
Entre a escada e o soco: um capítulo de 1967
Ao saírem, no elevador do fórum, a tensão explodiu: houve troca de insultos, e um soco foi desferido por ACM na cara do vereador, tão forte que deslocou seu próprio ombro

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Até 1979, a política municipal de Salvador cabia numa escadaria. No Paço Municipal, com pátio interno e corrimões de mármore, uma escada dividia os poderes: subindo à direita, chegava-se ao gabinete do prefeito; à esquerda, ao plenário Cosme de Farias. Era dali que Antônio Carlos Magalhães, jovem, impetuoso e recém-nomeado em fevereiro de 1967 pelo regime militar, ouvia os discursos elogiosos e ofensivos dos vereadores. Bastava abrir a porta para saber quem falava e correr escada abaixo se sentisse a provocação atravessar a parede.
Naquele início de ditadura, ACM governava com o pulso quente. Quando um opositor o atacava no plenário, ele abandonava o gabinete e descia correndo para enfrentá-lo, às vezes no próprio plenário, às vezes no corredor. A tensão entre o prefeito e o vereador Antonino Casais, um dos críticos mais duros, cresceu até transbordar. Em discurso, o vereador denunciou supostas “comissões” pagas por empreiteiros; ACM não engoliu.
Houve troca de insultos e ameaças na escadaria do Paço. O caso acabou nos tribunais: o vereador entrou com uma ação por tentativa de agressão. Em 26 de dezembro de 1967, ambos se encontraram na Quarta Vara Criminal, no Fórum Rui Barbosa, para tentar um acordo. Não houve conciliação.
Ao saírem, no elevador do fórum, a tensão explodiu: houve troca de insultos, e um soco foi desferido pelo prefeito na cara do vereador, tão forte que deslocou seu próprio ombro, ironia para quem precisava de força para apertar mãos, porque dali iria receber cumprimentos de fim de ano.
Sem tempo para curativos, ACM seguiu para o Palácio da Aclamação, onde participaria, ao lado do governador Luís Viana Filho, a quem era subordinado, do beija mão tradicional e anual: autoridades, militares, empresários e puxa-sacos formavam fila para apertar a mão do governador e do prefeito. Cada cumprimento era uma dor infernal para quem estava com o ombro deslocado.
ACM sorria e aguentava. Ao final, pediu uma conversa reservada ao governador: confessou que se excedera, temia as consequências e anunciou que deixaria o cargo. Luís Viana, com o pragmatismo do regime, respondeu sorrindo: “Antonio, vá colocar seu ombro no lugar e vá trabalhar”. Não houve demissão, apenas mais uma cicatriz na biografia de um político criado na fricção.
A escada, o soco e as mãos doloridas revelam um tempo em que a política municipal era física, audível, às vezes violenta. No Paço, o poder não se escondia atrás de gabinetes insonorizados. Entre degraus e corredores, o prefeito ouvia, reagia e, se preciso, descia para defender seu orgulho.
São histórias que, hoje, parecem exageros de anedotas antigas, mas ajudam a entender a temperatura da ditadura e a mistura de audácia e destempero que marcou o início da carreira do homem que seria chamado, também, de Toninho Malvadeza.
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