
Trilhas sonoras das minhas vidas
A música talvez seja a mais eficiente máquina do tempo já inventada. Muito mais poderosa que álbum de fotos, diário ou discurso político. Até porque discurso político envelhece mal. Música não.

Foto: Reprodução/Jornal Metropole
Há pessoas que guardam fotografias em caixas. Eu guardo músicas.
Basta tocar os primeiros acordes de uma canção antiga e pronto: desaparecem os 82 anos, os exames médicos, os remédios organizados em caixinhas e até a prudência geriátrica recomendada pelos cardiologistas. Volto instantaneamente para algum pedaço remoto da vida.
A música talvez seja a mais eficiente máquina do tempo já inventada.
Muito mais poderosa que álbum de fotos, diário ou discurso político. Até porque discurso político envelhece mal. Música não. Música envelhece como certas pessoas inteligentes: ganha rugas charmosas.
E minha vida musical nunca teve preconceitos ideológicos ou culturais. Convivi com boleros dramáticos, sambas-canção suicidamente românticos, guitarras elétricas revolucionárias e, ao mesmo tempo, com Mozart, Bach, Chopin e Beethoven ocupando lugar de honra na memória afetiva.
Ainda menino, assistia concertos no velho Instituto Normal da Bahia. Aquilo tinha para mim uma solenidade quase religiosa. O público elegante, o silêncio respeitoso, os músicos afinando instrumentos, aquele instante misterioso antes do maestro levantar os braços… Parecia que o mundo inteiro prendia a respiração.
Foi ali que descobri que um homem podia se emocionar profundamente sem entender absolutamente nada de técnica musical.
Wolfgang Amadeus Mozart me ensinou a leveza. Johann Sebastian Bach, uma espécie de arquitetura divina feita de som. Frédéric Chopin parecia transformar melancolia em elegância. E Ludwig van Beethoven me dava a sensação de que até o sofrimento podia ter grandeza.
As óperas e operetas, então, me fascinavam. Havia nelas um exagero emocional que combinava perfeitamente com o espírito latino. Pessoas cantando tragédias amorosas como se o mundo dependesse daquela nota aguda. Sempre admirei isso. Talvez porque, no fundo, a vida seja mesmo um pouco operística: todo mundo sofre mais alto do que deveria.
Depois vieram os boleros. Ah, os boleros…
Eles transformavam qualquer dor de cotovelo numa tragédia mexicana de proporções continentais. Naquele tempo, ninguém apenas namorava. Sofria-se profissionalmente.
Vieram então os sambas-canção, especialistas em ensinar à juventude brasileira que felicidade duradoura era uma hipótese improvável. Bastava Maysa sofrer um pouco, e metade do país mergulhava numa depressão sofisticada.
Aí apareceu a bossa nova.
E o Brasil resolveu acreditar, por alguns anos, que podia ser moderno, civilizado e suave. João Gilberto praticamente transformou o sussurro em patrimônio nacional.
Mas nenhuma revolução sonora foi tão devastadora quanto a chegada dos Beatles. The Beatles fizeram mais pela transformação comportamental do planeta do que muitos filósofos e líderes políticos. Depois deles, os cabelos cresceram, as certezas diminuíram e os pais passaram a olhar os filhos com sincera preocupação antropológica.
Vieram os hippies, pregando paz e amor enquanto o mundo continuava preferindo guerra, dinheiro e prestação do automóvel. Mas havia beleza naquela ingenuidade coletiva. A juventude acreditava sinceramente que podia mudar o planeta com flores, violões e alguma irresponsabilidade química.
No Brasil, tudo isso desembarcava misturado com a Jovem Guarda. Roberto Carlos ensinava o país a sofrer romanticamente dentro de carros conversíveis imaginários.
Ao mesmo tempo, a ditadura militar endurecia.
E talvez tenha sido justamente aí que a música brasileira atingiu sua maior sofisticação. Surgiram as músicas de protesto, as metáforas engenhosas, os compositores dizendo coisas gigantescas sem parecer dizer nada. A censura muitas vezes não entendia metade.
E então explodiu a Tropicália.
Aquilo não era apenas música. Era uma rebelião estética baiana organizada por gente geneticamente incapaz de respeitar limites culturais. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Bethania e Tom Zé misturaram guitarras, berimbau, poesia, deboche e política numa confusão genial que só poderia nascer na Bahia.
Mas, curiosamente, no meio de todas essas revoluções, Noel Rosa permanecia intacto. Porque Noel não envelhece. Apenas troca de geração.
Hoje percebo que minha biografia talvez esteja mais nas músicas que ouvi do que nos cargos que ocupei.
Cada época da vida possui sua trilha sonora particular. Existem canções que me devolvem pessoas já desaparecidas, ruas demolidas, campanhas eleitorais, mesas de bar, amores interrompidos e até versões minhas que já nem existem mais.
E o curioso é que não sinto saudade.
Sinto alegria.
Uma alegria quase espantada por ter atravessado tantas épocas, movimentos, sonhos coletivos e desilusões históricas, e ainda poder ouvir tudo isso novamente como quem reencontra velhos amigos numa mesa invisível.
Talvez envelhecer seja exatamente isso: transformar memória em música de fundo.
E descobrir, com algum espanto, que a vida passou rápido demais, mas teve uma trilha sonora absolutamente extraordinária
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