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Luz, câmera e memória

Talvez essa seja a maior lição de quem vive muito: perceber que quase tudo muda. Mudam as roupas, as ideias, os amores, os governos, os medos e as tecnologias

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Confesso que sinto uma enorme alegria por ter vivido muitos anos. Não apenas porque continuo vivo. O que, convenhamos, já é uma bela notícia ao acordar todas as manhãs, mas porque tive o privilégio de assistir, na primeira fila, a algumas das décadas mais aceleradas da história humana.
Quando nasci, telefone era artigo de luxo, fotografia demorava para revelar, uma viagem internacional parecia uma expedição e computador era coisa de filme de ficção científica.
Hoje carrego no bolso um aparelho capaz de fazer tudo isso ao mesmo tempo, além de me interromper a cada cinco minutos com mensagens que, na maioria das vezes, poderiam perfeitamente esperar até o fim do século.
Vi a medicina realizar milagres. Cirurgias que antes exigiam coragem quase suicida, agora são feitas com precisão impressionante. Medicamentos prolongam vidas. Exames enxergam dentro de nós sem precisar abrir nada. Sou beneficiário direto dessa revolução e agradeço diariamente aos cientistas que trocaram o jaleco pela condição de mágicos modernos.
Também vi a explosão das comunicações.
Podemos assistir, em tempo real, a uma guerra do outro lado do planeta. Acompanhar bombardeios, tragédias, massacres e revoluções ao vivo, em alta definição. O curioso é que ficamos cada vez mais informados e, ao mesmo tempo, cada vez mais anestesiados.
A dor dos outros chega instantaneamente à nossa tela e desaparece com a mesma velocidade quando entra um vídeo engraçado de um cachorro dançando.
Estamos mais perto do mundo do que nunca.
E talvez mais distantes também.
Vi regimes liberais, ditaduras, democracias exuberantes e democracias de fachada. Vi o comunismo ser vendido como o caminho inevitável para a justiça social e o liberalismo prometer prosperidade para todos enquanto muita gente continuava esperando a entrega da encomenda.
Vi ditaduras serem defendidas como remédio para a corrupção. Como se a ausência de liberdade fosse uma espécie de detergente moral.
E vi o capitalismo evoluir para uma versão tão agressiva que, às vezes, parece ter assumido a função das antigas religiões. Antes as igrejas prometiam salvação da alma. Hoje a publicidade promete salvação através do cartão de crédito.
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E seja feliz. Ou pelo menos tente.
Diante disso tudo, não sinto saudade de épocas passadas. Tenho boas lembranças, claro. Mas nostalgia em excesso costuma ser apenas uma forma elegante de reclamar do presente.
Meu tempo é hoje.
Apareceu a inteligência artificial? Vamos mergulhar nela.
O convívio social mudou para o WhatsApp? Vamos entender como funciona e criar limites para que o celular não vire nosso dono.
Os jovens pensam diferente? Ainda bem.
Aliás, seria muito estranho se pensassem igual a mim.
Quando eu era jovem, também fui considerado estranho pelos mais velhos. Também desafiei costumes, ideias e certezas. Também ouvi que minha geração estava perdida, que o mundo estava acabando e que os jovens não respeitavam mais nada.
Pelo visto, o fim do mundo é um fenômeno que se repete a cada geração, e nunca chega.
Talvez essa seja a maior lição de quem vive muito: perceber que quase tudo muda. Mudam as roupas, as ideias, os amores, os governos, os medos e as tecnologias.
Mas permanece uma coisa fundamental: a curiosidade.
Enquanto eu continuar curioso diante do mundo, não importa a idade que apareça nos documentos. Continuarei sendo contemporâneo do meu próprio tempo.
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