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A Ketubá que virou uma carta

A Ketubá que virou uma carta

Poucos documentos conseguem contar, ao mesmo tempo, a história de um casamento, da imigração dos judeus sefarditas para a Amazônia, do ciclo da borracha e do nascimento de uma família como a quem minha avó Rachel guardou por toda a vida

A Ketubá que virou uma carta

Foto: Reprodução Jornal Metropole

Por: Mário Kertész no dia 09 de julho de 2026 às 07:00

Há histórias de família que sobrevivem em fotografias. Outras, em joias ou certidões. A da minha avó Rachel Aferiati sobreviveu numa carta.

Rachel Aferiati, depois Mellul e, mais tarde, Mello, era filha de Yehuda Aferiati, judeu sefardita oriundo de Mogador, no Marrocos. Casou-se em janeiro de 1890 com meu avô Salomão Mellul, que anos mais tarde abrasileiraria o sobrenome para Mello. Ela ainda não havia completado 13 anos. 

Entre os judeus, o documento que consagra o casamento é a Ketubá, o contrato matrimonial religioso que estabelece os direitos e deveres do casal. É um documento sagrado para a família. Por razões que nunca soube, minha avó perdeu a sua Ketubá. Mas encontrou uma forma singular de substituí-la.

Guardou até morrer uma carta escrita por meu avô ao pai dele, Shalom Mellul, em Tânger, comunicando o casamento. Sempre que mostrava aquele papel amarelado dizia, sorrindo: "Esta é a Ketubá dele".

A carta, datada de 26 de janeiro de 1890, foi escrita em São Sebastião da Boa Vista, na Ilha de Marajó, apenas treze dias depois da cerimônia. É, ao mesmo tempo, um documento histórico da imigração judaico-sefardita para a Amazônia e uma delicada declaração de amor.

No final do século XIX, milhares de judeus sefarditas deixaram cidades marroquinas, especialmente Mogador e Tânger, atraídos pelo extraordinário desenvolvimento econômico provocado pelo ciclo da borracha. Muitos instalaram-se no Pará e no Amazonas, abrindo casas comerciais, navegando pelos rios da região e construindo uma vida nova numa terra completamente diferente daquela que haviam deixado. Meu avô foi um deles.

Chegou muito jovem ao Brasil. O comércio prosperou, e ele se transformou num importante produtor de borracha, chegando a possuir uma grande propriedade no município de Boca do Acre. Foi ali que, alguns anos mais tarde, nasceu minha mãe, Violeta.

A carta, porém, volta ainda ao começo dessa história. Nela, Salomão comunica ao pai que havia se casado com Rachel Aferiati e pede compreensão por não ter solicitado previamente sua autorização. Explica que tudo aconteceu de maneira absolutamente inesperada.

Ele viajara ao Pará apenas para resolver negócios. Não tinha noiva, nem namoro, nem qualquer projeto de casamento. Conta, inclusive, que brincava com os amigos dizendo que iria casar em janeiro, embora não tivesse a menor intenção de fazê-lo. Depois conclui que tudo “já estava destinado do Céu”.

Chegou ao Pará no dia 7 de janeiro. Resolveu seus assuntos comerciais e, de maneira imprevista, pediu a mão da jovem Rachel. Ela aceitou. Em apenas seis dias providenciou o enxoval, organizou a cerimônia e, às três e meia da tarde do dia 13 de janeiro de 1890, estavam casados. Três dias depois, já regressava para casa.

A rapidez impressiona ainda hoje. Mais impressionante, entretanto, é a delicadeza com que descreve a esposa.

Escreve que bendizia a Deus pela viagem que o levara ao Pará, porque ela lhe permitira unir seu destino “ao anjo que muito adoro”. Diz que Rachel possuía “um coração bondoso, cheio de ternura”, capaz de aliviar a solidão de quem vivia distante da família e da terra onde nascera.

É uma carta simples, sem pretensões literárias, mas de uma sinceridade comovente.

Ela registra também pequenos conflitos familiares. Salomão lamenta que alguns parentes de sua madrasta não tenham comparecido ao casamento, apesar de convidados. Um deles, Pinjas, alegou possuir “razões muito poderosas”. Meu avô confessa não compreender essas razões e atribui a ausência ao egoísmo.

Mudam-se os séculos; as famílias continuam extraordinariamente parecidas. A vida também não perdeu tempo. Ainda naquele mesmo ano de 1890, em dezembro, nasceu o primeiro filho do casal, Solon Mello. Meu tio querido, compositor, violonista admirável e exímio tocador de bandolim, foi o irmão mais velho de minha mãe, Violeta. Os dois conservaram por toda a vida uma ligação de enorme carinho, cumplicidade e admiração.

Anos depois, a prosperidade da borracha desapareceu. Como tantas outras famílias que haviam apostado naquele ciclo econômico, meus avós precisaram recomeçar. Vieram ao Maranhão, depois o Ceará, Juazeiro, na Bahia, e finalmente Salvador, onde meu avô morreu e onde nossa família criou raízes definitivas.

Ao longo dessas mudanças, perderam-se muitas coisas. Casas ficaram para trás. Negócios desapareceram. Documentos sumiram. A própria Ketubá se perdeu. Mas aquela carta atravessou tudo.

Acompanhou viagens de navio, mudanças de cidade, dificuldades econômicas e o nascimento de novas gerações. Sobreviveu por mais de um século porque minha avó jamais a tratou como um simples pedaço de papel. Era a memória viva do dia em que começou sua família. Enquanto os cartórios registram fatos, aquela carta registrava um sentimento.

Por isso, sempre que alguém perguntava pela Ketubá, Rachel Aferiati respondia sem a menor dúvida: "Eu perdi a minha. Mas guardei a dele".

E talvez tivesse razão. Afinal, poucos documentos conseguem contar, ao mesmo tempo, a história de um casamento, da imigração dos judeus sefarditas para a Amazônia, do ciclo da borracha e do nascimento de uma família que, tantas décadas depois, continua encontrando sua identidade nas palavras escritas por um jovem apaixonado ao pai distante, do outro lado do Atlântico.

PS: o original dessa carta está nas mãos do meu irmão Carlos, devidamente recuperado.

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