostão contra o milhão". Governador por dezoito mil votos de vantagem sobre Ademar de Barros. E depois deputado federal pelo PTB do Paraná, porque a lei não exigia domicílio eleitoral e ele fazia questão de humilhar os partidos sempre que dava. Não compareceu a uma única sessão da Câmara.
As excentricidades trabalhavam para ele, e ele sabia. Nos palanques tomava injeções em público, simulava desmaios, comia sanduíche de mortadela e banana diante da multidão, e saía sempre do mesmo jeito, carregado nos ombros. Cultivava o paletó amassado, a barba por fazer, a caspa no ombro. Ao mesmo tempo comprava ternos em Londres, adorava perfume e punha a gravata já com o nó feito, porque não sabia dar o nó. Falava escandindo as sílabas, num português que ninguém falava. Bebia muito, e Carlos Chagas, que cobriu a campanha de 1960 para O Globo aos 21 anos, garantia que quanto mais bebia mais brilhante ficava nos discursos, "apesar de mais vermelho também".
Presidente, proibiu rinha de galo, corrida de cavalo em dia útil e desfile de miss de maiô cavado. Em sete meses disparou 1.534 bilhetinhos sobre tudo o que lhe passava pela cabeça. Ao diretor da Rede Ferroviária: "Determino o envio, ao meu gabinete, em 48 horas, do nome da firma que levou a protesto um título da organização." Ao chefe da Casa Civil, ao saber pelo jornal que um diretor de estatal comprara carro de luxo: desfazer a compra, ainda hoje. Governava por bilhete porque não tinha estômago para o resto, para a conversa demorada com o Congresso, para a construção de maioria, para tudo aquilo que transforma vontade em lei.
Sobre o 25 de agosto já se escreveu tudo, e continua faltando alguma coisa. As teses seguem todas em pé. O blefe que deu errado, à moda de Perón, que foi o que a CIA informou a Kennedy naquele mesmo dia, num memorando entregue no meio de uma festa em Hyannis Port. A impossibilidade concreta de governar com aquele Congresso. O temperamento, que foi a palavra única com que o marechal Odylio Denys respondeu quando lhe perguntaram o motivo real da renúncia. O cerco. A ojeriza a Brasília, que o próprio Jânio mediu quando Quintanilha Ribeiro lhe perguntou quanto aquilo pesara: "Uns dez por cento, se tanto."
O que me convenceu de que não havia plano nenhum foi o que Jânio fez nas horas seguintes. Se a ideia era provocar um clamor que o devolvesse ao poder, ele desmontou o próprio palco. Os sindicatos do Rio e de Santos esperavam apenas uma ordem para deflagrar greve, e ele vetou: não queria assumir a responsabilidade de incendiar o país. O Movimento Popular Jânio Quadros, que poderia ter enchido as praças, cancelou os protestos por conta própria, sob o argumento de que não era linha auxiliar dos comunistas. Enquanto isso, a UNE decretava greve geral — pela posse do Jango.
Há ainda a confissão do Castelinho, que para mim vale mais do que qualquer análise. Carlos Castelo Branco era o secretário de Imprensa do Jânio, estava no palácio naquela manhã, e escreveu sobre o episódio entre 1963 e 1965. Guardou o texto num cofre por trinta anos e só deixou que fosse publicado depois de morto, em 1993. Lá pelo penúltimo capítulo, admite que o autor daquilo tudo também não sabe por que Jânio Quadros renunciou.
Conheci o personagem quando ele já era um sobrevivente. Cassado em abril de 1964 pelo AI-1, confinado em Corumbá por 120 dias em 1968, derrotado por Ademar em 1962 e de novo em 1982, quando ficou em terceiro, Jânio ressuscitou na eleição de 15 de novembro de 1985. Bateu Fernando Henrique Cardoso, que as pesquisas já davam como prefeito e que chegou a posar na cadeira. Eu era comentarista político do Jornal da Record, na gestão dos Machado de Carvalho, com Dante Mattiussi. Montamos uma lista de convidados certos de que Fernando Henrique Cardoso seria eleito e Jânio mostrou ser ótimo azarão mais uma vez. Tomou posse em janeiro de 1986 e mandou desinfetar a poltrona com inseticida, alegando que traseiros impróprios a haviam usado. A frase circula em dez versões diferentes, o que costuma ser sinal de que foi dita.
