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O homem sem roteiro

Não acompanho campeonatos com fanatismo. Continuo gostando de livros, de música, de teatro e de boas conversas. Mas quando chega uma Copa, alguma coisa diferente acontece.

Foto: Reprodução/Jornal Metropole
Na casa dos meus pais, futebol nunca fez parte do cardápio cultural. Nossa praia era outra. Livros espalhados pelas mesas, teatro, concertos memoráveis de música clássica, audições em casa. Papai tocava violino. Meu tio Solon, irmão de minha mãe, era compositor e arrancava maravilhas do violão e do bandolim.
Dos filhos, o talento musical ficou concentrado em Carlos. É um fenômeno. Toca violino, bandolim, regia coros e ainda sobrava talento para outras artes. Eduardo e eu formávamos a ala da resistência à música. Ou, para ser mais exato, a ala dos desafinados.
Meus pais, otimistas como todo pai e mãe, resolveram investir em nós. Compraram um magnífico acordeão Scandalli Magestrini, daqueles que brilhavam mais que carro novo. Fomos matriculados na Academia Mário Mascarenhas.
Depois de algumas aulas, nosso professor, o inesquecível Colmenero, chamou meus pais para uma conversa.
Foi direto ao ponto: Não quero ganhar o dinheiro dos senhores. Esses meninos não têm nenhuma vocação. Nem ouvido para música.
Foi uma das avaliações mais sinceras da história da pedagogia brasileira.
Mas comecei falando de futebol e acabei em acordeonistas fracassados. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tem tudo.
Em 1954 eu tinha 10 anos. Há 72 anos. Foi quando comecei a acompanhar uma Copa do Mundo. A Copa da Suíça. Tudo pelo rádio, naturalmente. Televisão era artigo raro e distante.
O motivo do meu interesse não era exatamente patriótico. Era familiar.
A Hungria, terra de meu pai, tinha uma seleção extraordinária. O grande nome era Ferenc Puskás, que mais tarde se tornaria uma lenda do futebol mundial. Eu nem entendia direito as táticas, mas sabia que havia um time mágico vestindo as cores da terra onde meu pai nascera.
Lembro da emoção das transmissões e também da tristeza quando a Hungria eliminou o Brasil.
Papai vivia um dilema curioso. Amava sua pátria de nascimento, mas tinha horror ao regime que a dominava. Fugira do antissemitismo e da ameaça nazista. Depois viu sua Hungria cair sob a influência soviética. O comunismo e o nazismo, para ele, eram duas faces diferentes da mesma tragédia.
Mesmo assim, quando a bola rolava, algo daquela antiga ligação com Budapeste reaparecia.
Talvez tenha sido ali que a Copa do Mundo entrou na minha vida pela porta dos fundos.
Veio a Copa de 1958, na Suécia. E aí aconteceu o milagre. Um garoto chamado Pelé apareceu para mudar a história do futebol. O Brasil foi campeão. Eu me lembro da alegria quase infantil do país inteiro. Depois veio o bicampeonato de 1962, no Chile.
E desde então, Copa do Mundo virou assunto sério para mim.
Não acompanho campeonatos com fanatismo. Continuo gostando de livros, de música, de teatro e de boas conversas. Mas quando chega uma Copa, alguma coisa diferente acontece.
O Brasil, tão dividido em tantas coisas, encontra um raro momento de encontro. O médico e o pedreiro, o empresário e o desempregado, o professor e o motorista de táxi, todos passam a falar da mesma escalação, do mesmo gol perdido, do mesmo sonho.
Durante algumas semanas, o país parece lembrar que é um só.
Talvez seja por isso que ainda me emociono quando vejo a Seleção entrar em campo.
Não é apenas futebol.
É a lembrança de um menino de 10 anos ouvindo rádio, de um pai húngaro dividido entre a saudade e a decepção, de um acordeão caríssimo que jamais produziu um músico e de um Brasil que, de vez em quando, consegue vestir a mesma camisa.
E convenhamos: para quem foi oficialmente declarado sem ouvido musical pelo professor Colmenero, até que aprender a escutar a Copa já foi uma bela vitória.
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