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A câmara escura e a luz da curiosidade

A câmara escura e a luz da curiosidade

Escuto muita gente dizer que tecnologia é coisa de jovem. Nunca concordei. Tecnologia não tem idade. Tem curiosidade. Quem perde a curiosidade envelhece muito antes do corpo

A câmara escura e a luz da curiosidade

Foto: Reprodução Jornal Metropole

Por: Mário Kertész no dia 02 de julho de 2026 às 07:00

O fascínio pela mídia e pelas novas tecnologias sempre esteve presente na minha vida. Não nasceu quando entrei no rádio e nem quando chegaram os computadores. Nasceu dentro de casa, graças à curiosidade permanente de meu pai e à presença luminosa de minha mãe. E, curiosamente, essa mesma paixão continua viva nos meus filhos.
Lá em casa, todo mundo era fotógrafo.

Meus irmãos, Carlos e Eduardo, eram excelentes. Eu era apenas um colaborador esforçado. Tínhamos até um laboratório fotográfico montado dentro de casa, coisa rara para uma família na Salvador dos anos 1950.

Em 1956, meus pais fizeram uma longa viagem à Europa. Foi a primeira vez que papai voltou ao continente desde que deixara a Hungria para recomeçar a vida no Brasil. A Segunda Guerra havia terminado apenas onze anos antes, e eles encontraram um continente ainda cheio de cicatrizes.

Foram de navio. Mamãe morria de medo de avião. Voava quando era preciso, mas não gostava nem um pouco. Naquele tempo, grandes transatlânticos franceses, ingleses e americanos saíam do porto de Salvador, faziam escala em Dakar e seguiam para a Europa. A própria viagem já era uma aventura.

Quando voltaram, trouxeram muito mais do que lembranças. Na bagagem vieram máquinas fotográficas modernas e equipamentos que nos permitiram montar um verdadeiro laboratório profissional.

Pegamos um quarto da casa e o transformamos numa câmara escura. “Vamos para a câmara”, alguém dizia.
A porta se fechava, acendia-se a pequena luz vermelha e começava o ritual. Revelador, interruptor, fixador, lavagem, secagem. Era quase uma cerimônia. E havia algo de mágico em ver uma fotografia surgir lentamente numa folha branca mergulhada no líquido revelador.

Virávamos noites inteiras trabalhando.

Nunca esqueço quando Carlos e Eduardo venderam três mil cartões-postais de Salvador para as Lojas Brasileiras, dirigidas por um grande amigo de papai, Pedro Krutman.

Três mil.

Hoje bastaria apertar um botão. Naquela época, cada fotografia era feita individualmente. Abríamos o ampliador, dávamos o tempo exato de exposição, mergulhávamos o papel no revelador, depois no interruptor, em seguida no fixador e, por fim, na esmaltadora.

Um por um.

Era um trabalho gigantesco. No final da madrugada, estávamos exaustos. Mas felizes.

Papai, Carlos e Eduardo tinham um talento extraordinário para a fotografia. Eu nunca tive. Fotografava direitinho, sem grandes inspirações. Meu negócio acabou sendo outro.

Carlos tornou-se o grande guardião da memória da família. Sempre cuidou com carinho de fotografias, filmes e documentos. Hoje essa missão passou para meu filho Marcelo, que preserva nosso acervo com o mesmo zelo.

Eduardo seguiu outro caminho. Tornou-se fazendeiro, viajou o mundo em busca de novas tecnologias para o campo e, por onde passava, produzia fotografias belíssimas.

Percebo agora que, mais importante do que a fotografia, era o espírito que existia dentro de casa.

Papai era fascinado por novidades.

Se aparecia um rádio transistor, ele queria conhecer. Gravador portátil? Comprava. Máquina de lavar roupa? Era uma revolução. Ar-condicionado? Precisava experimentar. Não importava qual fosse a invenção. A curiosidade vinha antes da necessidade.

Esse vírus da curiosidade ele transmitiu para nós.

E eu, felizmente, consegui transmiti-lo aos meus filhos.

Hoje eles vivem mergulhados nas novas mídias, nos equipamentos digitais, na inteligência artificial e em tudo aquilo que amplia a capacidade humana de criar e comunicar.

Quanto a mim, apenas troquei as ferramentas.

A câmara escura virou estúdio de rádio. O negativo transformou-se em arquivo digital. A Leica deu lugar ao smartphone.

Os cartões-postais deram espaço aos vídeos, podcasts e redes sociais. Mas a curiosidade continua exatamente a mesma. Escuto muita gente dizer que tecnologia é coisa de jovem.  Nunca concordei. Tecnologia não tem idade. Tem curiosidade.

Quem perde a curiosidade envelhece muito antes do corpo.

Talvez seja por isso que, até hoje, quando aparece uma novidade, sinto uma irresistível vontade de apertar todos os botões.

No fundo, continuo sendo aquele menino que entrava numa pequena câmara escura, iluminada apenas por uma luz vermelha, acreditando que ver uma fotografia nascer lentamente diante dos olhos era uma espécie de milagre.

E, sinceramente, continuo achando que era.
 

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