Quinta-feira, 11 de junho de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Artigos

/

O Vatapá

O Vatapá

Dentro da vasilha, deixamos apenas um bilhete. Simples, educado, sincero, como toda boa confissão deveria ser: "Obrigado. O vatapá estava excelente."

O Vatapá

Foto: Reprodução Jornal Metropole

Por: Mário Kertész no dia 11 de junho de 2026 às 10:35

Os mais jovens dificilmente acreditarão, mas houve um tempo em Salvador em que conseguir falar ao telefone era quase um milagre. Não era questão de sinal ruim, bateria descarregada ou operadora ineficiente Era muito pior: o telefone simplesmente não funcionava. Ponto.

Até o início dos anos 1960, serviços essenciais como energia elétrica, bondes e telefonia eram operados por companhias estrangeiras — principalmente canadenses e americanas — que aparentemente tinham combinado entre si de não funcionar direito. 

Enquanto isso, Salvador crescia em ritmo acelerado, com levas de migrantes vindos do interior atraídos pela Petrobras, que oferecia empregos estáveis e salários que pareciam fortuna para os padrões da época. A infraestrutura não acompanhava. O telefone muito menos.

Quando a telefonia finalmente melhorou, foi uma revolução silenciosa. As linhas multiplicaram-se, os aparelhos passaram a funcionar com regularidade e o simples ato de discar deixou de ser uma aventura espiritual. 

Na casa dos meus pais chegamos ao luxo de possuir duas linhas, uma no andar superior, de uso geral da família, e outra no andar de baixo, território exclusivo dos filhos. 

Meus irmãos Carlos e Eduardo estudavam engenharia. Eu, administração. A casa vivia cheia de colegas, livros, apostilas, cálculos de dar medo e uma disposição apenas moderada para enfrentá-los.

Numa tarde de sábado, cinco rapazes estavam reunidos em torno de livros e cadernos quando o telefone tocou.

— Beatriz está?

Nenhum de nós conhecia qualquer Beatriz. Informamos o engano e voltamos aos estudos.

Poucos minutos depois, novo toque.

— Beatriz está?

Mais uma vez explicamos, com a paciência já levemente arranhada, que era número errado.

Na terceira ligação, já beirando a irritação filosófica, ouvimos:

— É a casa de Beatriz?

E foi aí que algo em mim, talvez a fome, talvez o tédio, talvez algum ancestral oportunista acordando lá no fundo do DNA, decidiu que era hora de encerrar aquela novela.

— É sim.

Do outro lado chegou então uma informação que mudaria completamente o rumo daquela tarde acadêmica.

— Avise a ela que o vatapá está pronto e pode mandar buscar.

Confesso, sem nenhuma cerimônia, que a educação recebeu naquele momento uma derrota humilhante da gastronomia.

— Claro — respondi, já em modo operacional. — Pode me dar o endereço?

Anotei com a seriedade de quem assina um contrato: Rua General Labatut, 47, nos Barris. Expliquei que mandaria um portador em breve. Descrevi fisicamente um dos meus colegas, o mais apresentável disponível, e pedi gentileza de deixar tudo pronto na porta para agilizar a retirada.

Funcionou com uma perfeição perturbadora.

Pouco depois, lá vinha o emissário carregando uma bela vasilha de cerâmica, repleta de um vatapá que exalava um perfume capaz de derrubar qualquer resistência moral remanescente. Abandonamos os estudos sem o menor constrangimento. Afinal, integrais, derivadas e balanços patrimoniais podem esperar. Um vatapá legítimo de Salvador, não.

Comemos magnificamente.

Horas depois, já saciados e razoavelmente satisfeitos com nós mesmos, o telefone voltou a tocar.

— É a casa de Beatriz?

Dessa vez respondi com uma firmeza quase indignada:

— Não, senhora. A senhora está ligando errado.

E desliguei, com a cara de pau que só a juventude bem alimentada consegue sustentar.

Mas já de madrugada a consciência, essa intrometida, resolveu participar da conversa. Organizamos então uma operação quase clandestina: entramos no carro, atravessamos a noite em direção aos Barris e devolvemos a famosa vasilha na porta da residência. 

Dentro dela, deixamos apenas um bilhete. Simples, educado, sincero, como toda boa confissão deveria ser:
"Obrigado. O vatapá estava excelente."

Tocamos a campainha e desaparecemos na escuridão.

Ninguém nos viu. Ou pelo menos é o que acreditamos até hoje, e preferimos manter essa versão.

Passadas tantas décadas, continuo sem saber quem era Beatriz. Mas nunca esqueci o vatapá. Nem a lição que ele ensinou: às vezes, o universo disca o número errado de propósito.

Artigos Relacionados