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A audácia da ignorância

A audácia da ignorância

O conhecimento continua sendo um bem precioso. Mas descobri que, em certos momentos da vida, um excesso de lucidez paralisa, enquanto uma boa dose de desconhecimento empurra a gente para frente

A audácia da ignorância

Foto: Reprodução/Jornal Metropole

Por: Mário Kertész no dia 23 de julho de 2026 às 07:00

Ao longo da vida, aprendi que existe uma qualidade pouco valorizada, mas que pode mudar um destino: a audácia da ignorância. Explico.

Quando a gente conhece perfeitamente os perigos de uma situação, costuma medir cada passo. Faz contas, consulta especialistas, imagina tudo que pode dar errado. Muitas vezes desiste antes mesmo de começar.

Já quem desconhece o tamanho do desafio avança. Não por coragem extraordinária, mas porque simplesmente não sabe o tamanho da encrenca em que está entrando.

Claro que isso pode acabar muito mal. Mas, curiosamente, às vezes funciona.

Na minha vida, abusei dessa ignorância. Em 1966 eu ainda cursava o último ano da Escola de Administração da Ufba. Nem diploma tinha. Foi quando meu professor de Finanças, Luís Sande, nomeado pelo governador Lomanto Júnior para dirigir o Departamento de Indústria e Comércio, convidou-me para ser diretor da Divisão de Consultoria de Empresas. Minha reação foi simples: “Eu?” Como alguém que nem havia terminado a universidade poderia dirigir uma divisão daquele tamanho?

Hoje, talvez, eu faria uma lista de dúvidas. Na época, aceitei.Não fazia ideia do que me esperava.

Poucos meses depois, já formado, continuei seguindo Luís Sande, agora secretário da Fazenda da Prefeitura de Salvador, administrada por Antonio Carlos Magalhães. Fui ser seu chefe de gabinete.

Entrei naquele universo sem falar o idioma da administração pública. Ouvia expressões como “baixar em diligência” e imaginava as diligências dos filmes de faroeste. Quando alguém dizia “fazer o processo”, eu pensava em Kafka, e não em burocracia. 

Mesmo assim, fui aprendendo enquanto fazia. Passei a coordenar a reforma administrativa da Prefeitura, participei da modernização do Corpo de Bombeiros, que então era municipal, preparava relatórios para o prefeito e me metia em assuntos dos quais, poucos meses antes, eu sequer conhecia o nome.

A ignorância continuava sendo minha principal companheira. E, curiosamente, também minha maior fonte de ousadia.

Quando ACM deixou a Prefeitura para assumir o Governo da Bahia, fui nomeado presidente da CPE, a fundação responsável pelo planejamento e pelo orçamento do Estado. Tinha apenas 25 anos.

Passei a trabalhar cercado de economistas, administradores e técnicos muito mais preparados do que eu. Em vez de me intimidar, aprendi com eles.

No ano seguinte, sem que isso passasse pela minha cabeça, tornei-me secretário de Planejamento, Ciência e Tecnologia. Tinha 26 anos e comandava uma das mais importantes secretarias do governo. Hoje olho para trás e quase não acredito. Penso: como tive coragem?

A resposta pode ser desconfortável. Eu não tinha coragem. Eu tinha ignorância.

Ignorava o tamanho dos desafios, os riscos de fracassar, o peso das responsabilidades. E justamente por ignorá-los, avançava.

Se conhecesse todos os perigos, talvez tivesse recusado o primeiro convite. E, recusando o primeiro, todos os outros jamais teriam existido.

Não pretendo transformar a ignorância em virtude. O conhecimento continua sendo um bem precioso. Mas descobri que, em certos momentos da vida, um excesso de lucidez paralisa, enquanto uma boa dose de desconhecimento empurra a gente para frente.

Olhando para minha história, às vezes me pergunto se fui corajoso ou irresponsável. Provavelmente um pouco dos dois.

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