
Quando os bordéis eram quase uma instituição
As moças respeitáveis cultivavam a virtude com zelo quase profissional. A virgindade, naquele tempo, era uma espécie de título de nobreza doméstica

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Durante muito tempo, especialmente entre a classe média e a burguesia brasileiras, a educação sentimental dos rapazes seguia um roteiro quase burocrático. As moças “de família” eram guardadas como porcelanas raras: intocáveis, intactas e, de preferência, entregues ao futuro marido com selo de garantia. Já os rapazes, esses coitados dominados por um “instinto selvagem”, eram discretamente encaminhados para os bordéis da cidade. Era ali que se resolvia, digamos, a parte prática da formação.
Não era exatamente um escândalo. Era quase um costume social. Uma espécie de estágio extracurricular masculino, transmitido de geração em geração com a naturalidade de quem recomenda um bom alfaiate. Os mais velhos aconselhavam, os amigos incentivavam, e os jovens iam cumprir o ritual de iniciação entre as chamadas “mulheres da vida”. Tudo muito civilizado — ao menos dentro da lógica moral da época.
Enquanto isso, as moças respeitáveis cultivavam a virtude com zelo quase profissional. O máximo permitido era alguma ousadia moderada — uma carícia mais entusiasmada, talvez um arranjo técnico conhecido como “botar nas coxas”. Ir além disso significava correr o risco de cair no purgatório social reservado às “faladas”. A virgindade, naquele tempo, era uma espécie de título de nobreza doméstica.
Esse arranjo curioso funcionou por décadas. Até que, entre o fim dos anos 1960 e o início dos 70, o mundo resolveu virar a mesa. A pílula anticoncepcional se espalhou, a chamada revolução sexual ganhou força e as namoradas começaram a participar mais ativamente da vida amorosa — inclusive na cama. De repente, o rapaz já não precisava atravessar a cidade até um bordel para resolver seus dilemas hormonais. Bastava namorar.
Foi o começo da decadência dos velhos puteiros tradicionais. Não porque o desejo humano tivesse diminuído — longe disso — mas porque as relações ficaram menos cercadas por hipocrisia social. As amadoras passaram a competir com as profissionais, e a concorrência foi devastadora.
Hoje, curiosamente, os bordéis voltaram a aparecer aqui e ali. Mas em versão empresarial, com marketing, preços estratosféricos e a elegante expressão “profissionais do sexo”. Nada a ver com as antigas casas barulhentas e cheias de histórias da velha Bahia.
O curioso é que, embora quase todo sujeito de certa geração conheça bem esse capítulo da história, poucos gostam de falar do assunto em público. Talvez porque a memória tenha o péssimo hábito de revelar que o passado, quando observado de perto, costuma ser muito mais divertido — e muito menos virtuoso — do que gostamos de admitir.
Em tempo: Autor de Riso-Choro (e tudo mais que vem no meio), um dos sucessos editoriais do ano, Mário Kertész vai reescrever para o Jornal Metropole, a partir desta edição, histórias narradas no livro em formato mais sintético e com linguagem jornalística.
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