Eu seguia como comentarista político do jornal da Record. Numa noite de 1986, comentei no ar que o decurso de prazo era arma de político malandro.
Quem não viveu aquilo talvez precise da explicação. O decurso de prazo permitia que um projeto mandado pelo Executivo com pedido de urgência fosse considerado aprovado caso o Legislativo não o votasse dentro de um prazo determinado. Não era preciso convencer ninguém, nem montar maioria, nem sequer ganhar a votação. Bastava empurrar com a barriga até o relógio bater, e o silêncio da Câmara virava lei. Era exatamente o que o prefeito de São Paulo tinha começado a fazer para aprovar o que lhe interessava.
Não citei o nome dele.
No dia seguinte, Murilo Antunes Alves veio me procurar. Murilo era o decano do rádio brasileiro, estava na Record desde 1947, e era homem do Jânio desde 1961, quando fora nomeado oficial de gabinete da Presidência. Chegou com a notícia de que o prefeito mandara me processar, mas que ele, Murilo, estava tentando contornar. Sugeriu que eu me retratasse.
Recusei, com o argumento mais simples que havia: o processo não daria em nada, porque eu não mencionara o nome de ninguém. Se o prefeito se reconhecia na descrição, o problema não era meu.
Murilo voltou pouco depois com uma proposta mais janista: um café da paz. Aceitei, fomos, e foi na conversa que fiz o convite. Que ele fosse à Record na noite da eleição de 15 de novembro de 1986, aquela que elegeu os governadores, os senadores e a Constituinte.
Jânio me disse que via o nosso jornal antes de ir para a cama. E aceitou. Apareceu mesmo, ao vivo, num estúdio de televisão, coisa raríssima para um homem que passou a vida controlando o próprio enquadramento. Chegou de mãos dadas com dona Eloá.
Guardo essa imagem com um carinho que ainda hoje me espanta um pouco. O sujeito dos bilhetinhos, dos decretos e do decurso de prazo entrando num estúdio de mãos dadas com a mulher que conhecera quando ela tinha quinze anos e com quem se casou em 1939, recém-formado, quando era um advogado sem dinheiro que evitava as rodinhas de café da faculdade para não ter de pagar a conta. Jânio era mesmo impagável.
A prefeitura foi o último ato, e um ato áspero. Anunciou a demissão de doze mil funcionários. Mandou destruir material didático que considerou propaganda comunista. Demitiu quatrocentos grevistas em abril de 1987. Em outubro daquele ano, cercou de policiais a Escola Municipal de Bailado para impedir a entrada de homossexuais, uma página que nenhuma saudade apaga. Também asfaltou uns setecentos quilômetros de ruas, restaurou o Theatro Municipal e as bibliotecas, abriu o Anhangabaú e deixou a conta. Entregou o cargo a Luiza Erundina em dezembro de 1988. Dona Eloá morreu em novembro de 1990, e ele em fevereiro de 1992.
O janismo morreu junto. Não sobrou partido, não sobrou herdeiro, não sobrou sequer uma escola de discípulos, e isso sempre me pareceu a parte mais curiosa do fenômeno. Ele construiu a carreira inteira por fora das legendas, como Thomas Skidmore observou, e um movimento organizado em torno da recusa de se organizar não tem como sobreviver ao sujeito que lhe dá nome. A vassoura era um objeto de cena, e quando o ator saiu de cartaz a peça acabou.
O que não acabou foi o público. O eleitor que em 1960 preferiu o amador honesto aos profissionais da política, que gostou de ouvir promessas de cadeia para os ladrões e chicote para os maus funcionários, que aceitou a ideia de que o temperamento de um homem pode substituir o trabalho lento de convencer o Congresso — esse continuou aí. Ficou algum tempo sem candidato, e depois arrumou outros. Em geral, sem vassoura e com muito menos charme. Esses continuam a aparecer.
Paulo Markun é jornalista e coautor, com Duda Hamilton, de 1961 — Que as armas não falem.
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