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A Ketubá que virou uma carta

Houve um tempo em que, para ser culto no Brasil, era preciso fazer escala em Paris. Não precisava embarcar: bastava o sotaque. A elite dizia soirée, toilette, chic, réveillon

Foto: Reprodução/Jornal Metropole
Julho é o mês em que os franceses tomaram a Bastilha, cortaram a cabeça do rei e anunciaram ao mundo que ninguém nasce mais que ninguém. Deu no que deu: prometeram liberdade, igualdade e fraternidade, e entregaram, no caminho, a guilhotina e um imperador baixinho. Mas a frase escapou e correu o mundo. E, junto com ela, correu tudo o mais que a França fabricava, que era muita coisa.
Tanto que houve um tempo em que, para ser culto no Brasil, era preciso fazer escala em Paris. Não precisava embarcar: bastava o sotaque. A elite dizia soirée, toilette, chic, réveillon.
No ginásio, aprendi francês antes de inglês. Hoje soa exótico; anates, era o normal. Conjugava être e avoir com a devoção de quem decora reza. Ninguém explicava o motivo. Simplesmente era assim: francês era a língua da inteligência; inglês era a língua do comércio, e comércio, coitado, tinha menos prestígio.
Não era frescura de colégio. Nossos avós liam Victor Hugo, Balzac e Zola. Nossos juristas copiavam o Código Napoleônico com esmero de escriba. Até a bandeira nacional é francesa por dentro: "Ordem e Progresso" saiu do positivismo de Auguste Comte, um senhor que jamais pisou no Brasil e acabou virando estampa de mastro.
No cinema, Jean Gabin, fumando com aquele desprezo elegante pelo mundo. No rádio, Charles Trenet, Maurice Chevalier e a voz rachada de Piaf, que a gente cantava sem entender e achava linda justamente por isso. Na conversa, Descartes, Sartre, Simone de Beauvoir eram quase sempre citados de segunda mão. O que nunca impediu ninguém de citá-los com firmeza.
Aí veio a guerra. Paris ocupada, a França de joelhos, e o Brasil, prático como sempre, trocou de idioma sem pedir licença. Chegaram os americanos com jipe, chiclete, Hollywood e dólar. O francês virou matéria optativa, depois curiosidade, depois lembrança. Ninguém protestou. Nunca fomos sentimentais em matéria de moda.
Eu, teimoso, ainda fui estudar em Paris. Era meu sonho, e sonho a gente cumpre mesmo fora de prazo. Não voltei mais chique. Voltei convencido de que os franceses são geniais e insuportáveis na mesma proporção, descoberta que só se faz no local.
Não sinto falta daquele Brasil afrancesado. Era pretensioso, era importado, era postiço em boa medida. Mas deixou vestígios. Toda vez que alguém diz déjà-vu, abajur ou chique sem desconfiar do que está falando, ali está o velho fantasma, ainda circulando.
A língua saiu de moda. O vício ficou.
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