Quinta-feira, 18 de junho de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Artigos

/

O homem sem roteiro

O homem sem roteiro

Hoje, olho para trás e vejo uma sucessão de acasos, riscos, derrotas, recomeços, encontros e desencontros. Nada foi planejado.

O homem sem roteiro

Foto: Reprodução Jornal Metropole

Por: Mário Kertész no dia 17 de junho de 2026 às 19:15

Tenho uma dificuldade enorme de responder quando me perguntam como escolhi os caminhos de minha vida. A pergunta costuma vir acompanhada de outra: Como você planejou tudo isso? A resposta é simples: Não planejei.

Nunca consegui fazer aqueles planos de vida que algumas pessoas elaboram ainda jovens. Aos 20 anos, comprar uma casa própria. Aos 30, ficar rico. Aos 40, ter uma casa na praia. Aos 50, viver de renda. Aos 60, exibir a riqueza e discutir o mercado financeiro.

Nada disso me interessou.

Aliás, pensando bem, eu sempre fui um fracasso como planejador profissional. 

Adoro praia. Adoro verão. Adoro mar. Passei a vida inteira frequentando praias. Nunca comprei uma casa em nenhuma delas.

Nunca tive paixão por ações na bolsa. Nunca pensei em ter um patrimônio que garantisse minha velhice. Nunca acordei querendo construir um império empresarial. 

Apostei em ter cinco filhos, uma família grande, unida solidária. Ai sim, foi o único e melhor plano da minha vida.
Minha vida foi acontecendo.

Quando era jovem, eu e meu irmão Eduardo íamos a São Paulo comprar carros. Voltávamos dirigindo para Salvador, cada um no seu. Vendíamos aqui e seguíamos em frente.

Depois tive uma loja de roupas femininas. Viajava para comprar mercadorias em São Paulo e revendê-las na Bahia. Era comerciante, embora nunca tenha tido alma de comerciante.

Meu pai, homem próspero e trabalhador, imaginava que eu assumiria seus negócios. Seria o caminho lógico. Mas a lógica e eu nunca fomos grandes amigos.

Perdi o vestibular para Direito porque não estudei o suficiente. Entrei em Administração. 

Antes de me formar, aceitei um cargo no quarto escalão do governo do estado. Logo depois, acompanhando meu professor Luiz Sande, fui ser subsecretário de Finanças da prefeitura de Salvador aos 22 anos.

Foi lá que conheci ACM.

E foi lá que minha vida resolveu abandonar definitivamente qualquer possibilidade de normalidade.

Vieram os cargos públicos. Vieram as disputas. Vieram as vitórias e as derrotas.

Fui prefeito de Salvador duas vezes. Perdi eleições que achava que ganharia. Ganhei batalhas que pareciam impossíveis. Fiz amigos extraordinários. Colecionei adversários poderosos.

Alguns tão poderosos que, em certos momentos, pareciam donos do destino da Bahia. Sobrevivi a todos.

Muitas vezes ouvi que minha carreira tinha acabado. Curiosamente, quase sempre quem dizia isso desapareceu antes de mim.

Quando a política parecia encerrar minha história, apareceu o rádio.

Mais uma vez sem planejamento. Mais uma vez sem roteiro. E já se passaram 32 anos.

A Rádio Metrópole não nasceu de um plano de negócios elaborado por consultores engravatados. Nasceu da vontade de criar um espaço livre para o debate, para a informação, para a crítica e para a diversidade de opiniões.

Ao longo dessas décadas conquistei algo muito mais valioso do que patrimônio material: amigos. Milhares deles.
Ouvintes que me acompanham há décadas. Pessoas que discordam de mim, brigam comigo, reclamam de mim, mas continuam por perto.

Juntos construímos uma trincheira diária contra a ignorância, contra o preconceito e contra o autoritarismo. Não raro enfrentamos setores de uma elite e até de uma subelite que ainda carregam uma visão escravocrata da sociedade. 

Gente que não suporta ver negros ocupando espaços de poder, pobres exercendo cidadania ou a diversidade se expressando livremente.

A Bahia mudou muito. Mas ainda há quem tenha saudades da senzala.

E é justamente por isso que o rádio continua sendo necessário.

Hoje, olho para trás e vejo uma sucessão de acasos, riscos, derrotas, recomeços, encontros e desencontros. Nada foi planejado. 

E já fui secretário de Planejamento da Bahia.

Não construí um roteiro. Construí apenas o hábito de seguir em frente.

Nunca tive um mapa. Mas, por alguma razão que não sei explicar, quase sempre encontrei um caminho, aceitando a gangorra que sobe e desce, nos dando bons e maus momentos.

Artigos Relacionados