
Luz, câmera e memória
Minha educação sentimental teve professores improváveis: atores italianos, diretores franceses, dramaturgos ingleses e personagens que jamais imaginaram que estavam formando um adolescente baiano

Foto: Reprodução Jornal Metropole
O cinema entrou na minha vida antes mesmo de eu entender o que era cinema. Entrou antes da política, antes do rádio, antes do jornalismo. Entrou pela porta de casa, pelas mãos dos meus pais. E talvez eu possa dizer, olhando hoje aos 82 anos, que parte importante da minha cultura e da minha visão do mundo nasceu naquela mistura de filmes, música, livros, conversas e curiosidade que existia dentro da nossa família.
Meu pai, Jorge Kertész, era um homem fascinado por tecnologia. Um visionário doméstico numa Salvador que ainda vivia em outro ritmo. Ainda nos anos 40 do século passado, ele fazia filmes da família. Não eram fotografias apenas, eram filmes. Imagens em movimento de aniversários, encontros, viagens, cenas simples que hoje valem mais que ouro.
Até hoje existem aquelas imagens tremidas, silenciosas, cheias de gente sorrindo para uma câmera como quem acenava para um futuro que não imaginava existir.
Ele também fotografava em cores numa época em que isso era quase uma extravagância tecnológica. Os filmes eram enviados para revelação no Panamá e demoravam quatro meses para voltar.
Quatro meses!
Hoje uma foto nasce e morre em quinze segundos no celular. Naquele tempo esperávamos um terço do ano para descobrir se alguém tinha saído com os olhos fechados.
Em casa aconteciam sessões de cinema familiares. Meu pai organizava tudo: projetor, tela improvisada, filmes, amigos. Reunia-se a família, apareciam vizinhos, conversava-se antes e depois. Era quase um pequeno cineclube doméstico, décadas antes de inventarem esse nome.
Ali aprendi uma coisa que só percebi muito mais tarde: cinema não era apenas diversão. Era observação do comportamento humano.
Minha mãe, Violeta, completava esse universo. Ela era apaixonada por cinema. Ia aos cinemas de Salvador com as amigas e carregava esse entusiasmo consigo. E foi ela quem me abriu definitivamente essa porta.
Quando viajei com mamãe para o Rio de Janeiro, eu tinha uns 16 anos. Ficávamos primeiro num hotel no centro da cidade e vivíamos uma maratona cultural. Assistíamos tudo: filmes, peças, espetáculos. Tudo!
Depois seguíamos para Copacabana e repetíamos o ritual. Mais tarde acontecia o mesmo em São Paulo.
Hoje percebo que aquelas viagens foram muito mais do que passeios. Eram cursos intensivos de mundo.
Minha educação sentimental teve professores improváveis: atores italianos, diretores franceses, dramaturgos ingleses e personagens que jamais imaginaram que estavam formando um adolescente baiano.
Aprendi inglês vendo filmes. Não em escola. Não em curso. Eu simplesmente me recusava a olhar legenda. Ficava tentando entender o som, o ritmo, as palavras. Uma teimosia juvenil que acabou funcionando.
Quando comecei a viajar a trabalho e sozinho para São Paulo, a obsessão cinematográfica já estava instalada. Aos domingos fazia verdadeiras maratonas: cinco sessões diferentes no mesmo dia. Cinco!
Entrava num cinema e saía em outro país.
Sempre fui apaixonado pelo cinema italiano. Havia uma humanidade extraordinária ali. O cinema francês me ensinou sutileza, ironia e silêncio. O inglês trouxe elegância e precisão.
Naquele tempo ainda não existia o domínio absoluto do cinema americano. Havia espaço para o mundo. As salas exibiam Europa, Ásia, América Latina.
Depois Hollywood não apenas venceu: comprou as salas, os horários e o imaginário.
O cinema europeu foi desaparecendo. Mas eu já tinha sido contaminado.
Frequentei praticamente todos os cinemas de rua de Salvador: Guarani, Glória, Excelsior, Pax, Popular, Oceânia, Tupy, Art, Politeama, Liceu…
Cada um deles guarda um pedaço da minha biografia.
Os cinemas eram mais que salas. Eram escolas informais. Ali aprendi sobre amor, política, injustiça, humor, tragédia e comportamento humano.
Talvez tenha aprendido mais sobre gente sentado numa poltrona escura do que em muitas reuniões políticas iluminadas.
Hoje continuo igual. Com os streamings, assisto no mínimo cinco filmes por semana. Revejo clássicos, descubro novidades, revisito diretores antigos.
Mas agora entendo uma coisa que aos 16 anos eu não sabia. Meu amor pelo cinema nunca foi apenas amor por filmes. Era amor pela curiosidade que herdei de meu pai. Era amor pela sensibilidade que herdei de minha mãe.
Os dois, cada um à sua maneira, construíram os alicerces da minha cultura e da minha visão do mundo.
Meu pai me ensinou a olhar para o futuro. Minha mãe me ensinou a olhar para as pessoas.
E o cinema acabou virando a ponte entre as duas coisas. Talvez por isso continue tão importante para mim.
Porque não foi apenas entretenimento.
Foi formação.
Foi memória.
Foi família.
E continua sendo, hoje, uma das maneiras mais bonitas que encontrei de continuar conversando com meus pais.
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